Como o desempenho do Ceará na vacinação se tornou alvo de disputa política nacional

Mudança de postura em ala da direita cearense cria disputa entre Governo e oposição sobre a vacinação no Ceará e o papel do Governo Federal

Vacinas são enviadas ao Estado pelo Governo Federal e distribuída aos municípios
Legenda: Vacinas são enviadas ao Estado pelo Governo Federal e distribuída aos municípios
Foto: Tatiana Forte/Governo do Ceará

Mesmo avançando a passos lentos no Brasil, a vacinação contra a Covid-19 virou espaço de disputa política no Ceará. Políticos que até então carregavam como principal bandeira o “tratamento precoce” passaram a defender a vacinação. Eles também fazem uma ofensiva para cobrar do Governo do Estado a aplicação mais célere do imunizante.

O ápice da disputa ocorreu na última quarta-feira (24), quando o governador Camilo Santana (PT) se juntou ao youtuber Felipe Neto para rebater publicação do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL) e do deputado estadual André Fernandes (Republicanos). 

Na semana passada, parte dos parlamentares cearenses alinhados à direita passaram a acompanhar a chegada de vacinas enviadas pelo Governo Federal.

Até agora, o Estado recebeu onze lotes dos imunizantes – e é considerado o segundo que mais aplicou as vacinas na população. 

A mudança de tom dos opositores coincide com estratégia política do presidente Jair Bolsonaro em tentar assumir protagonismo na campanha de vacinação.

No dia 10 de março, um dos filhos de Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos), chegou a pedir aos seus seguidores para compartilhar uma foto de seu pai com a frase: “Nossa arma é a vacina”. 

Para cientistas políticos, a mudança de tom da ala mais à direita no Ceará ecoa um redirecionamento do discurso do presidente da República. Ainda que mantenha críticas ao isolamento social e defenda a adoção de tratamento precoce, o chefe do Executivo Nacional tem reajustado as opiniões em relação à vacinação. 

Bolsonaro defendeu a vacinação durante pronunciamento na última semana
Legenda: Bolsonaro defendeu a vacinação durante pronunciamento na última semana
Foto: Divulgação/PR

“A partir de um comando do presidente, o núcleo mais próximo tem uma reorientação discursiva. Isso porque, em parte, a pandemia está chegando para todo mundo e a vacina vai se tornando a agenda de vários setores. A pressão aumenta e o governo é obrigado a recuar, assim como a base, que deixa de chamar de 'vacina chinesa', 'comunista' e 'do Dória', passando a se colocar como grandes arautos da vacinação”, avalia o cientista político Emanuel Freitas, professor de Teoria Política da Universidade Estadual do Ceará (Uece). 

Chegada das vacinas a Fortaleza

Nas primeiras remessas, tanto o governador quanto o prefeito de Fortaleza, José Sarto (PDT), acompanharam o desembarque das doses. No entanto, nas últimas remessas, o vereador Carmelo Neto (Republicanos) e o deputado federal Capitão Wagner (Pros) é que foram assistir à chegada das doses.

Carmelo acompanhou o desembarque da Coronavac, imunizante que ele próprio questionou a eficácia em janeiro deste ano. O parlamentar chegou a comparar a imunização da vacina a uma “roleta-russa”. “Eu não (me) arrisco. E você?”, questionou aos seguidores.

No dia 17 de março, ele mudou o tom: “a nossa arma é a vacina”, defendeu.

Na última remessa enviada ao Estado, nesta sexta-feira (26), também Capitão Wagner foi ao Aeroporto Internacional de Fortaleza acompanhar a chegada dos imunizantes e cobrou ao governador mais agilidade no processo de vacinação dos cearenses.

Nas redes sociais, ele e outros aliados usam a hashtag “#AgilizaCamilo”. Wagner alega que o Governo do Estado tem demorado em aplicar o maior número possível de vacinas, com base em dados disponibilizados pelo Ministério da Saúde.

Até a sexta-feira (26), o site indicava um percentual entre doses recebidas e doses aplicadas de 46,1%, menor do que o apontado pelo Governo do Estado. O site ressalta, no entanto, que o valor poderá conter a segunda dose, reservada para aplicação mediante intervalo de tempo. 

Ao todo, até esta sexta-feira (26), o Estado recebeu 1,3 milhão de doses. Desse total, parte é usada na primeira aplicação para os grupos prioritários e parte destinada à segunda dose. 

Desde o início da vacinação no Brasil, as vacinas estão sendo adquiridas pelo Governo Federal, que as distribui aos estados através do Plano Nacional de Imunização (PNI). Cabe aos governos estaduais receber as remessas e repassar aos municípios, responsáveis pela aplicação dos imunizantes. 

Primeiras doses de vacina chegaram ao Ceará em janeiro deste ano
Legenda: Primeiras doses de vacina chegaram ao Ceará em janeiro deste ano
Foto: Divulgação

Na última quarta-feira (24), um balanço nacional do Consórcio de Imprensa mostrou que o Ceará era o segundo estado brasileiro que mais aplicou as doses disponíveis de vacinas contra a Covid-19. Foi utilizado 77,34% do estoque. À época, 767,5 mil doses haviam sido aplicadas.

Nesta sexta-feira (26), o número chegou a 860,3 mil aplicações. 

Painel divulgado pelo Governo do Ceará mostra as doses aplicadas

Discussão nas redes sociais

Outro discurso de parlamentares da oposição no Ceará é apontar que nenhuma dose de vacina foi adquirida diretamente por municípios ou pelo Estado. Foi justamente essa crítica, feita pelo deputado André Fernandes e reproduzida por Eduardo Bolsonaro, que foi respondida pelo youtuber Felipe Neto.

“Eles mentem o tempo inteiro! Todas as vacinas que foram para o Ceará foram através de um trabalho desgastante e desesperado do governador Camilo junto ao Pazuello”, rebateu o youtuber.   

Camilo Santana reforçou o argumento e atacou os opositores. “Além da tragédia sanitária que vivemos, há uma outra rede trágica especializada em espalhar mentiras e tentar destruir reputações. Os chefes são bem conhecidos. Sigamos firmes agindo com a verdade, tendo pessoas corajosas como você como aliadas nessa luta”, disse. 

Disputa por capital político

Mas não é só a vacina que foi alvo de disputas políticas, seja no Ceará, seja no Brasil. Após quase um ano, temas como aquisição de insumos hospitalares, isolamento social, uso de máscara e tratamentos contra a Covid-19 viraram alvo de impasses e tornaram-se ponto de tensão entre governadores e o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). 

Durante visita ao Ceará, em fevereiro, presidente promoveu aglomerações e criticou medidas de isolamento
Legenda: Durante visita ao Ceará, em fevereiro, presidente promoveu aglomerações e criticou medidas de isolamento
Foto: Divulgação/PR

A queda de braço chegou até o Supremo Tribunal Federal (STF) que, no dia 23 de fevereiro, autorizou que estados e municípios comprassem doses das vacinas diretamente com farmacêuticas.

Paralelamente, uma medida provisória aprovada pelo Congresso que autoriza os entes da federação a comprar vacinas recebeu vetos do presidente. Na prática, os vetos não tiveram efeito, já que predomina a decisão da Suprema Corte. 

A ideia dos prefeitos e governadores era tentar negociar com contatos estrangeiros. No caso do Ceará, por exemplo, Camilo Santana usou essa estratégia para importar da China respiradores e insumos durante a primeira onda da Covid-19 no Estado. 

Até a autorização da Justiça, a compra da vacina estava limitada ao Governo Federal, que, à época, havia firmado contrato apenas com a AstraZeneca (Oxford) e com o Butantã – e recusado tratativas com a Pfizer. 

Já com aval do STF, o Governo do Ceará, através do Consórcio do Nordeste, e a Prefeitura de Fortaleza, em consórcio da Frente Nacional de Prefeitos (FNP), iniciaram a busca por vacinas. No último dia 19 de março, o governador assinou contrato que permite a compra direta da vacina russa Sputnik V. A previsão do Estado é adquirir 5,87 milhões de doses.

Mudança de tom

Em pronunciamento realizado na última terça-feira (23), Bolsonaro voltou a defender a vacinação. 

“Estamos fazendo e vamos fazer de 2021 o ano da vacinação dos brasileiros”, disse o presidente.

Na fala, ele ainda afirmou que, “em nenhum momento, o governo deixou de tomar medidas importantes tanto para combater o coronavírus como para combater o caos na economia”. 

Para o cientista político Raulino Pessoa Júnior, professor da Universidade Regional do Cariri (Urca), será difícil para o presidente dissociar a própria imagem frente ao negacionismo que adotou durante a pandemia.

“Não é simples alterar um discurso da noite para o dia, não convence, é difícil construir a imagem. Até porque ele foi muito insistente, até hoje defende esses medicamentos preventivos que não têm eficácia”, avalia. 

Ao longo de um ano de pandemia, o presidente minimizou os riscos da pandemia, classificada por ele como uma “gripezinha”. Bolsonaro também sabotou medidas de isolamento social, promovendo aglomerações por onde passou, inclusive no Ceará, recentemente. Em outubro do ano passado, ele ainda atacou a vacina e disse que não iria comprar o imunizante produzido no Butantã.

“Esse é o ethos comunicacional desse grupo, atacar e depois dizer que não atacou, porque eles se sustentam na instantaneidade. É uma lógica sincrônica, onde o que importa é o presente: se ele comprou a vacina agora, pouco importa que comprou atrasado, importa que comprou”, conclui Emanuel.

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