A economia de Jaguaribara parou

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Redação producaodiario@svm.com.br
Legenda: Em julho de 2015, ocorreu a primeira grande mortandade de pescado, dizimando quase 90% dos viveiros, depois a atividade continuou decaindo
Foto: Fotos: Honório Barbosa

Jaguaribara. O maior açude do Ceará, Castanhão, que era um verdadeiro mar de água doce, está bastante reduzido. Acumula apenas 6% de sua capacidade. O reservatório vive a sua pior crise desde quando foi construído e encheu, em fevereiro de 2004. Nos últimos doze anos, projetos de produção de pescado, frutas, plantio de capim e criação de animais foram implantados, mesmo que parcialmente, para atender a necessidade de milhares de moradores, produtores da antiga Jaguaribara, encoberta pelo "mar d'água".

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Oportunidades

Era preciso assegurar o acesso à terra, oferecer oportunidades de trabalho e de renda para moradores transferidos de suas áreas para um novo centro urbano e projetos produtivos em vilas rurais. Famílias ganharam casas, lotes, financiamento, água e energia para a irrigação de culturas. Entretanto, os projetos agropecuários não avançaram. A atividade que ganhou destaque foi a piscicultura: criação em cativeiro de tilápia por grupos associativos, pequenos produtores e empresários.

O peixe criado no Castanhão gerou emprego e renda para centenas de famílias, que melhoraram de vida. Adquiriram veículos (carros, motos), móveis e eletroeletrônicos, além de ampliar casas. "Quem estava organizado e tinha coragem de trabalhar estava de vento em popa com renda mensal de até três salários mínimos", observou o presidente da Cooperativa dos Piscicultores do Curupati-Peixe, Ernesto Gois.

Crise

Houve um período em que a criação de peixe deu boa renda. Os grupos se multiplicaram. Empresários foram atraídos, movidos pelo lucro. Milhares de gaiolas ocuparam grande parte do espelho d'água do Castanhão, com a criação e expansão de parques aquícolas. Mas veio a crise. A partir de 2012, o reservatório começou a perder água e, por cinco anos seguidos, o cenário só se agravou.

Em julho de 2015 ocorreu a primeira grande mortandade de pescado, dizimando quase 90% dos viveiros. O governo do Estado socorreu com alevinos e ração. A criação foi retomada. Mas um ano depois, nova mortalidade de peixe atingiu os piscicultores. "Só ficaram os pequenos", disse o produtor José de Anchieta Nogueira, 42. "Perdemos quase tudo", resumiu.

"Se continuar do jeito que está, só teremos condições de produção até fevereiro de 2017", disse Ernesto Gois. Nas margens do açude, na Península do Curupati-Peixe, gaiolas estão encostadas. As que ficaram na água têm menor quantidade de pescado.

Muitos já deixaram a atividade mediante o agravamento das dificuldades. "Parei porque não tive mais condições de continuar", disse o piscicultor Leopoldo Gomes, 53. "O governo nos ajudou, mas veio a segunda mortandade e os prejuízos foram enormes". Agora Gomes dedica-se ao abatimento e venda de carne de criação na comunidade. "Quando o açude encher novamente, pretendo voltar à atividade", afirma.

A Cooperativa dos Piscicultores do Curupati-Peixe contava com 40 produtores, mas agora permanecem apenas 13. Outros desistiram da atividade ou preferiram trabalhar de forma individual. Antes da primeira mortandade, chegou a produzir 60 toneladas de tilápia por mês em 550 gaiolas. Atualmente, produz 10 toneladas/mês. A renda de cada cooperado está em torno de um salário mínimo.

No olhar dos piscicultores, a água no Castanhão continua baixando e trazendo preocupação para os produtores. José Airton Maurício Bandeira, 44, é produtor de tilápia há cinco anos. Permaneceu na cooperativa. "Vamos enfrentar as dificuldades juntos. Esse é o pior ano em 12 anos e estamos tentando recuperar o que perdemos", declarou.

Aposta

Os pequenos piscicultores têm histórias semelhantes. Vieram de áreas agrícolas que foram alagadas pelas águas do Castanhão. Deslocados para o Curupati-Peixe, passaram a viver na agrovila e logo surgiu o projeto de criação de tilápia em tanques-redes. Veio trabalho e renda. "O momento agora é de perda de rendimento, mas vai passar", disse Anchieta Nogueira com otimismo.

O presidente da Cooperativa resiste e lembra que antes não queria participar da atividade, temendo o insucesso. "Foi a minha esposa que me incentivou", disse Ernesto Gois. "Antes, a gente cuidava de gado na velha Jaguaribara e não conhecia esse trabalho de produzir pescado em gaiolas", contou.

Economia afetada

A perda de receita com a atividade de piscicultura no Castanhão afeta a economia local. A pequena cidade de Jaguaribara, planejada urbanisticamente, apresenta ruas largas, cortes retos, e é plana. Há uma sensação de esvaziamento. Os lojistas e comerciários são unânimes na reclamação de queda nas vendas.

"Temos uma crise geral e uma localizada depois da morte dos peixes no açude", disse o empresário Luís Gomes. "Com menos dinheiro, as famílias compram em menor quantidade", concluiu. O varejo foi muito afetado. Donos de postos de combustíveis e de lojas de eletroeletrônicos estimam queda de 25% desde julho do ano passado. (H.B.)

ENQUETE

Qual é a situação atual?

"A situação vem piorando muito desde julho de 2015. Agora é a falta de água que preocupa. Até fevereiro a gente produz, mas depois ninguém sabe como vai ficar, talvez tenha que parar tudo"

Ernesto Gois

Pres. Da Coop. Dos Piscic. Do Curupati-Peixe

"Parei de produzir porque o Castanhão está secando e as condições estão muito ruins. Tivemos dois prejuízos grandes. No primeiro, o governo ajudou, mas no segundo não veio mais apoio"

Leopoldo Gomes

Piscicultor