Prefeito e pai são presos por morte de ex-prefeito de Granjeiro

Polícia Civil deve indiciar a dupla por homicídio. A defesa nega a participação deles no crime. O prefeito tentou fugir dos policiais, mas acabou detido. Um policial militar também foi preso por coordenar a ação criminosa

Legenda: Presos foram levados à Delegacia Regional do Crato, responsável pela investigação da morte do prefeito de Granjeiro
Foto: Antonio Rodrigues

A Delegacia Regional do Crato, da Polícia Civil, está próxima de concluir a investigação do assassinato do ex-prefeito de Granjeiro, João Gregório Neto, o 'João do Povo', e de indiciar o atual prefeito (ex-vice) do Município, Ticiano da Fonseca Félix, o 'Ticiano Tomé', e o pai dele, Vicente Félix de Sousa, o 'Vicente Tomé' por homicídio. Os dois foram presos preventivamente na Operação Granjeiro, ontem.

O diretor do Departamento de Polícia Judiciária do Interior Sul (DPJI Sul), delegado Ricardo Pinheiro, conta que 'Ticiano Tomé' foi preso em Fortaleza. Ao ver os policiais, o prefeito tentou fugir e se desfez de aparelho celular e da chave de um veículo, mas acabou capturado metros depois. Ele também foi afastado do cargo público, por decisão da Justiça Estadual. O presidente da Câmara de Vereadores, Luiz Márcio Pereira, deve assumir a Prefeitura.

'Vicente Tomé' já cumpria prisão domiciliar, com uso de tornozeleira eletrônica, desde o dia 14 de janeiro deste ano, e foi alvo de novo mandado de prisão. Ele, que também já foi prefeito do Município, é suspeito de ordenar o crime com o filho, motivados por uma rivalidade política com a vítima.

O advogado de defesa dos dois presos, Luciano Daniel, afirma que a operação policial é "fundada em achismos" e que não há elementos no inquérito que comprovem a participação dos clientes no crime. "Essa decisão é completamente esdrúxula. Ambos estavam cumprindo medidas cautelares. Todas as vezes que foram notificados, compareceram perante a autoridade policial, prestaram esclarecimentos".

A Operação cumpriu 12 mandados de prisão (sendo nove preventivos e três domiciliares) e 15 mandados de busca e apreensão, nos municípios de Fortaleza, Crato, Juazeiro do Norte e Granjeiro, além de Salgueiro, em Pernambuco. 60 policiais civis participaram dos trabalhos.

O tio de Ticiano e irmão de Vicente, identificado como José Plácido da Cunha, foi outro alvo de mandado de prisão, mas conseguiu fugir e deixou para trás um revólver calibre 38 municiado. A Justiça determinou a prisão domiciliar de outros três suspeitos: o secretário da Administração do Município, Joaquim Maximiliano Borges, o 'Max' (também afastado do cargo por decisão judicial); o gerente de uma loja pertencente a Vicente, Francisco Rômulo Brasil Leal dos Santos; e o empresário Geraldo Pinheiro de Freitas, que seria um dos financiadores do crime.

Em poder de Geraldo, a Polícia apreendeu R$ 120 mil em espécie, que seriam utilizados para pagar os assassinos. A Operação também apreendeu três notebooks, sete HDs e vários aparelhos celulares, nos imóveis dos investigados.

Policial militar

Também foi preso preventivamente, ontem, o cabo da Polícia Militar do Ceará (PMCE) Mayron Myrray Bezerra Aranha, apontado pela investigação como o coordenador da execução de João Gregório Neto. Ele já estava detido desde maio deste ano por tentar matar uma jovem que teria se negado a ter relação sexual com ele, com um tiro, em Barbalha. E ainda responde por crimes de trânsito, porte ilegal de arma de fogo e disparo de arma de fogo, além de ter sido afastado da Corporação por participar do motim de militares, em fevereiro último.

Mayron estava detido no Batalhão de Polícia Militar de Juazeiro do Norte. Segundo o titular da Delegacia Regional do Crato, delegado Luiz Eduardo da Costa, o PM gozava de acesso a um aparelho celular e a um notebook. Questionada sobre o uso equipamentos tecnológicos, a PMCE não se manifestou até o fechamento desta matéria.

Atualização - 16 de julho de 2020, 10h30: Após o fechamento da matéria, a Polícia Militar enviou a seguinte nota:

A Polícia Militar do Ceará (PMCE) informa que o policial militar estava preso no 2º Batalhão Policial Militar, tendo em vista que o ofício de apresentação do mesmo, feito pelo Delegado Municipal de Barbalha, indicava que ele deveria ser recolhido ao quartel do 2° BPM, ficando à disposição da Justiça da Comarca de Barbalha.
Além disso, o policial aguardava a audiência de custódia que deveria ocorrer naquele município.
Com relação ao mesmo ter acesso a aparelho de telefonia celular e notebook, será instaurado um Inquérito Policial Militar (IPM) para apurar as responsabilidades.
A Corporação esclarece que o policial militar em epígrafe, não é filho, mas sim enteado do Comandante do Batalhão Policial sediado em Iguatu.
Esclarece ainda que o padrasto do policial militar comanda o Batalhão de Iguatu não possuindo nenhum comandamento sobre o Batalhão de Juazeiro, ou seja, são comandos distintos e independentes.

Três homens, que teriam participado diretamente do assassinato, foram presos preventivamente: Anderson Mauricio Rodrigues, que seria o 'braço direito' de Mayron e já tinha passagem pela Polícia por receptação; Wendel Alves de Freitas Mendes, com antecedentes criminais de furto, estelionato, receptação, associação criminosa, falsidade ideológica, uso de documento falso e organização criminosa; e Willyano Ferreira da Silva. Os dois últimos já tinham sido presos no dia 9 deste mês, no Crato, por força de mandados de prisão temporária.

O assassinato de 'João do Povo' ocorreu na manhã de 24 de dezembro de 2019, véspera do Natal. Após quase sete meses de investigação, a Polícia Civil afirma que está próxima de concluir o inquérito. "Falta muito pouco. A gente já tem motivação, autores, executor, quem pilotou o veículo. Falta fazer esse levantamento exato do financiamento. A gente acredita que, com o material de hoje, a gente vai conseguir fechar", aponta o delegado Luiz Eduardo.

Ocultação

O promotor de Justiça de Granjeiro, Rafael Couto, revela que os suspeitos de participarem do crime tentaram ocultar as provas, no momento da execução e depois. "Isso dificultou as investigações, mas não as impediu. As investigações estão próximas do fim. É um quebra-cabeça, que não é pequeno, porque envolve muitas pessoas. Mas os indícios são fortes", reforça.

Inclusive, Rafael conta que "há indícios de que a máquina pública (da Prefeitura) estaria sendo utilizada para pressionar possíveis testemunhas do inquérito policial, de modificar seus depoimentos, trazendo lesões a essas pessoas que estavam colaborando com a investigação criminal". Como exemplo, ele cita que uma testemunha do caso, que é permissionária de um imóvel do Município, poucos dias após comparecer à delegacia, recebeu uma notificação para devolver o bem, com a alegação de que passaria por uma reforma, o que não foi comprovado pela Prefeitura.

Prisões são comemoradas em Granjeiro

O céu ainda estava escuro quando as primeiras viaturas da Polícia Civil chegaram em Granjeiro para cumprir os mandados de prisão e, também, de busca em apreensão. Vicente Félix de Sousa, o Vicente Tomé, pai do atual prefeito Ticiano Tomé, que também está preso, foi um dos primeiros a ser levado pelos agentes, sob os gritos de "assassino". Mesmo em período de isolamento social, um grande número de pessoas foi até a casa do suspeito, que fica ao lado da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Imaculada Conceição.

Por volta de 5h, o celular do presidente da Câmara de Vereadores, Luiz Márcio Pereira, que horas depois seria empossado como prefeito, não parava de tocar. Mesmo após quatro horas do início da operação, os moradores ainda estavam "desconfiados" com todos os carros que chegavam ao Município. Apoiadores de João Gregório, o "João do Povo", se reuniram para comemorar a prisão de Ticiano e do pai dele, alguns soltaram fogos. "Eu nem votei em João. Eu apoiava o outro lado, mas estou feliz. Ele não merecia isso não. Era muito querido, sempre se colocou à disposição. Era prefeito de todo mundo", contou uma moradora que pediu para não ser identificada. A suspeita de crime político também é forte na população.

"Há muito tempo tentavam tirar ele (João). Foram na justiça, Ministério Público. Só conseguiriam assim, porque ele seria reeleito", completa outro morador. Outra pessoa, que também não quis se identificar, apesar de acreditar em crime político, inocenta Ticiano. "Ele sempre foi um menino tranquilo", conta. Porém, sobre seu pai, Vicente Tomé, garante, "sempre quis se manter no poder".

Uma idosa, que também pediu para não se identificar, sentencia: "Aqui sempre foi um lugar pacato e depois disso se criou um medo. Eu espero que (com a prisão) a cidade volte a ter paz".