O desafio de ensinar arte em tempos de pandemia

No Dia do Professor (15), duas professoras de arte da rede pública contam como estão conseguindo adaptar a educação artística ao modelo remoto de aulas

Evelise de Sousa Marreiro, 28, professora de arte da rede pública do Ceará, adaptou suas aulas para que fossem possíveis e atrativas para os alunos.
Legenda: Evelise de Sousa Marreiro, 28, professora de arte da rede pública do Ceará, adaptou suas aulas para que fossem possíveis e atrativas para os alunos.
Foto: Helene Santos

“A arte continua, se adapta”. É assim, de forma simples e categórica, que a professora Evelise de Sousa Marreiro, 28, conta como tem conseguido adequar a educação artística ao modelo remoto imposto pela pandemia de Covid-19 desde o último mês de março. 

No ambiente digital, a disciplina é uma das que mais encontram possibilidades de exploração de práticas pedagógicas. Exposições virtuais, transmissões de aula ao vivo por redes sociais e ensaios fotográficos digitais têm sido algumas das apostas de professores da área para manter e até aprimorar a qualidade do ensino de arte em tempos de restrição social.

Professora da rede estadual do Ceará, Evelise constantemente se vê em meio ao desafio de planejar atividades e projetos possíveis e atrativos diante do isolamento social ainda vigente e da falta de recursos da maioria dos estudantes da rede.

“É muito difícil ensinar arte de forma remota porque, geralmente, requer prática, contato. A relação interpessoal é muito importante, porque a arte vem do desenvolvimento do ser humano em relação ao mundo, aos acontecimentos e aos próprios sentimentos e emoções”, explica a educadora.

Inovar

Num primeiro momento, lembra a professora, as aulas eram focadas em teoria. Tanto porque era ainda um período de adaptação ao novo modelo pedagógico como porque Evelise sabia que não poderia propor atividades que exigissem materiais que, talvez, os alunos não tivessem em casa. Só nos últimos meses é que ela se sentiu segura para inovar.

Dessa iniciativa, conta Evelise, surgiram lives de aulas no Instagram e uma proposta de exposição fotográfica virtual de releituras de obras de arte mundialmente famosas. Também foi dado continuidade a projetos de manifestação artística livre como o “Intervalo Cultural”, que costumava ser, na escola, um momento de interação e de apreciação artística importante. “Não queria que os alunos, por estarem em quarentena, não tivessem uma referência artística ou
um lugar onde pudessem expressar seus sentimentos e suas criações”, justifica.

Uma das inovações pensadas pela professora Evelise Marreiro foi dar aula por lives no Instagram.
Legenda: Uma das inovações pensadas pela professora Evelise Marreiro foi dar aula por lives no Instagram.
Foto: Helene Santos

Já o “Vozes” foi um projeto que surgiu no contexto pandêmico. “Os alunos escolhem músicas, se gravam, me enviam os vídeos e nós publicamos nas redes sociais da escola. É legal porque eles sentem que estão se expressando, colocando pra fora o que têm a dizer. A arte está ali muito forte. E o principal nesse período de pandemia é manter a esperança de que, um dia, nossa vida vai voltar ao normal”, compreende a educadora.

A contribuição da tecnologia 

Nas turmas assistidas pela professora da rede municipal de Fortaleza, Natalice Ribeiro Garcia, 31, a teoria ainda tem se sobreposto à prática. Pela mesma carência de materiais mencionada por Evelise. No entanto, a professora tem aproveitado recursos gratuitos como vídeos e exposições virtuais interativas para ensinar. “Tô passando história da arte, desde a pré-história ao renascimento. E tem umas exposições, por exemplo, que mostram pirâmides por dentro, em 3D. São ferramentas que não seria possível usar em sala de aula”, conta.

Além disso, de acordo com Natalice, são trabalhados na escola projetos de protagonismo estudantil e de desenvolvimento de linguagens artísticas como poesias, desenhos e tirinhas. Uma das atividades já passadas, inclusive, foi retratar por meio dessas linguagens a convivência com a pandemia. “Eu ajudo em tudo o que é possível. Das dúvidas às atividades”, assegura. 

Aos alunos que, por não terem acesso a equipamentos e Internet adequada, não conseguem acompanhar as atividades online propostas, Natalice diz que semanalmente são disponibilizadas pela escola as atividades impressas. “Estamos atentos ao aproveitamento.”

Dia do Professor

O Dia do Professor, celebrado nesta quinta-feira (15), traz para as professoras Evelise e Natalice uma carga emocional diferente dos anos anteriores. 

“Nossos desafios são constantes presencialmente e muito mais agora, remotamente, mas o pensamento de que nos reinventamos é algo que, no meu coração, é motivo de muita alegria”, reconhece Evelise.

Ela foi uma das que tomaram a frente da capacitação dos colegas de profissão que tinham dificuldade em ensinar por meio das plataformas digitais. “Foi um ‘aperta minha mão virtualmente que eu não vou soltar a tua’. Isso nos deu muita força.”

Natalice, por sua vez, assume estar cansada e diz que “a gente se sente metade professor nesse momento”. Contudo, não se rende. “Hoje, está todo mundo mais adaptado, os meninos já estão sendo bem mais autossuficientes. A gente sempre vai procurar ajudar." 

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