Cidades do Cariri se organizam para o retorno das aulas presenciais

Crato está reformando algumas escolas, enquanto Barbalha e Juazeiro do Norte instituíram comitês para debater a volta às aulas presenciais com diversos atores da sociedade

Escolas do Cariri estão ainda se organizando para decidir sobre a volta às aulas no segundo semestre letivo de 2021.
Legenda: Escolas do Cariri estão ainda se organizando para decidir sobre a volta às aulas no segundo semestre letivo de 2021.
Foto: Fabiane de Paula

Mesmo sem previsão, os principais municípios da região do Cariri — Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha — já estão se organizando para o retorno das aulas presenciais. O primeiro, por exemplo, começou a reformar suas escolas para receber os estudantes de forma mais segura. Já os dois últimos, criaram comitês que unem gestores, professores e representantes de pais de alunos para elaborar um plano em conjunto. 
 
Na última semana, o secretário de Saúde do Estado, Dr. Cabeto, informou que a imunização completa de professores e trabalhadores da educação contra a Covid estaria garantida com a segunda dose até agosto.  

No caso das cidades do chamado “triângulo Crajubar” — Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha — todas estão com vacinação acima de 90% do público de trabalhadores da educação com a primeira dose. Barbalha lidera vacinando 100,54% da meta, seguido por Crato (95,18%) e Juazeiro do Norte (94,44%). No entanto, na segunda, nenhuma delas ainda iniciou a aplicação da segunda dose. 

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Reformas

Mesmo aguardando a chegada de novas vacinas, a Secretaria de Educação de Crato já trabalha com previsão de início das aulas logo após ser completado o ciclo de imunização — três semanas após a aplicação da segunda dose. “A gente está se organizando, já em diálogo com a Secretaria de Saúde, mas dependemos da imunização”, conta a titular da Pasta, Germana Brito.  

Ainda que não tenha previsão, já foram enviados para as escolas totens para distribuição de álcool em gel nas entradas e dispersores nas salas de aula. Paralelo a isso, foi feita uma vistoria em parceria com a Secretaria de Infraestrutura de Crato para verificar as condições de escolas e creches. Nisso, foram definidas algumas reformas. No momento, dez unidades estão recebendo as melhorias. “São obras de recuperação e estrutura para dar melhor acolhimento, um local limpo, arejado, que torne mais seguro”, conta a secretária.  

O plano de retomada de Crato também incluiu que, no máximo, as salas comportarão 40% da capacidade, podendo ser menor, dependendo de sua estrutura. “A gente sabe que difere muito. Tem salas que serão até 30%, porque são menores. Difere muito”, reconhece Germana. Outra medida adotada é a divisão de turmas, que assistirão aulas presencialmente por duas semanas, enquanto o outro grupo acompanha de forma remota.  

Desde março, os estudantes da rede municipal de ensino de Crato estão tendo aulas remotas através de uma plataforma própria com vídeos, aulas e tarefas. Aqueles que não têm acesso à internet, recebem materiais didáticos e atividades das disciplinas em suas casas. A devolução acontece na escola e, lá, podem receber orientação dos professores. “A gente trabalha da melhor forma possível na questão do controle diário da frequência e na busca ativa junto com professores e coordenadores, além da secretaria fazendo esse suporte”, acrescenta a gestora.  

Planejamento participativo

Em Juazeiro do Norte, foi criado um comitê com representantes de diversos segmentos educacionais que, desde abril, constrói o chamado “Pano de Retorno Seguro às Aulas Presenciais”. Neste grupo, reúne equipe técnica da Secretaria Municipal de Educação (Seduc), gestores, representantes de pais, dos servidores e do Conselho Municipal de Educação.  

Seus membros, desde que o comitê foi instituído, trabalham para adaptar o plano do Governo Federal e a nota técnica de referência do Governo do Estado à realidade do Município. Nele, há cinco diretrizes: governança, administrativo e financeiro, sanitário, pedagógica e gestão de pessoas. “Nisso, construímos ações e produtos sobre a nossa realidade”, explica o professor José de Caldas, gerente de formação de gestores da Seduc e membro do comitê.  

Na prática, o plano será uma referência, mas cada unidade de educação irá adaptá-lo à sua realidade, junto com o conselho escolar e sua comunidade. “Cada escola tem sua especificidade. Nela, poderão analisar as condições no bairro, o monitoramento de casos, a acolhida aos estudantes”, justifica Caldas.  

Até agora, o comitê já definiu aspectos da governança, como as parcerias com a Secretaria de Saúde em relação ao acompanhamento dos dados epidemiológicos, e administrativa/financeiro, como a destinação de recursos para adaptação das escolas, que vai desde a criação de estações de higiene à distribuição de totens com álcool em gel.  

Porém, o plano avança em outras discussões, como a sanitária, que inclui a construção do procedimento operacional padrão para a manipulação dos alimentos que serão servidos, observando protocolos de higienização da cozinha e talheres, por exemplo. Tudo isso será repassado aos profissionais através de formações. Dentro desta diretriz, também se debate o transporte escolar. “Já definimos por higienização de acentos, rotas, limpeza do transporte e frequência que isso acontecerá”, descreve.  

Outra iniciativa é a criação de espaços de isolamento para o caso seja identificado sintomas de Covid em algum estudante em sala de aula. “Poderemos resguardar a saúde dos outros estudantes até chamar os pais ou encaminhar para algum hospital”, antecipa Caldas. Ainda na perspectiva dos espaços físicos, já foi feito um levantamento por sala e cadeiras da capacidade adequada de cada escola. O limite máximo será de 35%. “Depende das escolas. Muda bastante. Temos algumas com 1.200 alunos e outros na zona rural com 100. Proporções bem diferente”, completa.  

Sobre o ensino, a equipe que discute a parte pedagógica avalia diversas possibilidades, como a continuidade do ensino remoto como forma híbrida e, também, a possibilidade de deixar a família do estudante escolher pelo retorno às aulas presenciais. “Alguns podem não estar prontos para voltar. A gente tem cenários de estudantes que perderam entes queridos com a doença. Outros que mantêm idosos na família e têm esse cuidado”, admite. 

Barbalha mantém planejamento semelhante

De forma similar que Juazeiro do Norte, Barbalha trabalha com um plano de retomada construído em reuniões com diversos atores da Educação, Saúde, Vigilância Sanitária, representante de pais e representantes de escolas particulares. “Nossa expectativa é que retorne o mais rápido possível. Nosso aluno está há um ano e meio sem aulas presenciais, sem contato social, expostos à vulnerabilidade, à violência e às drogas”, alerta a secretária de Educação do Município, Jussara Luna.  

Para que isso aconteça, prevê um retorno de forma híbrida, com rodízio de alunos no formato presencial e remoto. “É uma opção que dá tranquilidade de colocar uma quantidade segura para que não haja proliferação do vírus”, acredita a gestora. No retorno, a Secretaria planeja um diagnóstico de como está a aprendizagem dos alunos. A iniciativa complementa uma pesquisa que foi feita online em relação ao ensino remoto.

Teremos que recuperar a aprendizagem neste período”.
Jussara Luna
Secretária de Educação de Barbalha
  

Um novo encontro do comitê está agendado para agosto. Apesar de próximo de ser concluído o plano, Jussara ressalta: “Não tem como o plano ficar consolidado. A pandemia é dinâmica. Constantemente será discutido e adaptado à realidade”. 

Cuidados

A virologista, epidemiologista e professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC), Caroline Gurgel, ressalta que não existe um modelo para o retorno presencial que garante total segurança para a transmissão da Covid-19. “Num mundo ideal todo mundo estaria de máscara PFF2, manteria a distância de mais de um metro, mas isso não ocorre. É humanamente impossível não ficarmos perto, brincar, não registrar uma imagem juntos”, observa.  

Contudo, ela reforça a necessidade dos protocolos para reduzir ao máximo a possibilidade de transmissão do vírus. “Se reduz as turmas, diminui a possibilidade de um aluno ir com vírus também”, argumenta. Sobre as possíveis dificuldades de manter, ao máximo, os protocolos, a epidemiologista pondera: “Tudo deve ser colocado na balança. Quando a gente pensa que essas crianças, por vezes, não têm nada além do que a escola, chegou um momento de ver, realmente, o que está sendo pior que a pandemia. E a educação não pode ficar de fora”, finaliza.

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