Entenda se a variante Ômicron deve mudar planos para festas de fim de ano; o que dizem especialistas

Diante de uma imunidade passageira, seja por uma primeira infecção ou pela vacina, variante pode causar maior impacto do que a Delta se medidas de proteção deixarem de ser utilizadas.

Escrito por Nícolas Paulino, nicolas.paulino@svm.com.br

Metro
Legenda: Infectologista lembra que casos no mundo já estavam aumentando antes mesmo do alerta sobre a Ômicron.
Foto: José Leomar

A variante Ômicron da Covid-19, detectada primeiramente na África do Sul, preocupa a comunidade científica internacional. Diante das incertezas sobre riscos de transmissão e gravidade, especialistas em saúde defendem a necessidade de se manter cautela sobre o planejamento de aglomerações em festas de fim de ano.

No Ceará, não serão permitidos eventos que aglomerem mais de cinco mil pessoas, em ambientes abertos. E, mesmo nestes, há necessidade de apresentar o cartão de vacinação comprovando as duas doses. Já em Fortaleza, a Prefeitura anunciou que não haverá festa pública de Réveillon.

Em nível nacional, o Brasil fechou, nesta segunda(29), as fronteiras aéreas para seis países africanos, por causa da nova variante: África do Sul, Botsuana, Eswatini, Lesoto, Namíbia e Zimbábue.

O infectologista Michel Abdalla, que atua na linha de frente no enfrentamento a pandemia na região Norte do Ceará, é categórico: “independente da nova variante, não é um momento oportuno para grandes festividades e aglomerações”. 

Isso porque, mesmo no continente europeu, onde não há até o momento a identificação de nenhuma variante nova, há países sofrendo com aumento exponencial de casos, seja por movimentos antivacina ou pelo relaxamento das medidas de prevenção.

“A pandemia não acabou e grandes eventos são sim um grande risco”, pontua Abdalla.

O médico pondera também que o impacto da Ômicron pode ser maior que o da Delta, que, quando chegou ao Brasil, precisou enfrentar uma maior quantidade de pessoas vacinadas ou ainda com imunidade por terem passado pela doença recentemente.

Porém, agora, “temos grande parte da população com uma vacinação mais antiga, uma vez que os reforços começaram agora, e outra que ficou doente há mais tempo, já sem a imunidade temporária”. 

A epidemiologista Lígia Kerr, professora da Universidade Federal do Ceará (UFC), concorda que “não é hora de pensar em aglomeração”, seja no Réveillon ou até mesmo no Carnaval de 2022.

“Tudo que a gente puder fazer para impedir a entrada dessa variante, o que é bastante complicado, e impedir que ela vá pra frente, é importante. Não vá para lugares que não são necessários e se vacine”, orienta.

Segundo a especialista, já foram publicados novos estudos que apontam que manter uma distância de 2 metros de outras pessoas, ainda que em ambiente externo, sem a utilização de uma máscara com pelo menos três camadas, não é suficiente para impedir a contaminação por novas variantes do coronavírus.

O biomédico e virologista Mário Oliveira reforça: o vírus continua circulando e pode ser transmitido mesmo entre pessoas vacinadas, ainda que abaixo do normal. Logo, lamenta a liberação cada vez mais intensa de shows e eventos em todo o país.

“Não que eles não devessem acontecer, mas estamos fazendo isso de maneira muito rápida. Só podemos observar os efeitos dessa variante com o passar das semanas. Já deveríamos ter parado de pensar em aglomerações há algum tempo, e agora menos ainda”, ressalta.

O que é a variante Ômicron?

A nova variante B.1.1.529 da Covid-19 foi classificada na última sexta-feira (26) como “preocupante” e nomeada de “Ômicron” pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

Mário Oliveira explica que ela tem uma quantidade maior de mutações em relação às cepas anteriores, sendo 32 apenas na proteína spike - aquela que facilita a entrada nas células humanas.

“É como se ele (Sars-Cov-2) trabalhasse de todas as formas para escapar do sistema imune do hospedeiro, conseguir se replicar e infectar mais. Com essa quantidade de mutações, você põe um pé no freio para observar até se ela vai começar a competir com a Delta”, considera.

Com as incertezas, a professora Lígia Kerr defende a necessidade de impedir a entrada de voos advindos de países com incremento de casos e aplicar a vigilância epidemiológica em viajantes que venham deles.

Legenda: Aglomerações não deveriam ser cogitadas para o Réveillon, defendem especialistas.
Foto: José Leomar

A Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa) informou que não há casos da Ômicron no Estado. A vigilância de cepas é realizada a partir de testes aleatórios em 20% dos passageiros que desembarcam no Aeroporto de Fortaleza, a fim de identificar possíveis infecções.

“Não se tem, até o momento, um panorama bem definido de como vai ser. Tudo pode acontecer. Independente do cenário, as medidas de uso de máscara, restrição de circulação e a vacinação continuam sendo os pontos mais importantes de prevenção”, lembra o médico Michel Abdalla.

Transmissão, reinfecção e vacinas

Em comunicado emitido no último domingo (29), a OMS forneceu atualizações sobre as características da variante, tanto de cientistas da África do Sul quanto de outros países:

  • Transmissibilidade: não está claro se ela se espalha com mais facilidade. Estudos epidemiológicos estão sendo realizados na África do Sul para saber se ela e responsável pelo aumento de casos no país;
  • Severidade: não está claro se a Ômicron causa maior gravidade. "Dados preliminares sugerem aumento de hospitalizações na África do Sul, mas isso pode ser resultado de um grande número de pessoas sendo infectadas", indica.
  • Reinfecção: evidências primárias sugerem que pode haver maior risco de reinfecção com a Ômicron em comparação com outras variantes, "mas as informações são limitadas".
  • Efetividade das vacinas: a OMS está conduzindo estudos específicos com parceiros técnicos, mas lembra que as vacinas permanecem sendo a principal forma de reduzir gravidade e mortes.

A Organização garante que mais informações serão disponibilizadas nos próximos dias e semanas, encorajando que os países contribuam no compartilhamento de dados sobre pacientes hospitalizados para permitir a identificação de possíveis padrões.