Bolsonaro na ONU: especialistas apontam contradições entre discurso e realidade

Em pronunciamento na Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, o presidente Jair Bolsonaro se dirigiu à base de apoiadores

Legenda: O presidente brasileiro discursou na abertura dos trabalhos na ONU
Foto: AFP

O discurso de Jair Bolsonaro (sem partido) abrindo a Assembleia Geral das Nações Unidas, nesta terça-feira (21), gerou questionamentos sobre o Brasil real e aquele descrito pelo presidente da República no evento internacional. O Diário do Nordeste conversou com especialistas sobre o assunto.

Na avaliação de cientistas políticos, o mandatário reforçou o personagem negacionista perante a comunidade internacional, seja por apresentar um panorama do País que não condiz com a situação vivenciada pelos brasileiros, seja por se manter em choque com a ciência em questões relacionadas à pandemia.

Bolsonaro afirmou ter ido à ONU para mostrar um Brasil diferente do que é exposto em jornais e televisões. Destacou a legislação e a preservação ambiental, a recuperação econômica e a credibilidade junto a investidores, os avanços da vacinação, a ausência de corrupção, o combate à intolerância, a política externa responsável e uma política econômica capaz de sanear gastos públicos e se mostrar eficiente.

Além disso, condenou o "lockdown" e exaltou o "tratamento precoce", indo na contramão da ciência.  

Discurso aos radicais 

Para a doutora em Ciência Política e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Mayra Goulart, o discurso do presidente convenceu apenas a base de apoiadores mais fiéis. A estratégia, segundo ela, é típica da nova direita populista em todo o mundo.

É a alimentação de bolhas de dissonância cognitiva. Esse tipo de líder não é um líder que fala para maiorias, ele fala com a intenção de manter cativos seus grupos nichados de apoiadores mais fiéis e radicalizados. Esse é o sentido do conteúdo mais forte desse discurso, que se apresenta como anticomunista e temente a Deus
Mayra Goulart
Doutora em Ciência Política e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

Mayra Goulart destaca um forte componente de “rejeição da realidade” no discurso de Bolsonaro. “Quando ele começa dizendo, por exemplo, que a corrupção acabou no Brasil, e foi praticamente o que ele disse, que não há escândalos de corrupção detectados nos últimos anos, ele está ignorando que há um avançado processo de investigação sobre o escândalo da rachadinha nos gabinetes dele e dos filhos dele”, argumenta a professora. 

Presidente Bolsonaro discursa na Assembleia Geral da Onu
Legenda: Em discurso na Assembleia Geral da ONU, o presidente Jair Bolsonaro voltou a dar declarações anticiência e apresentou dados contestados por especialistas
Foto: Eduardo Muñoz/AFP

Outro aspecto que, de acordo com a cientista política, reforça a postura negacionista é a questão ambiental. “Ele tenta rejeitar todas as evidências de que há uma deterioração agressiva da qualidade ambiental no Brasil durante o governo dele", aponta a professora, que também vê pontos “afirmativos” no discurso, quando Bolsonaro se coloca contra a obrigatoriedade das vacinas e a favor do ineficaz “tratamento precoce” contra a Covid-19. “Ele dobra a aposta e se mantém fiel a esse discurso mais radicalizado. Em síntese, reforça a figura negacionista do Bolsonaro perante o mundo, assim como o lugar dele como populista radical de direita”, conclui. 

Brasil “paralelo” 

Professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM), de São Paulo, o cientista político Rodrigo Prando chama atenção para as contradições entre o discurso de Bolsonaro e a realidade dos brasileiros.

Em síntese, esse país que o Bolsonaro mostra na ONU não é o país em que nós vivemos. Fosse assim, o governo dele não seria amplamente rejeitado, como mostram todas as pesquisas. Recentemente, uma delas mostrou que 58% dos brasileiros não acreditam no que o presidente fala. Se os brasileiros não acreditam, muito menos ainda o ambiente internacional, aqueles que estão na ONU
Rodrigo Prando
Professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, de São Paulo

No campo econômico, além de se colocar como gestor liberal capaz de dar eficiência ao gasto público, Bolsonaro tentou, mais uma vez, se eximir de responsabilidades pelos problemas. “O Brasil retratado no discurso não é o Brasil que nós temos na prática, um Brasil com inflação alta, que ele diz, no limite, que é culpa dos governadores, do lockdown. Ele está absolutamente distante da realidade. Para comprovar isso, basta ver os números de crescimento de São Paulo e do restante do Brasil, que não comprovam essa tese do presidente Bolsonaro”, afirma Prando. 

Na avaliação de Prando, Bolsonaro tentou se defender diante da comunidade internacional, mas não convenceu. “O bolsonarismo vive do quadrilátero: negacionismo, fake news, teoria da conspiração e pós-verdade. E ele só reafirma isso no discurso. É um presidente que tem que comer na calçada, porque não pode acessar um restaurante, que deixa claro que é contra o passaporte da vacinação. É alguém que tem uma leitura hiper individualista do que é liberdade, sem pensar na responsabilidade e no senso de solidariedade e coletividade”, critica o professor. 

Passagem polêmica 

Bolsonaro chegou a Nova York na madrugada de domingo (19) e, desde então, vem colecionando polêmicas que repercutiram no noticiário internacional. Depois de entrar pela porta dos fundos do hotel, para escapar de manifestantes, o presidente comeu pizza na calçada, ao lado de parte da comitiva.

Pelas regras nova-iorquinas, clientes só podem ser atendidos em espaços internos caso comprovem estarem vacinados, e Bolsonaro tem insistido que ainda não se imunizou, embora tenha imposto sigilo de 100 anos ao seu cartão de vacinação. 

Bolsonaro é o único líder entre as maiores economias do planeta que declara não ter se vacinado contra a Covid-19, algo que ele fez questão de reforçar nessa segnda-feira (20), em encontro com o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson. Após elogiar a vacina Oxford/AstraZeneca, produzida também em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz, do Brasil, Johnson afirmou: “Já tomei duas vezes”. A resposta de Bolsonaro, para riso de aliados, foi que ele “ainda não”.

Legenda: Jair Bolsonaro se encontrou com o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson
Foto: AFP

A recusa de Bolsonaro em apresentar seu cartão de vacinação fez com que uma churrascaria brasileira com filial em Nova York montasse uma estrutura externa para receber a comitiva brasileira na tarde de segunda. A postura antivacina do presidente da República incomodou o prefeito Bill de Blasio, que se dirigiu diretamente a Bolsonaro em uma transmissão de vídeo

“Precisamos mandar uma mensagem a todos os líderes mundiais, incluindo mais notavelmente Bolsonaro, do Brasil, que se você pretende vir aqui, precisa estar vacinado. Se não quiser ser vacinado, não incomode vindo, porque todo mundo deveria estar junto”, disse de Blasio.


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