Traficante extorquido por policiais foi salvo pela prima

Policiais civis e militares se associavam a traficantes para "caçar" recompensas financeiras, a partir da extorsão a outros criminosos

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Legenda: Um traficante do bairro Messejana, em Fortaleza, de 24 anos à época, foi abordado pela organização criminosa formada por agentes públicos e teve que prometer que pagaria R$ 6 mil para não ser preso.

Outra extorsão cometida pelos policiais ocorreu entre os dias 19 e 24 de outubro de 2016. O alvo foi um traficante do bairro Messejana, em Fortaleza, de 24 anos à época. Ele foi abordado pela organização criminosa e prometeu pagar R$ 6 mil para não ser preso.

Nsse intervalo de tempo, o policial civil aposentado e considerado o líder do grupo criminoso, Valberto Evangelista da Costa, cobrou o alvo da extorsão. Em ligação interceptada por autorização da Justiça Estadual, realizada no dia 20 de outubro daquele ano, o traficante alega: "tô agilizando aqui". Valberto pressiona: "Tu acha mais ou menos dá certo para que horas, mais ou menos?". "O máximo cinco e meia, seis horas. É que tô na correria aqui", responde.

Em outra conversa, Valberto combina com o sargento da Polícia Militar do Ceará (PMCE) Paulo Rogério Bezerra do Nascimento a divisão dos R$ 6 mil. "Só isso, macho", reclama o PM. "Diz que foi pouco, diga logo quanto foi pra combinar logo", pede o policial civil. Pronto, uns 1.500 pros meninos (policiais militares), sobrou o que, 2.500 para nós, né? Três e quinhentos, né?", pergunta Paulo Rogério.

A denúncia do Grupo de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público do Ceará (MPCE), traz que o traficante mobilizou familiares para realizar o pagamento. Entretanto, cinco dias após a abordagem, a prima do traficante pagou apenas R$ 3 mil ao grupo criminoso, que se contentou com o valor.

Operação realizou prisões de policiais civis e militares

A Operação Gênesis cumpriu 17 mandados de prisão preventiva, contra nove PMs, três policiais civis da ativa, um policial civil aposentado e cinco traficantes. O grupo atuava na Capital e na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), com extorsão de traficantes médios e pequenos e agiotas.

As informações sobre os alvos eram levantadas pelos traficantes da organização criminosa e pelos policiais, às vezes com uso do sistema da Polícia. E os PMs realizavam as abordagens no exercício da função pública, com a viatura policial, para dar ares de legalidade, segundo o Gaeco.

A denúncia já foi aceita pelas varas de Delitos de Organizações Criminosas e da Auditoria Militar do Ceará, e os acusados se tornaram réus, pelos crimes de extorsão, comércio ilegal de arma de fogo e organização criminosa, conforme a participação individual.

Defesa

O advogado Kaio Castro, coordenador jurídico do Sindicato dos Policiais Civis do Estado do Ceará, afirmou que os fatos apurados são frágeis e as interceptações telefônicas são antigas e foram tiradas de contexto. Disse ainda que as prisões preventivas “são excessivas”. Sobre as acusações contra o policial civil aposentado Valberto Costa, Kaio Castro disse que “foram utilizados trechos específicos (da interceptação telefônica) que serão explicados no momento processual oportuno, pois até hoje ele sequer foi ouvido e não tivemos acesso a integralidade da interceptação”.

A defesa de Fabiano Brito, patrocinada pelo advogado Gílson Alves, foi procurada, mas não respondeu até o fechamento desta matéria. Já os advogados do PM Paulo Rogério não foram localizados.

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