Diretor do Ministério da Saúde que autorizou reverendo a negociar vacinas é exonerado

O desligamento do servidor Lauricio Monteiro Cruz foi publicado no Diário Oficial da União nesta quinta-feira (8)

Lauricio Monteiro Cruz
Legenda: E-mails revelam que o médico-veterinário deu aval para que Amilton Gomes de Paula e sua organização, Senah, negociassem a compra de 400 milhões de doses da AstraZeneca
Foto: divulgação/CFMV

O diretor da Imunização e Doenças Transmissíveis da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, Lauricio Monteiro Cruz, foi exonerado nesta quinta-feira (8). Ele havia autorizado que um reverendo negociasse 400 milhões de doses de vacina AstraZeneca em nome do Governo Federal com a empresa Davati Medical Supply. As informações são do G1.

O desligamento do servidor foi publicado no Diário Oficial da União e assinado pelo ministro chefe da Casa Civil, Luiz Eduardo Ramos.

Em e-mails revelados pelo Jornal Nacional, o médico-veterinário chancelou que o reverendo Amilton Gomes de Paula e sua organização, a Secretaria Nacional de Assuntos Humanitários (Senah), negociassem os imunizantes.

Em uma das mensagens, Amilton Gomes chega a tratar de valores do imunizante, pedindo a atualização do preço da AstraZeneca para 17,50 dólares por dose. O valor é equivalente ao triplo dos 5,25 dólares que o MS pagou em cada dose da vacina comprada de um laboratório da Índia em janeiro. 

Na quarta-feira (7), a CPI da Covid aprovou a convocação do reverendo. O nome dele foi citado pela primeira vez na comissão no dia 1º de julho, em depoimento do policial militar Luiz Paulo Dominguetti. O PM se apresentou como representante da Davati Medical Supply, companhia que atuaria como intermediária na compra de vacinas.

Segundo Dominguetti, ele recebeu uma cobrança de propina durante as negociações com o governo brasileiro. O PM teria participado de duas reuniões no MS — as quais teriam sido viabilizadas pelo reverendo — com Lauricio Cruz, o tenente-coronel Marcelo Blanco, ex-assessor do Departamento de Logística, e com o coronel Élcio Franco, secretário-executivo da Pasta àquela altura.

E-mails do reverendo

No dia 23 de fevereiro, Lauricio Cruz enviou um e-mail para Amilton Gomes. O assunto da mensagem era "lista de presença e carta de proposta para fornecimento". O conteúdo começa agradecendo a disponibilidade da Senah, representada pelo reverendo, na apresentação de proposta comercial para o fornecimento de 400 milhões de doses da vacina AstraZeneca.

Ao fim, Cruz diz que "todos os processos de aquisição de vacinas no âmbito do Ministério da Saúde estão sendo direcionados pela Secretaria Executiva".

No dia 4 de março, o reverendo publicou fotos de uma reunião no MS em uma rede social, com Cruz em um dos registros. Na postagem, Amilton Gomes disse que a Senah fazia reunião na Pasta para "articulação mundial em busca de vacinas e para a consecução de uma grande quantidade dos imunizantes a ser disponibilizada no Brasil".

Registro publicado pro Amilton Gomes de reunião no Ministério da Saúde
Legenda: Reverendo publicou fotos de uma reunião no Ministério da Saúde em rede social
Foto: reprodução/redes sociais

Em 9 de março, Cruz envia outro e-mail, endereçado a Herman Cardenas, presidente da Davati nos Estados Unidos. Na mensagem, ele informa que a Senah, representada por Amilton Gomes, esteve no Ministério da Saúde em agenda oficial da Secretaria de Vigilância em Saúde e no Departamento de Logística com a discussão sobre as tratativas sobre a vacina da "AstraZenica" e que o mesmo fora encaminhado para a Secretaria Executiva do Ministério da Saúde.

O diretor de Imunização deixa claro, em outro trecho da mensagem eletrônica, que a Senah tinha aval da Pasta para negociar a compra de vacinas com a Davati. "Por fim, esperamos que os avanços de forma humanitária entre o Ministério e 'AstraZenica' pelo Instituto Nacional de Assuntos Humanitários", escreveu.

No dia seguinte, em 10 de março, o reverendo Amilton Gomes enviou e-mail em inglês para Herman Cardenas. No texto, ele agradece a confiança depositada na Senah em conduzir tratativas com o MS, incluindo que "as negociações estão em estágio final e a expectativa é que o contrato seja assinado em 12 de março de 2021".

O reverendo pede ainda que os dados para o preenchimento do contrato de aquisição dos imunizantes sejam enviados, além do SGS para ser enviado ao ministro quando ele requisitasse. SGS é o nome de uma empresa de certificação que atesta a conformidade de determinado produto com as normas e regulamentações vigentes. 

Ao fim, Amilton Gomes faz um pedido. "Nós solicitamos com urgência o FCO atualizado, com o valor de US$ 17,50 como acordado em 5 de março e com a data de entrega". O FCO é uma sigla que equivale a "oferta completa de venda". Um dia depois, o reverendo envia uma nova mensagem, em inglês, reafirmando o papel da Senah para o presidente da Davati.

Amilton Gomes pede a presença de representantes da Davati no encontro, logo no dia seguinte. Cristiano Carvalho, representante da Davati no Brasil, afirmou ao Jornal Nacional, por telefone, que a reunião com Élcio Franco, na época secretário-executivo do MS, ocorreu dia 12 de março pela manhã.

Na agenda oficial de Franco, porém, havia uma reunião com o presidente do Instituto Força Brasil, coronel Hélcio Bruno de Almeida, em 12 de março. O representante da Davati afirma que ele também participou do encontro.

Élcio Franco foi exonerado do cargo em 26 de março, e o negócio com a Davati não foi concretizado.