Identificado outro envolvido no assassinato de Ana Bruna
Pistas revelaram que o pistoleiro Veridiano foi levado ao local do crime pelo cabo PM Eudásio, em sua moto vermelha
As investigações que apuram a morte da adolescente Ana Bruna de Queiroz Braga, 17 anos, já avançaram o suficiente para a força-tarefa da Polícia Civil chegar à identificação do segundo homem envolvido na execução da garota. Os indícios revelam que o comparsa do pistoleiro José Veridiano Fernandes Nogueira no crime é um policial militar, da ativa, que já está preso preventivamente. Trata-se do cabo PM José Eudásio Nascimento de Sousa, destacado na 1ª Companhia do 6º BPM (Maraponga) e que está na corporação há 27 anos e cinco meses.
As investigações da força-tarefa revelam que o cabo Eudásio utilizou sua motocicleta, de cor vermelha, para levar Veridiano até o bairro da Aerolândia, na noite de 13 de abril último, onde os dois eliminaram a adolescente com vários tiros à queima-roupa, na esquina das ruas Djalma Petit e Aspirante Mendes. Preso em flagrante logo após cometer o assassinato, ocasião em que foi baleado na perna direita, Veridiano encobriu a identidade do comparsa diante das autoridades e até agora sustenta que o cúmplice chama-se ‘Júnior’.
As investigações apontam ainda que o cabo Eudásio teria usado a mesma moto por ocasião do assassinato do comerciante Francisco Válter Portela, no dia 1º de março último, na Avenida Osório de Paiva, no bairro Canindezinho. A morte de Portela deu início a uma seqüência de assassinatos por queima de arquivo.
Eudásio responde na Justiça por dois homicídios, um deles no Município de Caucaia. Apesar disso, vinha trabalhando normalmente nas ruas até ser preso, no último dia 26, em sua residência, por policiais do Batalhão de Polícia de Choque (BpChoque). No depoimento que prestou à Justiça, na última segunda-feira, o militar se limitou a negar participação dos assassinatos, afirmando que sequer conhecia as vítimas e que só soube das investigações em torno do grupo de extermínio, através da através da Imprensa. Eudásio teve prisões preventivas decretadas em Fortaleza e Maracanaú, à exemplo do cabo PM Raimundo Nonato Soares Pereira, o ‘cabo Nonatinho’; e do soldado Lúcio Antônio de Castro Gomes. Em conversas telefônicas através de celulares, gravadas pela Polícia, os três aparecem tramando crimes de morte junto com o ex-PM Ademir Mendes de Paula.
PROCESSO - Surgem nomes de outros PMs suspeitos nas investigações
Os nomes de outros policiais militares estão sendo investigados pela Justiça. Entre eles, o do sargento PM João Augusto da Silva Filho, o ‘Joãozinho Catanã’, apontado como envolvido em diversos crimes de morte em Fortaleza e que, mesmo assim, permanece na corporação. ‘Catanã’ foi citado no depoimento prestado pelo sargento Eudásio, quando este foi indagado pelo juiz Jucid Peixoto do Amaral.
Em dezembro de 2005, ‘Catanã’ foi julgado pela Justiça Comum e condenado a 13 anos de prisão pela morte do jovem Carlos Alberto Ramos Herculano, crime ocorrido no dia 21 de abril de 1999, na esquina das ruas Cardeal Arcoverde e Luís Morais Correia, no bairro Autran Nunes.
Na época, a Justiça comprovou que ‘Catanã’ executou Carlos Alberto por causa de uma arma. A vítima trabalhava para o PM, fazendo cobranças. Condenado, ele recorreu contra a sentença. Temido nos bairros do Autran Nunes, Henrique Jorge, João XXIII e Genibaú, ‘Catanã’ comandaria uma empresa de segurança.
PRESÍDIO MILITAR - Gravações comprovam o uso de celulares
“Você tem que se esconder... a vagabunda entregou todo mundo antes de morrer...” Este é um dos trechos dos diálogos gravados pela força-tarefa da Polícia nas investigações sobre a morte da adolescente Ana Bruna.
O diálogo é travado pelo cabo PM Eudásio com uma amante, chamada Fernanda. Os dois falam a respeito do depoimento que a testemunha-chave prestou à Polícia Civil e ao Ministério Público Estadual, contando tudo o que sabia sobre o envolvimento de seu companheiro, o ex-soldado Ademir Mendes de Paula, o ‘Ném’, e outros militares, quando tramam crimes de pistolagem e de queima de arquivo.
A conversa, através de celular, aconteceu quando o cabo já estava preso, recolhido no Presídio Militar, depois que sua custódia preventiva foi decretada pela Justiça de Maracanaú.
A gravação feita pelos delegados que compõem a força-tarefa comprova a revelação feita pelo juiz Jucid Peixoto do Amaral: mesmo estando presos por ordem judicial, os PMs usavam livremente celulares dentro do Presídio Militar e até faziam farras, bebendo uísque e acertando encontros fora dali com namoradas.
Na manhã de hoje, o juiz vai encaminhar à Auditoria Militar do Estado um oficio pedindo a abertura de investigações para apurar as facilitações que os PMs detidos tinham no Presídio. “Queremos saber quem autorizava essas facilitações”, disse o juiz em entrevista à Imprensa, segunda-feira.
Um CD, contendo dezenas de horas de gravações - realizadas no ‘Guardião’ da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (sala onde está montada a aparelhagem utilizada nas escutas telefônicas) - foi entregue ao juiz pelos delegados Jairo Pequeno e Franco Júnior. São conversas que levaram a Polícia a concluir que o grupo de extermínio continuava articulado mesmo depois que seus integrantes foram presos.
O teor das gravações está em poder do magistrado, que deverá solicitar sua degravação e encaminhar cópias ao Ministério Público, à Corregedoria Geral dos Órgãos da Segurança e à Auditoria Militar do Estado.
O promotor de Justiça, José Wilson Furtado, em entrevista a tevê, ontem, confirmou que a grave revelação feita pela força-tarefa ao juiz será objeto de apuração. “Precisamos saber quem autorizou os policiais presos a utilizar telefones celulares e até sair do presídio, conforme as denúncias que recebemos”, disse Furtado.
Revista
Até a noite passada, o Comando da Polícia Militar não havia se manifestado, oficialmente, sobre as denúncias. Mas, cedo da manhã, duas patrulhas do Comando Tático Motorizado (Cotam), do Batalhão de Polícia de Choque (BpChoque), sob o comando do tenente Capelo, foram deslocadas até o Presídio Militar e fizeram uma revista em todas as celas. Apenas um carregador de celular e um recipiente com álcool foram encontrados. A segurança, aparentemente, não foi reforçada. PMs (praças) que cumprem prisão judicial ou disciplinar são recolhidos ali. Já oficiais, ficam presos em quartéis ou na Academia General Edgard Facó.
SUMIU - Pistas revelam que mandante dos crimes fugiu para o Piauí
O comerciante João Batista Portela, apontado como mandante de crimes atribuídos ao grupo de extermínio, continua foragido. Segundo a Justiça, as pistas seguidas pela Polícia indicam que o acusado pode estar escondido no Estado do Piauí, onde residem seus familiares.
João Batista Portela desapareceu há duas semanas, depois que a Justiça decretou sua prisão preventiva como acusado de ter encomendado´ a morte de seus próprio irmão, o também comerciante Francisco Válter Portela. Entre os dois irmãos originou-se uma rixa por conta de negócios. Conforme as investigações da Polícia Civil, João cobrava de Válter o pagamento de uma dívida no valor de R$ 150 mil.
Este teria foi o motivo da pistolagem que teria sido praticada pelo ex-PM Ademir Mendes de Paula, o ‘Ném’, com a cobertura de colegas de farda, entre eles, o soldado Lúcio Antônio e o cabo Eudásio. Os criminosos articularam o crime através de celulares. Ademir foi quem atirou na vítima.
TESTEMUNHA - Garota sabia de tudo e acabou sendo eliminada
Apenas 17 anos de idade, mas envolvida com um ex-policial militar expulso da corporação por crimes como assaltos e assassinatos. Assim era a adolescente Ana Bruna de Queiroz Braga, que acabou se tornando uma das vítimas dos integrantes do grupo de extermínio.
A garota vivia maritalmente com o ex-soldado Ademir Mendes de Paula, o ´Ném´, há quatro anos e partilhava de sua vida de crimes. Sabia de tudo o que acontecia, pois o companheiro fazia questão de lhe contar quando matava alguém.
Segundo Ana Bruna, em janeiro passado, Ademir matou um homem chamado Eliézio, no Jardim Jatobá, a mando de uma cigana de nome Maria Alice. Depois disso, o casal fugiu para a cidade de Formosa, em Goiás, mas, retornou à Fortaleza depois que Ademir recebeu uma proposta de R$ 10 mil para matar outro homem: era o comerciante Válter Portela.
Ademir, conforme Bruna, fez o ´serviço´, mas, no dia 8 de março, foi fuzilado.
No mesmo dia que o ex-PM foi assassinado, a garota decidiu procurar a Polícia para revelar o que sabia. Contou ter ouvido do companheiro a confissão de ter assassinado Válter Portela, citando os nomes dos outros PMs que participaram da pistolagem. Delatou também o nome de João Batista Portela como mandante do crime.
Fernando Ribeiro
Repórter