Embates ideológicos, negacionismo e fake news: como a politização afeta o combate à pandemia?

Para cientistas políticos, discursos populistas e anticientíficos sobre suposto tratamento precoce e medidas de distanciamento social, por exemplo, são acenos às bases eleitorais, mas há riscos em meio à segunda onda da Covid-19

Legenda: Medidas restritivas para evitar aglomerações são constantemente alvo de divergências políticas
Foto: Helene Santos

Embates ideológicos, propagação de informações sem comprovação científica por políticos, o negacionismo que vai de falas, em discursos nos parlamentos, a atitudes, no não uso de máscaras por representantes do povo, por exemplo. Ao passo que o Brasil atravessa seu pior momento da crise sanitária e ultrapassa 260 mil mortos pela Covid-19, a politização da pandemia impõe obstáculos ao enfrentamento da segunda onda da doença.

Nos últimos dias, a polêmica do suposto tratamento precoce para a Covid-19 acirrou ânimos na Assembleia Legislativa do Ceará, enquanto em âmbito nacional os conflitos entre o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e governadores seguem expondo divergências exponenciais em relação às medidas que buscam frear a disseminação do novo coronavírus.

Analistas políticos entrevistados pelo Diário do Nordeste indicam que, além de um aceno às bases, a politização ideológica em detrimento da ciência joga luz nas eleições de 2022. A postura do presidente, que, em recorrentes situações, aposta na transferência de responsabilidade aos estados, é vista como estratégia, uma vez que ele poderá alimentar o argumento de que a culpa dos altos índices de casos - e  mortes provocadas pela doença -  advêm, na realidade, de certa omissão dos governos estaduais no combate ao vírus.

“Ele (Jair Bolsonaro) foca na crise econômica que estamos passando, e tenta responsabilizar a oposição - no Congresso ou nos estados - pelo aumento da miséria e da pobreza da população brasileira”, avalia o cientista político Edir Veiga Siqueira, professor da Universidade Federal do Pará (UFPA).  

A tática se estende a seguidores de Bolsonaro. No Ceará, por exemplo, ecoou na semana passada o discurso sobre suposto tratamento precoce contra a Covid-19. Na quinta (4), o deputado Delegado Cavalcante (PSL) subiu à tribuna da Assembleia Legislativa e recomendou chá de boldo e ivermectina como formas de combater a doença.

Para o cientista político e professor universitário Cleyton Monte, assim como em casos semelhantes, o discurso se comunica com a base político-eleitoral do parlamentar. 

“A fala tem uma repercussão nas redes sociais muito grande. (...) Essa é a arena desse grupo. Dentro da Assembleia é algo risível, mas nas arenas só ganha repercussão. E é uma fala em defesa do Governo Federal, um discurso completamente anticientífico; uma fake news institucional”, avalia ele, pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia (Lepem) da Universidade Federal do Ceará (UFC).

Estratégia de Bolsonaro 

Nesta terça-feira (9), completa um ano de uma das primeiras investidas do presidente contra o potencial da doença. Durante viagem a Miami (EUA), Bolsonaro disse que estaria “superdimensionado o poder destruidor desse vírus. Então, talvez esteja sendo potencializado até por questão econômica, mas acredito que o Brasil, não é que vai dar certo, já deu certo".

Já na última visita que fez ao Ceará, em 26 de fevereiro, durante discurso que rivalizava com medidas de isolamento social impostas por governos estaduais, o chefe do Palácio do Planalto chegou a dizer que "governador que fecha seu estado e que destrói emprego, ele é quem deve bancar o auxílio emergencial".  

“Tudo passa a ser opinião: você não consegue debater com argumentos, porque não se aceita o embasamento científico. É um outro patamar de conversa; a mente dessas pessoas funciona dentro de esquemas míticos e aleatórios: não tem nada a ver com razão, racionalidade e é por isso que se vê esse tipo de absurdo”, opina Cleyton Monte. 

Na mesma fala, ainda em território cearense, o chefe do Executivo Nacional reafirmou que não é possível tratar separadamente a Covid-19 e a economia, sentenciando que a “politicalha do ‘fica em casa’ não deu certo e não vai dar certo”.  

Relembre discurso do presidente em Tianguá:

Edir Veiga Siqueira analisa que o presidente “sabe que a crise econômica é pela pandemia, mas tenta jogar o trabalhador privado, o pequeno e os grandes comerciantes contra a oposição". "Caso em 2021 seja aprovado o auxílio emergencial, por mais restrito que seja, o Governo Federal que será o ‘pai’. Com isso, ele estará combatendo os governadores e ao mesmo tempo vai estar dando o auxílio", observa.

Protagonismo federal

Na avaliação do cientista político Raulino Pessoa Júnior, professor da Universidade Regional do Cariri (Urca), “o grupo bolsonarista não nega a Covid, não nega que o vírus existe, mas em termos de posição política se posiciona contrário às medidas restritivas, e acaba nesse caso piorando o cenário”.  

Ele lembra ainda que, em situações pontuais, o Governo Federal tentou emplacar certo protagonismo no combate à pandemia no Brasil. Como quando chegou a preparar um avião para viajar até a Índia em busca de vacinas. A missão, no entanto, não teve permissão do governo indiano.  

Outra investida do Planalto foi o envio de uma comitiva de dez pessoas para Israel no sábado (6), para acompanhar o desenvolvimento de um spray nasal. O composto seria usado para combater o novo coronavírus, mas ainda não apresenta resultados comprobatórios. Está sendo testado em 30 voluntários. 

Jair bolsonaro e o negacionismo
Legenda: Na última visita que fez ao Ceará, em 26 de fevereiro, Bolsonaro chegou a dizer que "governador que fecha seu estado e que destrói emprego, ele é que deve bancar o auxílio emergencial".
Foto: Evaristo Sá/AFP

"Mimimi"

Na última quinta (4), Bolsonaro voltou a criticar severamente medidas de isolamento social no País e reiterou que os problemas precisam ser enfrentados. "Nós temos que enfrentar os nossos problemas, chega de frescura e de 'mimimi'. Vão ficar chorando até quando?”, questionou, durante evento em São Simão (GO).  

Já nesta segunda (8), em entrevista na saída do Planalto, em Brasília, ao reiterar que não decretaria lockdown no País, ele sugeriu que há uma união de alguns setores para tentar retirá-lo do cargo. “Raros são os países que estão aproveitando a pandemia para tentar derrubar o presidente”, sustentou.  

Para a cientista política Monalisa Torres, professora de Teoria Política da Universidade Estadual do Ceará (Uece), trata-se de um discurso populista.

“O líder tem a identificação daqueles que seriam responsáveis pelo grande mal, com a promessa de estabelecer a ordem. Bolsonaro se apropriou muito do discurso anticientífico ao dizer que foi uma gripezinha, uma conspiração chinesa, e ele insite nisso. O grande problema é a politização”, analisa.

Monalisa Torres, sobre a conduta do presidente, ressalta que que Bolsonaro “só iniciou a compra de vacinas depois que João Doria (PSDB) [governador de São Paulo], tomou a frente. Isso abriu espaço para que a liderança ou o capital político da vacina fortalecesse o Doria em 2022”. O tucano é avaliado como um dos potenciais candidatos à Presidência da República nas eleições do ano que vem.

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