Com deficiência e de origem humilde, cearense conclui ensino superior e compartilha próximos sonhos

Ricardo Oliveira nasceu com amiotrofia espinhal, venceu desafios para se formar em Mecatrônica, coleciona medalhas em olimpíadas de matemática e agora que cursar mestrado ou outra faculdade

Ricardo Oliveira
Legenda: Ricardo ensina que “a vida é feita de vários momentos, uns felizes que a gente deve lembrar, e de problemas. A gente sempre deve aproveitá-la ao máximo”
Foto: Honório Barbosa

Vem da zona rural de Várzea Alegre, uma localidade isolada e pobre, o sítio Vacaria, uma história de superação de vida. Ricardo Oliveira, 32 anos, é cadeirante, portador de amiotrofia espinhal. Mas isso não o impediu de colecionar cinco medalhas de ouro e duas de prata na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep) e se formar tecnólogo em Mecatrônica Industrial.

E o ânimo para continuar a se superar continua. “Quero voltar a dar palestras motivacionais para estudantes e, se tivesse condições financeiras, iria fazer outra faculdade ou um mestrado em matemática”.

"A minha vida é um caminhar de conquistas. Sonhava, mas achava que não conseguiria cursar uma faculdade por causa das condições financeiras da nossa família”, disse. “Pensava que ficaria somente no ensino fundamental, lá no sítio”.

Ricardo ensina que “a vida é feita de vários momentos, uns felizes que a gente deve lembrar, e de problemas. A gente sempre deve aproveitá-la ao máximo”.

E reforça: “A gente só tem duas opções – partir para luta ou entregar os pontos e, nesse caso, você já tá derrotado. Acho que só devemos ter coragem, ir pra frente, lutar, batalhar”.

Desafios na pandemia

Antes da pandemia, Ricardo atendia a convites e dava palestras sobre sua história de vida para alunos do ensino fundamental e médio. Costuma emocionar plateia e professores. Mas veio a pandemia do novo coronavírus e tudo mudou na vida dele.  

Desde o início de 2020, o hoje tecnólogo permanece isolado em casa, na Vila Confiança, zona urbana de Várzea Alegre, para se proteger da Covid-19. “Fui vacinado e, graças a Deus, não peguei a doença”, disse. “Essa pandemia afetou a vida de todos nós”.

As palestras motivacionais o ajudaram a juntar recursos para comprar uma casa simples, conjugada, em Várzea Alegre, onde mora com os pais.

“Quando passar essa pandemia, gostaria de voltar a dar palestras, ganhar um dinheirinho, porque preciso”, disse. “Quero trabalhar como palestrante e, quem sabe, um dia ser professor, se for aprovado em um concurso para o IFCE ou outra faculdade”.

Rotina

A rotina diária de estudos ocorre pela manhã. “É quando tenho mais energia, disposição e à tarde é muito quente, preciso descansar”. Quando chega a noite, segue-se um novo turno de estudo. “Sou ligado à matemática e na internet tem muitas coisas para se aprender e documentários para assistir”.

Desde criança, com as limitações físicas, acostumou-se a estudar sentado no chão, com um notebook, um caderno e uma caneta.

Ricardo Oliveira
Legenda: “A gente só tem duas opções – partir para luta ou entregar os pontos e, nesse caso, você já tá derrotado. Acho que só devemos ter coragem, ir pra frente, lutar, batalhar”, diz Ricardo Oliveira
Foto: Honório Barbosa

Ricardo Oliveira não usa redes sociais porque quer aproveitar o tempo “aprendendo novas coisas” e lembra com um sorriso leve no rosto, que realizou o sonho de obter uma formatura em nível superior. Entretanto, desejoso de aprender cada vez mais, revela que “gostaria de fazer outra faculdade na área de computação ou matemática”.

O entrave para realizar um novo sonho está nas condições financeiras da família. A mãe é aposentada com um salário mínimo e o pai ainda precisa esperar três anos para conseguir um benefício rural.

A saída de Várzea Alegre exigiria despesas de moradia e alimentação em outra cidade que oferecesse o curso superior que desejar ingressar, caso ele fosse aprovado.

Família

A mãe dele, Francisca Antônia da Conceição, 58, é professora aposentada da rede municipal de ensino e não economiza elogios ao filho. “Ele é meu anjo da guarda, uma bênção de Deus”, diz. “É um bom filho, não reclama e também eu não reclamo de nada, mas me preocupo com ele”.

O pai, Joaquim Oliveira, teve uma vida dividida entre as tarefas do roçado nos meses de chuva e a condução do filho para a escola, inicialmente na comunidade rural. O transporte era feito em um carrinho de mão por estrada de terra. “Sou dedicado a ele e faço tudo que ele precisa, com carinho e amor”.

Além de Ricardo, o casal teve Ronildo Oliveira, 28 anos, que está cursando Física, em Quixadá, no campus da Universidade Federal do Ceará (UFC).

Medalhas

Tudo começou no sítio Vacaria, em Várzea Alegre. O processo de alfabetização se deu em casa, com a mãe, Francisca da Conceição, professora do ensino fundamental, na rede municipal, que ensinou as primeiras letras e as atividades do primeiro ciclo do ensino fundamental. “Meu filho mais novo trazia da escola as tarefas e com os livros eu ensinava a ele, que logo teve uma aprendizagem rápida”, recordou.

Para o ensino fundamental II, Ricardo Oliveira era levado em um carrinho de mão para a escola, trajeto de ida e volta, feito pelo pai.

Em 2006, Ricardo obteve a primeira medalha de ouro na Obmep. A conquista foi repetida nos anos seguintes e no ensino médio. Foram cinco medalhas de ouro e duas de prata.

A conquista exigiu esforço do aluno, mas lhes trouxe reconhecimento nacional e alegria. “Não imaginava que poderia ganhar medalha, competindo com alunos de escolas melhores, com mais condições de estudo, e queria apenas medir o meu conhecimento”, disse. “Na primeira vez, fiquei muito surpreso, sem acreditar”.

A continuidade dos estudos no ensino médio na cidade de Várzea Alegre contou com o apoio da secretaria de Educação do município. “Sempre foi um aluno exemplar, que mereceu o nosso apoio”, lembrou o atual gestor, Zé Hélder, que na época administrava o município.

Após concluir o ensino médio em Várzea Alegre, na escola Maria Afonsina Diniz Macedo, Ricardo Oliveira ingressou no Instituto Federal de Educação (IFCE), campus de Cedro, e cursou Mecatrônica Industrial.

A família se mudou para Cedro, provisoriamente, e passou a morar ao lado do campus do IFCE para apoiar a realização do sonho do filho. Concluído os estudos, mãe, pai e filho retornaram para Várzea Alegre.

 

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