Mulheres viajam até 150 km para conseguir mamografia no Ceará; 'a demora é grande, muitas desistem'

Pacientes relatam via crucis para fazer exame, já que só 23 cidades têm mamógrafos do SUS; Estado garante que aparelhos são suficientes

Escrito por Theyse Viana, theyse.viana@svm.com.br

Metro
Mulher realiza exame de mamografia
Legenda: Mamografia é principal exame para rastreamento precoce do câncer de mama
Foto: Shutterstock

São 46 km do assentamento Tira Teima, no município de Monsenhor Tabosa, ao Centro. De lá até Crateús, onde fica o mamógrafo mais próximo, são mais 106 km. Em média, mulheres precisam viajar 152 km para conseguir uma mamografia no Ceará.

A realidade é só um recorte vivenciado pela agricultora Cleane Farias, 41, mas pode ser ainda pior. O Ceará tem, hoje, 179 mamógrafos distribuídos em 29 cidades, de acordo com a Secretaria Estadual da Saúde (Sesa) – mas só 71 deles são usados para o Sistema Único de Saúde (SUS).

Dos 184 municípios cearenses, só 23 disponibilizam o aparelho na rede pública, para as milhares de mulheres que aguardam por um exame na fila da Central de Regulação do Estado – gerando longas esperas para rastrear uma doença urgente, que é o câncer de mama.

Cleane, por exemplo, não pode esperar. Com uma dor aguda no seio desde 2017, ela “perambulou” em consultas por várias cidades vizinhas a Monsenhor Tabosa, até que desistiu e precisou contar com a ajuda do irmão para pagar por uma mamografia particular, em julho de 2020.

“Fui fazer em Crateús, pagando, porque tava mal, com o seio muito inchado. Não consegui de jeito nenhum pela rede pública. Além de ter pouca vaga, precisa viajar pra outra cidade, e é de 6 meses a 1 ano pra você, talvez, conseguir fazer a mamografia”, relata.

Para ter melhores resultados, com a ajuda do Instituto Social Cultural de Apoio à Vida, Cleane conseguiu realizar a mamografia e outros exames em Fortaleza, e aguarda os resultados.

A realidade é cruel, outras mulheres aqui na cidade estão tentando marcar. A demora é grande, muitas desistem, se acomodam, porque é muito distante, difícil e dispendioso.
Cleane Farias
Mora em Monsenhor Tabosa

“Se eu não tivesse persistido, só Deus sabe”

A dona de casa Cristiana Alves, 44, levou “praticamente um ano pra fazer o exame e seis meses pra receber”. O problema, porém, não foi apenas a demora: o nódulo que ela sentia tocando o seio não apareceu na mamografia.

A cearense Cristiana Alves mostra certificado de cura do câncer de mama
Legenda: Cristiana exibe "certificado de cura" do câncer de mama, após 1 ano de tratamento
Foto: Arquivo pessoal

“Não me conformei, vim a Fortaleza, consegui uma consulta pelo posto de saúde e a mastologista mandou refazer os exames. Em outubro de 2020, recebi o diagnóstico de câncer de mama”, relembra a mulher, que finalizou as sessões de quimioterapia, passou por cirurgia e teve cura confirmada nessa quarta-feira (6).

A dona de casa alerta que o histórico de outras mulheres na família que tiveram câncer de mama e o autoexame na mama foram cruciais para insistir e buscar novas avaliações, quando a primeira mamografia mostrou a falsa ausência do problema.

Foi uma dificuldade muito grande pra resolver no Interior. Se eu não tivesse persistido, vindo atrás mesmo, hoje só Deus sabe como eu estaria.
Cristiana Alves
Mora em Beberibe

Daniele Castelo Branco, gestora da Associação Nossa Casa de Apoio a Pessoas com Câncer e coordenadora da Rede Mama, destaca que a mamografia é o principal exame de detecção precoce do câncer mamário, mas que escuta, “dia a dia”, a dificuldade das mulheres em acessá-lo na rede pública.

“As secretarias dizem que as mulheres faltam o exame, mas creio que existe algum problema na regulação. Às vezes a mulher fez o cadastro há tanto tempo que o telefone muda. Tem quem vai no posto, não consegue, paga particular, e não avisa. São várias questões”, exemplifica.

Impactos da pandemia

Daniele destaca que a crise sanitária instalada desde março de 2020 agravou ainda mais o problema. “Em 2019, a cobertura já era baixa. O preconizado é que a gente atenda 70% das mulheres da faixa etária recomendada, mas a taxa coberta em Fortaleza era de 20%”, estima.

No interior do Ceará, ela frisa, a situação é ainda mais complicada. “Nem toda cidade tem mamógrafo próximo. E, às vezes, tem pactuação com um município maior, mas a quantidade não absorve a necessidade.” 

Outro problema é a qualidade dos exames realizados em algumas localidades, como destaca a gestora da Rede Mama. “Algumas mulheres conseguem fazer, mas quando chegam pra mostrar ao médico, ele pede pra repetir tudo, porque o que ela fez não ajuda em nada”, lamenta, citando o caso vivenciado por Cristiana.

50 dias
é a média de espera para exame de mamografia na rede pública de Fortaleza em 2021, conforme a Secretaria Municipal de Saúde (SMS).

Além de ressaltar a necessidade de melhor atendimento na rede pública, “que tem mamógrafo suficiente, mas não funcionam como deveriam”, Daniele alerta que a grande bandeira do Outubro Rosa de 2021 é conscientizar as mulheres de que “está na hora de voltar a cuidar da saúde”.

“Por muitos anos, foi difundida a questão do autoexame, mas hoje sabemos que a melhor forma de detectar o câncer é a mamografia. O autoexame é importante, mas quando a mulher encontra um nódulo na mama, se for maligno, já tem 8 anos de evolução. Quem tem mais de 40 anos precisa buscar a mamografia anualmente”, reforça.

“Não cobrimos nem 40% do público”

De acordo com o médico Luiz Porto, mastologista e coordenador do Comitê Estadual de Controle do Câncer, o Ceará “tem mamógrafos suficientes para fazer a cobertura de todo o Estado, sejam credenciados ou públicos”.

Por outro lado, segundo ele, a cobertura não chega sequer a 40% do público-alvo. “Com a pandemia, houve um absenteísmo muito grande, mas antes disso a mulher já não ia fazer o exame, por muitas razões: uma delas é o medo do câncer, o que é cruel, porque deixa de descobrir na fase inicial”, alerta o médico.

O mastologista reconhece, contudo, que apesar da disponibilidade dos aparelhos, “algumas áreas têm acesso mais difícil”, afastando o Estado da meta de fazer 300 mil mamografias por ano. Segundo Luiz Porto, a média feita é de 80 a 100 mil – em 2020, foram 35 mil.

Para quem mora em Iracema, por exemplo, o mamógrafo mais perto é em Limoeiro, a 50 km. O acesso muitas vezes não é fácil, e quando a pessoa faz o exame, nem sempre encontra o especialista para mostrar. Isso gera um descrédito.
Luiz Porto
Mastologista
 

Luiz Porto avalia que “a regulação tem funcionado bem”, mas que, muitas vezes, as pacientes “demoram a chegar ao atendimento”. “O câncer inicial é curável em quase 100% dos casos. Aumentar o conhecimento da população é importante também”, cita.

O médico alerta que muitas mulheres “não sabem se examinar”, e que, em alguns casos, “nem os médicos estão preparados para isso”. Ele cita, então, alguns sinais importantes do câncer de mama:

  • Nódulo no seio ou axila;
  • Secreção pelo mamilo;
  • Dor localizada;
  • Desvio do eixo da papila mamária.

Conforme Luiz Porto, mulheres que não têm filhos biológicos, nunca amamentaram, tomaram anticoncepcional por 5 a 10 anos, têm sobrepeso ou vida sedentária compõem alguns dos grupos de risco para a doença.

O fator de prevenção para o câncer de mama é praticar atividade física, e não ter dieta muito gordurosa, com alimentos processados e embutidos. A pandemia não favoreceu em nada disso, principalmente para a população pobre. É preciso atenção à saúde.

Clínica oferta mamografias gratuitas no Cariri

Durante o mês de outubro, a clínica Medimagem, em Juazeiro do Norte, na Região do Cariri, vai ofertar 30 “mamografias sociais” para mulheres em situação de baixa renda, que precisam fazer o exame, mas não podem pagar.

A ação é realizada em parceria com a ONG Rosas do Cariri, responsável por acolher e cadastrar as interessadas – que devem mandar mensagem por meio do Instagram da organização.

A prioridade, segundo a clínica, são as “mulheres que nunca fizeram exame, pacientes com histórico familiar e mães de crianças com câncer”.

 

Assuntos Relacionados