Suspender a vacinação dos adolescentes é desperdiçar dose e gerar desinformação, dizem especialistas

Apesar da orientação do Governo Federal, o Ceará decidiu manter a vacinação desse grupo etário

No Ceará, segundo a Secretaria da Saúde (Sesa), já foram vacinados em primeira dose contra a Covid-19 pouco mais de 196,8 adolescentes.
Legenda: No Ceará, segundo a Secretaria da Saúde (Sesa), já foram vacinados em primeira dose contra a Covid-19 pouco mais de 196,8 adolescentes.
Foto: Thiago Gadelha

Depois de o Ministério da Saúde decidir nesta quinta-feira (16) interromper a vacinação de adolescentes contra a Covid-19 no Brasil, autoridades sanitárias e especialistas do Ceará se reuniram e deliberaram que seria mantida, no Estado, a imunização desse grupo etário. 

Para especialistas consultados pelo Diário do Nordeste, o ato do Governo Federal, além de confundir e gerar desconfiança da população na campanha de vacinação, desperdiça as 196,8 mil doses de vacinas já aplicadas nos adolescentes cearenses, visto que, sem completar esquema vacinal, como quer o ministro da Saúde Marcelo Queiroga, não há eficácia na imunização. 

“A gente sabe que, pra falar em efetividade de vacina, precisa ter duas doses [ou dose única]. Não existe uma imunização, a gente nem fala em cobertura vacinal, quando fala em uma dose só. Então, quando a gente fala de uma quantidade ‘x’ de adolescentes que receberam a D1 e não vão receber a D2, infelizmente, fala de dose desperdiçada”, compreende a virologista, epidemiologista e professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC), Caroline Gurgel.  

A decisão federal, portanto, para a especialista, revela “falta de organização, de administração e de logística e desrespeito com as pessoas”.

Até ontem (15), estava em vigor uma nota técnica do dia 2 de agosto, divulgada pelo próprio Ministério da Saúde, que recomendava a vacinação de adolescentes a partir de 15 de setembro. Em coletiva para a imprensa na tarde desta quinta-feira (16), contudo, Queiroga criticou a postura de estados e municípios que, antes do prazo estipulado pelo Governo, já haviam iniciado a vacinação do grupo e chegado a 3,5 milhões de doses aplicadas.  

“Essas vacinas deveriam começar [a ser aplicadas] no dia 15 e eles [estados] começaram antes, inclusive, com vacinas que não estavam previstas, fora da autorização da Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária]”, disse o ministro. Pela nova determinação federal, nenhum adolescente sem comorbidade que tomou a primeira dose de vacina contra a Covid-19 — com Pfizer, que é o imunizante autorizado, ou outro — pode concluir o esquema vacinal. Somente aqueles com deficiência permanente, comorbidade ou em situação de privação de liberdade. 

Justificativas

Nas justificativas para não mais estimular a vacinação de adolescentes no Brasil, expressas na nota informativa nº 1/2021-SECOVID/GAB/SECOVID/MS, o Ministério da Saúde escreve que: 

  • A Organização Mundial de Saúde (OMS) não recomenda a imunização de criança e adolescente, com ou sem comorbidades; 
  • A maioria dos adolescentes sem comorbidades acometidos pela Covid-19 apresentam evolução benigna, apresentando-se assintomáticos ou oligossintomáticos; 
  • Somente um imunizante foi avaliado em ECR; 
  • Os benefícios da vacinação em adolescentes sem comorbidades ainda não estão claramente definidos. 

Além disso, o texto cita, mas não detalha, eventos adversos graves como miocardite e redução na média móvel de casos e óbitos de Covid-19 no País. 

Mas, diferentemente do que alega o Governo, a OMS não contraindica a vacinação de adolescentes. Somente, num cenário internacional de escassez de vacinas, recomenda que sejam priorizados adultos em detrimento de jovens, visto que este grupo tende a manifestar a doença de forma mais branda.  

Para o infectologista pediátrico Robério Leite, a partir dessa desinformação é que o Ministério começa a gerar “uma grande confusão” na nota. Ainda, segundo o médico, a possibilidade de miocardite existe, mas é muito rara.

Se for fazer avaliação de risco e benefício na nossa população, essa balança é mais fácil de ser avaliada porque, no Brasil, a mortalidade por Covid-19 em crianças e adolescentes é muito maior que na Europa e nos Estados Unidos”
Robério Leite
Infectologista pediátrico

Leite compreende também que não será possível sair da pandemia sem vacinar criança e adolescente, tendo em vista que se trata de uma parcela considerável da população que ainda estaria suscetível ao vírus e poderia servir de repositório. 

Vacinação de adolescentes
Legenda: Autoridades sanitárias e especialistas do Ceará se reuniram e deliberaram que a vacinação de adolescentes será mantida no Estado
Foto: Thiago Gadelha

Sem vacina 

Há um consenso entre os especialistas quando se fala sobre o que, de fato, provocou a decisão do Ministério da Saúde.  

“O Ministério deveria dizer, desde o princípio, o seguinte: ‘Não temos vacina. E, enquanto não terminarmos os grupos prioritários, não vamos avançar’. O que também, do ponto de vista de programação, não é verdadeiro, porque tem etapas de vacinação em que você pode ir incluindo outros grupos prioritários, o que já estava sendo feito”, diz Robério Leite. 

Caroline Gurgel reforça que “não se pode amarrar uma estratégia e de repente, dar para trás. Se não tinha dose suficiente, que nem iniciasse ou adiantasse as pessoas que tinham que completar o esquema vacinal antes de abrir pros adolescentes”.

Da forma como a situação foi conduzida, de acordo com Leite, “parece realmente que é proposital, que [o Ministério] não quer que a população se vacine. Terrível”. 

Na coletiva, negando falta de vacina, o ministro Queiroga chegou a pedir: “Mães, não levem suas crianças pra tomar vacina que não tem autorização da Anvisa”. 

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