Insegurança e carências na pandemia levam felicidade média do brasileiro a menor nível em 15 anos

Segundo psicólogos, queda na renda média e incertezas quanto ao futuro elevaram sentimentos de raiva, preocupação, estresse e tristeza na população

Homem triste
Legenda: Raiva, preocupação, estresse e tristeza foram sentimentos que se tornaram mais presentes na vida dos brasileiros, de 2019 para 2020
Foto: Shutterstock

A chegada da pandemia de Covid-19 trouxe reflexos objetivos e subjetivos à vida do brasileiro. Ao mesmo tempo em que a renda média e o bem-estar social vêm caindo, desde o ano passado, a desigualdade e a insatisfação do brasileiro com a vida presente cresceram significativamente. É o que conclui a pesquisa Bem-Estar Trabalhista, Felicidade e Pandemia, divulgada pela FGV Social, centro de políticas sociais da Fundação Getúlio Vargas.   

Numa escala de zero a 10, o índice de felicidade média no País chegou a 6,1 em 2020 - o menor patamar registrado desde o início da série histórica, há 15 anos. Se comparado ao índice de felicidade de 2019 (6,5), antes da pandemia, houve uma queda de 0,4 ponto percentual. Conforme reforça a FGV, a medida subjetiva de bem-estar é avaliada a partir de respostas diretas das pessoas sobre suas vidas. 

A perda da felicidade foi mais sentida pelas pessoas mais pobres. As mais abastadas, por sua vez, relataram até uma satisfação com a vida levemente maior no período. Comparando antes e depois da pandemia, o índice de felicidade entre os 40% mais pobres caiu 0,8 ponto. Já entre os 20% mais ricos, houve ligeira alta de 0,1 ponto. 

Incertezas impactam bem-estar social 

Devido “ao ambiente de incerteza da pandemia”, justifica trecho da pesquisa, os indicadores subjetivos cotidianos de bem-estar pioraram no Brasil, mais do que a média de outros 40 países como China, Áustria e Zimbabwe. 

Raiva, preocupação, estresse e tristeza foram sentimentos que se tornaram mais presentes na vida dos brasileiros, de 2019 para 2020. A raiva, por exemplo, subiu de 19% em 2019 para 24% em 2020, entre as pessoas com 15 anos ou mais, resultando em uma diferença de 5 pontos percentuais. No mundo, porém, esse avanço foi de 0,8 pontos.   

Ante os outros países, a preocupação subiu 3,6 pontos percentuais a mais no Brasil; o estresse, 2,9 pontos; e a tristeza, 2,2 pontos. Já a emoção positiva de divertimento, caiu 6,8 pontos percentuais.

De acordo com a professora do curso de Psicologia da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Janaína Farias de Melo, as incertezas da população brasileira com relação ao futuro geram uma “insegurança muito grande”. Inclusive, no que diz respeito ao sustento básico de suas famílias.   

"A insegurança de não saber quando isso [pandemia] vai acabar, de que forma isso vai acabar, gera instabilidade [emocional e], consequentemente, maior infelicidade do povo brasileiro”.  

A falta do convívio presencial, dentro e fora do ambiente de trabalho; ter que lidar com a morte, seja de pessoas próximas ou não; reduzir as atividades físicas, elevando o sedentarismo, são outros elementos que impactam na saúde mental do brasileiro. “A qualidade de vida, de uma maneira geral, sofreu mudanças com a pandemia”, avalia a professora.   

Perda de compreensão da felicidade

Psicólogo e professor do curso de Psicologia da Universidade de Fortaleza (Unifor), especialista em Psicodrama e em Terapia Familiar, Álvaro Rebouças esclarece que, para alguém se perceber feliz, é necessário que necessidades básicas fisiológicas e de segurança sejam supridas. Logo, em casos de perda de trabalho e de renda, o bem-estar pessoal fica “abalado”. 

Com a não satisfação dessas necessidades durante a pandemia, há uma perda da compreensão do que seria a felicidade, um estado de plenitude, de contentamento, de satisfação. “Consequentemente, o sujeito vai vivenciar uma série de estados, emoções ou sentimentos negativos”.  

Segundo o especialista, é comum ver pessoas nestas situações recorrendo a sentimentos negativos, sobretudo quando não os conhecem. Daí a importância de ter uma compreensão educativa socioemocional, de conhecer os próprios sentimentos para, assim, superar a perda. Seja de alguém, de um emprego, ou da renda.

Isso daria possibilidade pra que possamos reconhecer que a raiva é decorrente desta perda e esta perda é alguma coisa que eu tenho que lidar com ela, de uma forma construtiva, de uma forma que seja benéfica pra mim e para os outros”
Álvaro Rebouças
Psicólogo e professor do curso de Psicologia da Universidade de Fortaleza

Rebouças lembra ainda que muito da insatisfação coletiva decorre de situações de desigualdade e vulnerabilidade social que antecedem à pandemia e que pioraram por causa dela. "São várias crises em conjunto produzidas por vários estressores poderosos", define o psicólogo.

Para enfrentar o atual momento, permeado por crises múltiplas e perda de felicidade coletivas, é possível realizar ações simples como dialogar sem disputar, ser gentil, cordial, ter momentos lúdicos com as pessoas com quem convive, ter palavras positivas para oferecer a outras pessoas, recomenda o especialista. No entanto, ele pontua que só a ação individual não consegue reverter o quadro de infelicidade. "É, principalmente, uma ação política", diz, se referindo a ações governamentais para melhoria de renda e diminuição do desemprego.

Renda média sai do melhor para pior nível após pandemia 

De janeiro a março de 2020, a renda média do brasileiro bateu recorde da série histórica da FGV, iniciada em 2012, chegando a R$ 1.122. Desde então, essa renda média vem caindo paulatinamente. No primeiro trimestre de 2021, menos de um ano depois, atingiu o pior nível da série histórica, com R$ 995 de renda média. Valor, portanto, inferior a um salário mínimo. 

Padêro MC
Legenda: Impossibilitado de trabalhar durante a pandemia, Padêro MC viu boa parte da renda cair. "Foi uma turbulência muito grande"
Foto: Arquivo pessoal

Padêro MC, de 42 anos, realiza apresentações musicais em Fortaleza e atua como vendedor ambulante. Impossibilitado de trabalhar durante a pandemia, viu boa parte da renda cair. A felicidade de suprir as necessidades básicas da esposa e dos dois filhos não resistiu às dificuldades financeiras. 

Devido a um erro no cadastro, o músico teve o auxílio emergencial negado. Hoje, vive apenas do auxílio financeiro concedido pelo Governo do Estado do Ceará aos profissionais do setor de eventos, de cestas básicas doadas e de recursos obtidos via lives solidárias. 

Sem ter como pagar as dívidas que não paravam de chegar, Padêro passou a ter conflitos familiares recorrentes e a se sentir “incapaz” diante da situação. “Foi uma turbulência muito grande. De vez em quando, eu ficava triste dentro de casa por não ter mais aquela renda. Eu estava sofrendo demais; agora que estou tentando me estabilizar”, diz. 

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