Ceará coleciona, pelo menos, nove epidemias em sua história

Desde a chegada de europeus, surtos epidêmicos de doenças afetam o Estado. Do Sarampo, em 1615, à atual Covid-19, diversos cenários foram montados, mas há quem veja similitudes e trace diferenças nesses períodos

Legenda: Em janeiro de 1994, foram encontradas ossadas de pessoas afetadas pela Varíola em 1878, enterradas no bairro Jacarecanga
Foto: Foto: STENIO SARAIVA

"A confusão foi então horrível, e o pânico tudo avassalou. A população inteira desvairou-se, como um bando de aves bravas que fosse alcançado à noite no quieto pouso pela ofuscação do facho de astuto caçador". O relato é do século XIX, mas se encaixa perfeitamente no ano de 2020. Naquela época, Rodolfo Téofilo datilografava o que vira aos nove anos de idade. As aves são nossos descendentes; o caçador, a epidemia de cólera que minava o Ceará.

O hoje não é preciso descrever. O pai e o avô de outrora somos nós, e a pandemia do novo coronavírus já se estende por mais de 80 municípios cearenses. Assim como já pintado pelo escritor radicado no Ceará, o medo tomou conta da sociedade e, até então, não havia deixado marcas tão duras na nossa gente.

Desde que os indígenas brasileiros foram atacados pelos europeus e tiveram suas terras tomadas por aqui, o terreno já sofrido do sertanejo cearense enfrentou diversos cenários epidêmicos. A população já foi atingida por sarampo, assolada pelo cólera, devastada pela varíola e, agora, a Covid-19 parece ter chegado em um cenário ímpar. Com a globalização e a velocidade da sociedade contemporânea, Fortaleza passou de uma cidade de parcas reuniões para uma metrópole.

Semelhanças

Em contextos de epidemia sanitária, embora muito tenha mudado durante os séculos, há questões que insistem em se repetir. "Quando estamos nesse cenário, é quebrada toda uma relação social que é baseada na ideia de carinho com quem é próximo. Em uma situação de epidemia, quanto menos eu tiver contato com os outros, melhor", analisa o pesquisador Dhenis Maciel, que estuda a história das doenças no Ceará.

Para ele, o carinho com o outro dá lugar ao medo da pessoa morta, e o distanciamento é evidenciado no contexto da Covid: "Se eu respirar o mesmo ar dessa pessoa, sei lá o que vai acontecer comigo!", diz sobre o pensamento atual.

De acordo com o pesquisador, algo que tende a continuar existindo também é a perda do controle do tempo. "Quando eu falo de uma epidemia, o tempo passa a ser o tempo da doença. A gente quebra uma das coisas que é fundamental para nossa compreensão enquanto sociedade que é essa capacidade de planejamento e gestão do tempo".

Conforme o historiador, nesses períodos, também é comum se questionar sobre a ideia de "democracia da doença". "Todas essas doenças a gente tem uma recorrência que é: quem mais morre é gente pobre", explica. Bem como, há uma necessidade de responsabilizar quem trouxe o mal. Antigamente, se culpabilizava o negro, o judeu, cigano. Para ele, a Geni de agora é o chinês ou o comunista.

Outro aspecto que se repete nas discussões públicas durante os períodos de epidemia é a cura. Se na época do cólera, jornais publicavam receitas médicas diárias balizadas por especialistas - que inclusive iam de encontro às outras -, atualmente, se discute a eficácia de Cloroquina e Hidroxicloroquina no tratamento da infecção pelo novo coronavírus.

"Esse nível de confusão não é nada novo. É parte da história das epidemias. Toda doença nova precisa de um tratamento, e é uma das coisa que a gente incorre no anacronismo. Cada um tenta resolver com aquilo que acha que vai dar certo", contextualiza.

Diferenças

A visão do infectologista e ex-secretário da Saúde do Ceará Anastácio Queiroz ainda é de surpresa frente ao contexto que a sociedade cearense está vivendo. Segundo ele, é difícil tecer qualquer tipo de comparação coma as demais epidemias que já passaram pelo Estado. "A gente está vivendo um momento muito grave, disso ninguém tem a menor dúvida, mas também nunca vivemos uma epidemia em que as pessoas estivessem tão em pânico", argumenta.

Para o médico, há diversos ineditismos durante a pandemia do novo coronavírus. "É uma doença que realmente transmite de pessoa para pessoa, ninguém tem imunidade e termina sufocando o sistema de saúde. Nunca vivemos numa situação dessa, nunca se fechou a cidade, parou tudo. Nunca isso aconteceu em época nenhuma. Então não dá pra tecer comparativos".

Conforme Anastácio Queiroz, só há tamanha gravidade em outros dois momentos da história: as epidemias de cólera (1860) e de varíola (1877/1878), esta última ocorrendo em paralelo a uma das secas mais extremas pelas quais o Ceará já passou.

"Naquela época, as pessoas morriam de fome e de varíola. Ninguém tinha antibiótico, não tinha nada. Você não tinha a menor chance de tratar, não tinha hidratação venosa, nada. Todo mundo do interior migrou para cá ou para as serras. E foi a maior tragédia que se já viveu no Ceará e em diversos estados do Nordeste", analisa o professor Anastácio Queiroz
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De acordo com Barão de Studart, no livro Climatologia, Epidemias e Endemias do Ceará, morreram, pelo menos, 24.884 pessoas da doença da "bexiga" - como era chamada a varíola. Só no dia 10 de dezembro de 1878, a peste foi responsável pelo óbito de 1.004 pessoas, deixando 238 ainda insepultas. A data ficou conhecida como "O Dia dos Mil Mortos". Já o cólera matou 12.584 moradores, conforme o jornal O Cearense. Só em Maranguape, município no qual eram contabilizados 20 mil habitantes, 2 mil deles faleceram.

Perspectivas

Quanto à crise sanitária atual, difícil é saber quando ela arrefecerá e tudo poderá voltar ao normal. Embora o cenário que se desenhe aponte para o período crítico nas duas próximas semanas, já é possível perceber que a Covid-19 deixará marcas e poderá mudar o contexto da sociedade.

Para o historiador Dhenis Maciel, todo mundo sai "menor". "Somos uma sociedade que pede comida e carro pelo aplicativo, que tinha muito essa ideia de distância social. Mas, agora, que as pessoas não estão podendo trabalhar, tá na cara que, sem essas pessoas, nem esses aplicativo existem", acredita. Segundo ele, as relações de trabalho também tendem a se flexibilizar em novas dinâmicas percebidas pelos empregadores como saídas durante a pandemia. "A gente vinha conseguindo, um ou outro profissional, manter o horário de trabalho, mas nessa nova dinâmica, não tem mais essa lógica".

O pesquisador ainda remonta às crises das guerras mundiais e da gripe espanhola para sugerir que, com o fim da pandemia, haverá um discurso forte de "existe uma crise econômica, que vocês precisam pagar a conta dos cuidados que o governo teve com vocês".

Já para o professor Anastácio Queiroz, há talvez um ensinamento que o novo coronavírus deixa para a população. "Eu acho que se aprendeu muito sobre a questão da transmissão das doenças respiratórias. Espero menos infecções hospitalares porque nos sabemos que a questão da infecção hospitalar são as mãos e nunca se discutiu tanto".

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