Em 4 anos, só 34 crianças e adolescentes foram acolhidos em lares temporários em Fortaleza

Acolher meninos e meninas até que sejam adotados ou voltem às famílias de origem é alternativa – mas poucas pessoas procuram o serviço

Pai segurando a mão do filho
Legenda: Hoje, 19 famílias estão aptas ao acolhimento, e só 16 crianças e adolescentes estão vivendo em lares temporários
Foto: Shutterstock

Sair da rotina coletiva e ter os próprios quarto, brinquedos, família e amigos é sonho de muitas crianças e adolescentes que vivem em unidades de acolhimento de Fortaleza. Acolhê-los de forma provisória é possível a qualquer pessoa por meio do Família Acolhedora – mas a procura por ele ainda é baixa na cidade.

Por meio do serviço, gerido pela Prefeitura de Fortaleza, uma criança ou adolescente sob medida protetiva judicial pode morar com uma família “temporária” enquanto aguarda adoção ou retorno ao núcleo de origem, o que funciona como alternativa às unidades conhecidas como “abrigos”.

Desde 2018, porém, apenas 34 meninos e meninas foram acolhidos na capital cearense. Hoje, 19 famílias estão aptas ao acolhimento, e só 16 crianças e adolescentes estão vivendo em lares temporários, de acordo com a Secretaria dos Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SDHDS).

Em 2019, conforme dados do Censo do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) 2019, apenas três municípios do Ceará possuíam lares temporários cadastrados e aptos a receber meninos e meninas:

  • Antonina do Norte - 3 famílias, com 2 acolhidos
  • Eusébio - 3 famílias, com 3 acolhidos
  • Fortaleza - 10 famílias, com 12 crianças

Em nota, o Ministério da Cidadania informou ao Diário do Nordeste que este é o levantamento nacional mais recente disponível, e mostrava que, no Brasil, 435 municípios tinham famílias inscritas no serviço.

“Em vez de adotar uma, ajudo quantas puder”

Uma simples sintonia no rádio, ao fim de 2018, mudou os destinos da administradora Michele Birck, 45; e de Samuel, 3. Por meio de uma propaganda, ela conheceu o Família Acolhedora e, sete meses depois, já recebeu o pequeno em casa, na primeira experiência de acolhimento.

família acolhedora samuel
Legenda: Samuel, de 3 anos, foi primeiro acolhido por Michele por meio do Família Acolhedora
Foto: Arquivo pessoal

“Eu sempre quis fazer um serviço voluntário, mas nunca tinha encontrado nada que desse certo comigo. Me informei, fiquei decidida e toda a família acolheu. No primeiro final de semana, o Samuel já não quis ir embora”, relembra.

Além de Michele, a “mãe” provisória, o pequeno ganhou uma irmã, com quem dividiria a casa e as 24 horas de todos os dias durante a pandemia. No início de 2020, a convivência foi encerrada, após a Justiça definir a situação de Samuel: ele seria destituído da família de origem e posto para adoção.

O processo de vinculação dele com a família adotiva foi lúdico, eles visitavam, a gente fazia chamadas de vídeo, piquenique. Ele se adaptou muito melhor do que se estivesse num abrigo.
Michele Birck
Administradora

Michele cita que muitos amigos questionaram sobre a falta que ela sentiria do menino, já que cada família acolhedora pode passar, no máximo, 18 meses com a criança ou adolescente. Mas o segredo, segundo ela, foi abdicar do egoísmo.

“Não é fácil, claro que sofri quando ele foi embora. Mas fiz bem a ele. Adotar nunca foi minha intenção nem meu projeto de vida. Eu não quero um filho, quero ajudar alguém. Em vez de adotar uma criança, ajudo quantas puder”, sorri a administradora.

família acolhedora maria
Legenda: Maria, de 3 anos, chegou à casa de Michele neste ano
Foto: Arquivo pessoal

Samuel vive, hoje, com a família que o adotou. Tem pai, mãe, uma irmã e, segundo Michele, sempre a terá também. “Tenho contato com ele, a gente se fala por telefone, mando presente. No meu aniversário, ele mandou flores e fez um cartão. É super tranquilo”, diz.

A experiência foi tão enriquecedora que Michele já emendou no segundo acolhimento: agora é a vez de Maria, 3, aguardar o próprio destino no aconchego de um lar. “Ela está super adaptada também, participa da família como qualquer membro. Eu acredito que enquanto eu puder, eu vou acolher.”

Famílias desconhecem o serviço

Para Julliana Leonisia, coordenadora do Família Acolhedora em Fortaleza, o principal obstáculo para a ampliação do serviço é o desconhecimento por parte das famílias. “Neste ano, fizemos uma campanha nas redes sociais e houve um boom de inscrições”, pontua.

Aumentar o número de lares temporários aptos a acolher meninos e meninas, ela avalia, é proporcionar a segurança de uma convivência familiar, “totalmente diferente de uma rotina institucional”.

A criança no acolhimento tem perdas de desenvolvimento e sociais. Para quem está em lar temporário, a adaptação no retorno à família ou na adoção se dá de forma melhor, com menos dificuldade.
Julliana Leonisia
Coordenadora do Família Acolhedora em Fortaleza

A psicóloga Alana Veras complementa que “ter vínculos, ter uma figura de apego, é importante para a criança se desenvolver, e ela não consegue isso nos acolhimentos, devido à rotatividade de funcionários”.

A profissional pontua que, a partir desse vínculo familiar, “a criança tem segurança para explorar o ambiente e as relações”, o que impacta de forma direta na adoção ou na reintegração familiar. As vantagens, aliás, se estendem também a quem acolhe.

“As famílias acolhedoras falam muito do processo de aprendizagem, do contato com outras realidades. Todas têm medo do apego, mas depois entendem que a partida vai acontecer e que a criança ser bem cuidada está em primeiro plano. O vínculo fica, marca”, analisa Alana.

Como ser Família Acolhedora

O Serviço de Acolhimento Familiar é uma modalidade prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), com o objetivo de garantir direito à convivência familiar, comunitária e individualização do atendimento.

A família acolhedora recebe uma bolsa-auxílio no valor de 1 salário mínimo por criança ou adolescente acolhido, valor acrescido em 50% caso ele seja pessoa com deficiência. Além disso, o imóvel utilizado pela família ficará isento de pagamento do IPTU.

Os requisitos para ser uma família acolhedora são:

  • Não ter interesse em adoção;
  • Ter moradia fixa em Fortaleza há mais de 1 ano;
  • Ter disponibilidade de tempo para oferecer proteção e apoio ao(s) acolhido(s);
  • Ter idade entre 21 e 65 anos, sem restrição de estado civil nem gênero;
  • Ser pelo menos 16 anos mais velho que o acolhido;
  • Apresentar concordância de todos os membros da família maiores de 18 anos que vivem no lar;
  • Atender as orientações da equipe técnica do serviço.

Os interessados em acolher ou saber mais informações sobre o Família Acolhedora devem procurar a SDHDS por meio do e-mail familia.acolhedora@sdhds.fortaleza.ce.gov.br ou dos telefones (85) 98902-8374 e 3105-3449 para cadastro e capacitação.

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