Como a posse de Biden pode impactar nas relações diplomáticas com outros países, inclusive o Brasil

A chegada do democrata à Casa Branca representa o abandono da estratégia “America First” (América Primeiro) adotada por Trump e de uma postura agressiva com outras nações; retomada do protagonismo dos Estados Unidos é foco do novo governo

Escrito por Luana Barros , luana.barros@svm.com.br
Biden
Legenda: A posse de Biden nesta quarta-feira (20) gera expectativas quanto a mudanças em relação a diplomacia adotada por Donald Trump nos últimos quatro anos
Foto: AFP

A posse do democrata Joe Biden na presidência dos Estados Unidos foi recebida com otimismo por lideranças mundiais nesta quarta-feira (20). O novo governo tem despertado expectativas de mudanças no posicionamento diplomático dos Estados Unidos, após o governo de Donald Trump ter adotado uma linha crítica a organizações multilaterais, de menosprezo a acordos internacionais e de aumentos a sanções a nações rivais. 

Com a nova política externa, Biden promete buscar o que julga ser a "restauração da liderança moral" dos Estados Unidos e a "liderança pelo exemplo", após quatro anos de isolamento e confronto com nações amigas. Biden deve apostar na construção de soluções conjuntas e quer recolocar o país na mesa das negociações coletivas ao lado de aliados.

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Apesar da expectativa de uma guinada na diplomacia estadunidense, o secretário de Estado, Antony Blinken, adiantou que alguns posicionamentos adotados pelo republicano serão mantidos, como o reconhecimento de Jerusalém e o aumento de sanções à Venezuela. Blinken será o principal responsável pela diplomacia e pelas relações dos Estados Unidos com outros países. 

Confira abaixo as expectativas para as relações diplomáticas dos EUA no governo Biden: 

Brasil

A chegada de Joe Biden à presidência dos Estados Unidos pode representar um problema para o Brasil. A proximidade do presidente Jair Bolsonaro com o republicano Donald Trump, além da hesitação em parabenizar Biden pela vitória nas eleições presidenciais e o apoio de vários aliados bolsonaristas às acusações não confirmadas de fraude no pleito dos Estados Unidos devem dificultar a relação entre os dois países.

Trump Bolsonaro
Legenda: Trump Bolsonaro
Foto: AFP

Outra questão deve entrar no foco do democrata quando se trata do Brasil. Antes mesmo de ser eleito, Biden ameaçou o Brasil por causa da falta de medidas para frear o desmatamento da Amazônia. "Se não parar (o desmatamento), vai enfrentar consequências econômicas significativas", disse. O problema pode trazer desgastes tanto para o governo como dificuldades para os exportadores brasileiros. 

Existe ainda uma indefinição quanto a implementação do acordo de facilitação de comércio, assinado em setembro, e que em tese poderia reduzir a burocracia nas exportações. Ainda não há sinalizações de que Biden pretende dar continuidade ao projeto. 

União Europeia

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, teve uma das falas mais otimistas ao falar da chegada de Joe Biden à Casa Branca ao afirmar que a União Europeia “tem novamente um amigo na Casa Branca após quatro longos anos” da presidência de Donald Trump. “A Europa está pronta para se reconectar com um antigo parceiro de confiança para dar nova vida à nossa preciosa aliança", acrescentou.

Foto: John Thys/AFP

Von der Leyen destacou a intenção de adotar recente de uma nova agenda transatlântica entre os aliados históricos. Ela cita áreas como clima, saúde, digitalização e democracia e diz que a área com maior necessidade de cooperação global no curto prazo é a luta contra a pandemia, "que tem sido tão devastadora dos dois lados do Atlântico".

Como sinal deste novo momento diplomático dos Estados Unidos, ela sustenta qye seria importante o governo Biden entrar na Iniciativa Covax, que busca distribuir vacinas de modo igualitário pelo mundo contra a Covid-19.

Organizações e acordos multilaterais

Logo após tomar posse, o novo presidente dos Estados Unidos promete assinar uma ordem para recolocar os EUA no Acordo Climático de Paris - um dos tratados menosprezados por Trump e negociado na gestão Obama-Biden.

Quando apresentou os primeiros nomes do governo para política externa, Biden disse que a equipe vai "reunir o mundo" para enfrentar desafios que "nenhuma nação pode enfrentar sozinha". "É tempo de restaurar a liderança americana", costuma dizer o democrata. Organizações multilaterais são consideradas estratégicas nessa intenção de retomar o protagonismo mundial. 

Por isso, outra decisão tomada pelo democrata neste início de mandato foi a anulação da decisão de deixar a Organização Mundial da Saúde (OMS). 

China

Com muitas mudanças diplomáticas já anunciadas, uma deve ter continuidade no governo de Joe Biden: o discurso anti-China. Biden criticou o que considera práticas comerciais abusivas da potência asiática e a falta de proteção a direitos humanos de minorias no país. A visão negativa sobre a relação com a China é crescente entre os americanos - tanto entre democratas como republicanos.

Contudo, a estratégia adotada pelo democrata nesse embate deve ser bem diferente da seguida pelo antecessor. Biden já criticou a guerra de tarifas iniciada no governo Trump, que considera "errática". A equipe do novo governo defende que a pressão sobre os chineses seja feita por meio de uma união com aliados e uso de mecanismos legais na Organização Mundial do Comércio (OMC) - órgão que sofreu boicote durante o governo Trump.

Biden também pode trazer outras críticas ao foco da disputa contra a China, como questões relacionadas aos direitos humanos. Entretanto, uma vez que as economias dos dois países têm um grau de interdependência, a possibilidade de trabalhar com interesses mútuos entre Washington e Pequim não é descartada pelo novo governo. 

Israel

O governo de Joe Biden também deve manter o reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel. A medida foi tomada por Donald Trump no início do mandato, e gerou atrito na comunidade internacional. O democrata aponta a solução de instituir dois estados como a melhor saída para o fim do conflito entre Israel e Palestina, embora admita não ser possível a curto prazo.

Foto: SaulL Loeb/AFP

Com a decisão, Biden acena ao governo de Benjamin Netanyahu, um dos principais aliados de Trump. O secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, declarou que o novo governo não reverterá as decisões relativas a Jerusalém e à embaixada e disse que o "compromisso" do futuro governo americano "a favor da segurança de Israel" é "sacrossanto".

Venezuela

O secretário de governo estadunidense, Antony Blinken, anunciou que o país deve manter a política do presidente Donald Trump em relação à Venezuela. Blinken chamou o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, de "ditador brutal" e disse apoiar a continuação do reconhecimento de Juan Guaidó como presidente interino, bem como da Assembleia Nacional eleita em 2015 como a única instituição democraticamente eleita do país.

Pouco antes de sair da presidência, Trump havia decidido proteger, temporariamente, os venezuelanos da deportação e impôs novas sanções a Caracas.

Também disse apoiar "o aumento da pressão sobre o regime liderado por um ditador brutal, Maduro, além de tentar trabalhar com alguns de nossos aliados e parceiros". Apesar da campanha de Washington para expulsar Maduro, ele permanece no poder com o apoio dos militares, assim como de Rússia, China, Cuba e, recentemente, do Irã.

Rússia

Após uma relação conturbada com o governo de Donald Trump, o porta-voz da Presidência  russa, Dmitry Peskov, apontou que a melhoria das relações entre a Rússia e os Estados Unidos depende exclusivamente da “vontade política” do presidente Joe Biden. "Não mudará nada para a Rússia que, como há muitos anos, continuará existindo e buscando boas relações com os Estados Unidos", disse Peskov. 

Foto: AFP

Entre as expectativas vindas do Kremlin está a de um trabalho "mais construtivo" com o governo do democrata para prorrogar o tratado de desarmamento New Start, que expira em 5 de fevereiro. O documento limita os arsenais nucleares das duas potências. 

Cuba

Nos últimos momentos no comando do país, Donald Trump decidiu aplicar duras sanções contra Cuba, devolvendo-a à lista de países que patrocinam o terrorismo e aplicando sanções ao ministro cubano do Interior, Lázaro Alberto Álvarez Casas. O bloqueio americano à ilha, iniciado em 1962, havia tido um relaxamento durante o governo de Barack Obama - quanto Biden era vice-presidente. 

A expectativa da Chancelaria cubana é de que o relacionamento entre os países retome seu curso com o novo presidente. "Biden disse que pretende reverter os danos causados por Trump, e não temos motivos para duvidar desse compromisso", afirmou a vice-chefe da direção dos Estados Unidos na Chancelaria, Johana Tabalada.

Irã

O governo iraniano saudou a saída do "tirano" Donald Trump, julgando que "a bola está no campo" do novo presidente americano, Joe Biden, por um possível retorno de Washington ao acordo sobre a energia nuclear iraniana. O democrata já elencou o tratado para limitar o programa nuclear iraniano em troca do alívio de sanções como um dos acordos que pretende restabelecer. 

Donald Trump "trouxe apenas problemas para seu próprio povo e para o restante do mundo", acrescentou o presidente iraniano, Hassan Rohani, em discurso pela televisão.

Coreia do Norte

A tensão com a Coreia do Norte chegou a um pico no início de 2018 com troca de ameaças públicas entre o ex-presidente Donald Trump e Kim Jong-un, com menções ao uso de armas nucleares. Apesar dos ânimos terem acalmado desde então, Joe Biden ainda deve encontrar um clima tenso com o país. 

Kim chegou a declarar que a posse do democrata não alterava a relação entre os dois países. No lado do governo estadunidense, a decisão é de continuar a não reconhecer o regime  norte-coreano. Contudo, a intenção é diminuir a troca de farpas entre os países e não alimentar a rivalidade entre os países. 

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