Periferia de Fortaleza vive medo e tensão durante motim da PM

O Diário do Nordeste visitou três bairros da Capital e conversou com moradores. A palavra em comum foi apreensão. No Conjunto Ceará, comerciantes denunciam série de assaltos ocorridos durante o Carnaval

Legenda: No bairro Bom Jardim, apenas uma composição foi flagrada enquanto a reportagem esteve no local
Foto: Foto: José Leomar

“Aqui você vai encontrar mais lama do que Polícia”. Para muitos, a frase pode ser até um exagero, mas em tempos em que policiais militares cruzam os braços, a segurança pública de pessoas que vivem em áreas periféricas nunca esteve tão distante.

Para observar o retrato cru da ausência do poder público, pintado por uma moradora do bairro Bom Jardim, é preciso apurar o olhar. Afinal, tentar encontrar, em alguma das ruas, forças militares que atuam no policiamento ostensivo da Capital é tarefa de especialista – e dos bons.

José Silva, de 54 anos, é comerciante do bairro e viveu atônito durante os últimos nove dias de paralisação. “A segurança tá péssima, nós não temos segurança. Tá zero, olha, os comerciantes todos fechados. Eu abri hoje, mas com medo de assalto”, confessa. É a poucos metros do seu ponto que uma grande poça de lama se forma há 12 anos seguidos.

Antes fosse, para José, o saneamento básico o principal dos seus problemas. “No ano passado, fomos repreendidos pela bandidagem. E esse ano é pela Polícia... Em pleno Carnaval abandonar nós? Será que eles não têm gente da família que tá no fogo cruzado que nem nós estamos?”, questiona o comerciante, ao passo que relata ter visto, da porta do seu próprio negócio, diversos crimes acontecendo.

Assaltos

No Conjunto Ceará, a realidade não é muito diferente. Na última sexta-feira (21), mais de 20 clientes que frequentam a agência lotérica de William Douglas, 41, – que fica em uma das vias mais movimentadas da região – foram assaltados por quatro homens encapuzados.

“A fila tava aqui fora, eles colocaram ela toda pra dentro e levaram tudo de quem tava, celular, dinheiro”, conta o administrador da lotérica. Segundo ele, as pessoas estão apreensivas, com medo de sair e ir trabalhar.

“Hoje é quarta-feira, e a gente abre já com medo. Com a própria Polícia, a gente já vive numa insegurança muito grande, sem ela é muito medo, a gente não consegue fazer nada”, relata.

Para a auxiliar administrativa Gislaine Alves, a insegurança “está reinando”. “Próximo de onde eu moro é um deserto, não tem ninguém no meio da rua. A gente vê policiais no quartel, as viaturas lá, mas não saem, não tem policial rodando, nenhum. O reforço nunca apareceu aqui. Ficaram só na área nobre”, critica. A ausência de agentes de segurança pública é reiterada não só por quem passou por problemas nas periferias, mas também por pessoas que consideram o período tranquilo.

Ausência

“Por aqui não vi, não. Eles podem até ter passado em horários que eu não tenha visto, mas eu não tive esse suporte, até porque eles (as Forças Armadas) demoraram a chegar”, avalia a dona de um supermercado do bairro Pirambu Sandra Feijó.

De acordo com ela, o período do motim de parte da Polícia Militar, que chegou ontem ao nono dia, “só teve um homicídio”. “Não teve nenhuma bagunça, falta de respeito com a população aqui. A situação está muito tranquila, a gente trabalhou, apesar de que a gente ficou bem apreensivo porque não tinha policiamento nem nada”, considera.

“Ouvi dizer que está só na Beira-Mar. Eu mesmo não fui pra lá, mas diz que está cheio de Exército. Aqui era pra vir Força Nacional, Exército, tudo. Hoje, eu vi pelo menos duas viaturas do Cotam (Comando Tático Motorizado) passando, e ontem duas equipes do Raio. Pronto. Uma vez”, lembra José Silva, do Bom Jardim. 

William Douglas também reclama da falta das forças de segurança no Conjunto Ceará. “Eu vi um carro do Exército durante o Carnaval aqui no bairro, mas, no dia em que assaltaram nossos clientes aqui, a gente ligou pra Polícia e não fomos atendidos”.

Presença

O Diário do Nordeste questionou a 10ª Região Militar – que gerencia as atividades da Operação Mandacaru, nome dado às ações durante a Garantia da Lei e da Ordem (GLO) – sobre a atuação na periferia de Fortaleza, em especial nos bairros Pirambu, Conjunto Ceará e Bom Jardim. Em nota, a força militar se limitou a dizer que “o patrulhamento nas áreas mencionadas segue normal, seguindo as diretrizes da Operação Mandacaru”. A reportagem questionou a Secretaria da Segurança sobre o efetivo que está realizando patrulhamento na periferia, mas não houve resposta até o fechamento desta matéria.

Ceará já registra 195 homicídios

O número de mortes no Ceará, desde a última quarta-feira (19), chegou a 195. O levantamento foi atualizado com informações do coronel do Exército Leônidas Carneiro Júnior, oficial de comunicação das Forças Armadas, que citou redução dos crimes, na comparação entre o início da atuação do Exército, sexta-feira (21), com 37 homicídios, e terça-feira (25), com 25 assassinatos. Ontem, a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) mudou a forma de divulgação dos dados de Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLIs) - que englobam homicídios dolosos, feminicídios, lesões corporais seguidas de morte e latrocínios, e disse que não iria mais repassá-los de forma parcial.

Em nota à imprensa, o comando da Operação Mandacaru, gerenciada pela 10ª Região Militar, disse que "o Estado do Ceará tem presenciado uma diminuição sensível no número de assassinatos". De acordo com a nota, "com o início do patrulhamento, houve uma redução no número de crimes violentos, interrompendo a curva ascendente demonstrada pelos números desde o dia 19", afirmou a Operação.

Foram registrados 37 homicídios na sexta-feira, o dia considerado mais violento, 34 no sábado, 25 no domingo, 23 na segunda, e 25 na terça. De acordo com o Exército, "esse resultado tem sido possível graças à atuação conjunta das Forças Armadas com os Órgãos de Segurança Pública, que estão atuando de forma coordenada em diversas operações".

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