Repasse de Pix e corpo jogado em riacho: como a Polícia chegou aos 7 acusados por morte de entregador

A vítima foi submetida a um "Tribunal do Crime".

Escrito por
Emanoela Campelo de Melo emanoela.campelo@svm.com.br
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Legenda: O cadáver foi encontrado quase 10 dias após o desaparecimento da vítima.
Foto: Reprodução.

O registro de um Boletim de Ocorrência (B.O.) relatando o desaparecimento do entregador Antônio Josué do Nascimento Oliveira foi o ponto de partida para a investigação que culminou com a acusação de sete pessoas pelo Ministério Público do Ceará (MPCE). O grupo foi denunciado por integrar organização criminosa e também pela morte da vítima, vista pela última vez quando aceitou uma corrida no dia 14 de março de 2026, em Caucaia, Região Metropolitana de Fortaleza (RMF).

O Diário do Nordeste teve acesso ao relatório da Polícia Civil do Ceará (PCCE) com detalhes de como Antônio foi raptado enquanto trabalhava, surpreendido com golpes nas costas e morto por integrantes da facção Primeiro Comando da Capital (PCC), em mais um assassinato em decorrência de um  "tribunal do crime".

Antes de o corpo da vítima ser jogado em um riacho, conforme a acusação, o grupo criminoso ainda extorquiu a família do entregador pedindo R$ 500 em troca de que ele fosse solto. O pagamento aconteceu, mas os parentes só reencontraram Antônio já sem vida.

Conforme a investigação, o Pix feito pelos familiares foi essencial para chegar a todos os nomes dos envolvidos no ataque. Depois de o primeiro acusado receber o valor, houve transferência para os demais, incluindo uma divisão do montante como 'tipo de pagamento' por ter participado do ataque.

QUEM SÃO OS DENUNCIADOS:

  • FRANCISCO WEDER GOMES DOS SANTOS, vulgo "NEGÃO" e/ou "FEI"
  • JOÃO FELIPE DE SOUSA LOURENÇO, vulgo "FILIPIM",
  • HENRIQUE CARVALHO MOURA, vulgo "DETONA",
  • RAQUEL DÁRPHINE MONTEIRO DA SILVA
  • JOÃO PEDRO CARDOSO DE PAULA, vulgo "MODINHA",
  • MARIA LÚCIA DE OLIVEIRA SOUSA
  • FRANCISCO WANDERSON SANTOS PEREIRA, 'ZINHO'.

INTERROGADO NO 'TRIBUNAL DO CRIME'

No dia 14 de março de 2026, Antônio Josué foi visto aceitando uma corrida saindo do bairro Conjunto Ceará, com destino ao bairro Araturi, em Caucaia.

"Ao chegar neste bairro, mais precisamente no 'Condomínio dos Linos' (local conhecido das forças policiais por ser reduto de facção criminosa denominada TCP/PCC), a vítima foi surpreendida com um golpe nas costas, ainda sobre a motocicleta, sendo, em seguida, abordada por integrantes do referido grupo criminoso, mais especificamente: João Felipe de Sousa Lourenço, Henrique Carvalho Moura e Francisco Weder Gomes dos Santos".

A vítima foi submetida a interrogatório pelos indivíduos, em ato conhecido como "tribunal do crime", "com o intuito de identificar o bairro onde residia". Criminosos gravaram um vídeo, no qual o entregador teria supostamente confessado que era membro do grupo rival Comando Vermelho.

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Enquanto a sessão do tribunal paralelo acontecia, por volta das 2h da madrugada do dia seguinte ao sequestro, os denunciados entravam em contato com a família da vítima "constrangendo-os a realizar pagamentos como troca da libertação de Antônio Josué".

O valor de R$ 500 foi transferido pelo irmão da vítima para um Pix em nome da acusada Raquel Dárphine. 

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Legenda: Criminosos passaram por uma estrada cercada por mata para tentar esconder o corpo do entregador.
Foto: Reprodução.

A mulher disse às autoridades que forneceu sua chave Pix a pedido do denunciado João Pedro Cardoso. "Após, identificou-se que João Pedro repassou R$ 400 do valor recebido para o denunciado João Felipe de Sousa Lourenço, permanecendo com a quantia de R$ 100 para si, valor o qual recebeu como recompensa para mandar a chave pix", segundo a acusação.

SEQUÊNCIA DE PRISÕES

O entregador permanecia desaparecido quando os primeiros suspeitos foram presos. Em 17 de março de 2026, João Pedro e Raquel foram capturados em flagrante. No dia seguinte, João Felipe foi flagrado em sua residência, "com a porta aberta, em posse de porções de entorpecentes e adesivos para a embalagem da droga espalhados sobre a mesa da sala".

João Felipe ainda tentou fugir pelas escadas, mas foi contido.

Em continuidade das investigações, a Justiça autorizou a extração dos dados do número telefônico da vítima, "ocasião em que a equipe constatou que os investigadores estavam tentando comercializar o aparelho celular do falecido".

Conforme a acusação, o denunciado Francisco Wanderson inseriu um chip da sua propriedade no celular do entregador no dia 19 de março de 2026, "sendo que, posteriormente, sua namorada, a denunciada Maria Lúcia, também inseriu outro chip registrado em seu nome".

Os policiais tomaram conhecimento de que o casal residia próximo ao local onde a vítima foi raptada e morta e foram ao endereço. Já na calçada, Maria Lúcia confirmou que estava em posse do celular da vítima, enquanto Wanderson fugiu para um matagal perto, sem ser capturado pelos agentes.

Por fim, a Polícia identificou que Francisco Weder Gomes também estava no local chamado como "tribunal do crime", "bem como a presença dos indivíduos conhecidos como 'Detona', qualificado como sendo Henrique Carvalho Moura, e 'Gordão', ainda não qualificado".

O corpo de Antônio Josué só foi encontrado quase 10 dias após o desaparecimento, em 24 de março de 2026, em um riacho a aproximadamente 300 metros do local onde foi arrebatado.

FACÇÃO

Para as autoridades, "os denunciados agiram em comunhão de desígnios no contexto de organização criminosa, com clara divisão de tarefas".

A denúncia foi enviada à 4ª Vara Criminal de Caucaia, que solicitou o declínio de competência com urgência em favor do Juízo da Vara de Delitos de Organização Criminosa destacando que "evidencia-se que os delitos narrados encontram-se inseridos em cenário típico de criminalidade organizada, envolvendo facção criminosa de atuação interestadual".

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