“Ser gay na periferia é luta diária”: estudante narra percurso à liberdade diante de conservadorismo

Nascido e criado no bairro Serrinha, em Fortaleza, John Mesquita, de 23 anos, aponta que orgulhar-se de si foi primeiro passo para exigir respeito do outro

Escrito por Theyse Viana, theyse.viana@svm.com.br

Metro
Legenda: John nasceu e cresceu no bairro Serrinha, periferia de Fortaleza, e se assumiu gay aos 15 anos
Foto: Foto: Arquivo pessoal

Do processo de se perceber homossexual até se aceitar e estar à vontade socialmente com isso, há um caminho. Para o estudante John Mesquita, 23, ele é percorrido todos os dias – inclusive neste 28 de junho, Dia do Orgulho LGBTI+. Nascido e criado no bairro Serrinha, periferia de Fortaleza, John cresceu envolto pelo conservadorismo religioso da família e pelo machismo da comunidade, que tornaram a autodescoberta enquanto gay “repleta de indecisões”. 

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“Eu não me via como os outros meninos, e me preocupava com o que os professores e a família pensariam. Na periferia, somos tachados com palavras chulas, pejorativas, se não nos comportamos como querem. Fiquei bem retraído até conseguir me encaixar”, relembra John.

A segurança de “abraçar a homossexualidade e defendê-la”, inclusive diante da família, como faz hoje, veio depois que ele passou a conviver com outros LGBTI+ em um projeto social. “Pude conhecer outras pessoas, vivências, e entender que aquilo que eu passava era algo que acontecia. Antes disso, a gente se pergunta: o que tá acontecendo comigo? Por que eu tenho essas preferências?”

Após o embate consigo, foi momento de enfrentar os dilemas com a família, quando se assumiu homossexual, aos 15 anos. “No início, rebateram bastante. Mas ganhei muita maturidade com isso, e meus pais também. De alguma forma, ensinei a eles como lidarem com a situação. O que eles mais se preocupavam era com o que as pessoas iam pensar, se iam me tratar bem”, relata o jovem.

Ir e vir 

A preocupação, aliás, não é à toa. “Nosso ir e vir é comprometido pelo preconceito. Eu vivo na Serrinha, longe da Aldeota, do Centro, por exemplo, e o deslocamento é complicado. Perigoso. Usar uma blusa mais feminina, um short mais curto, é bem tenso, principalmente se a gente quiser não se importar com comentários maldosos”, descreve o estudante.

Os riscos ainda impostos pelo país que mais mata LGBTI+ no mundo (segundo levantamento anual da ONG Transgender Europe), contudo, não o calam – e motivam a busca incessante por igualdade.

“Meu orgulho de ser LGBT é a nossa alegria, mostrar a nossa vivência mesmo através das dificuldades. É não ter medo de mostrar quem a gente é. Estar nas ruas, falar abertamente sobre homofobia e tentar reverter, botar nas cabeças das pessoas que a gente existe e vai continuar resistindo”, frisa John.

Ele reforça, ainda, a importância da representatividade nesse empoderamento. “Precisamos ter pessoas LGBTI+ nas profissões, nos ambientes, pra que as outras gerações se vejam. A partir do momento em que você conhece outros que vivenciaram o mesmo, você se aceita. Pessoas que vieram antes nos ajudaram a lutar pela liberdade de expressar de quem nós somos”.

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