'Golpe de estado' dentro do PCC: acusados de tentativa de chacina em Fortaleza vão a júri
Duplo homicídio ocorreu em via pública do bairro Quintino Cunha, em 2024, e foi motivado por conflito entre facções criminosas.
Três homens acusados de uma tentativa de chacina no bairro Quintino Cunha, em Fortaleza, em julho de 2024, vão a júri popular, segundo decisão da Justiça do Ceará proferida no último dia 28 de abril. O crime deixou duas pessoas mortas e outras duas feridas, e teria sido motivado por uma trama envolvendo uma suposta traição interna e conflitos entre as facções criminosas Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) pelo tráfico de drogas.
A data do julgamento ainda será marcada pela 2ª Vara do Júri de Fortaleza. O episódio violento ocorreu em via pública, na tarde de um domingo, 14 de julho de 2024, quando as vítimas conversavam próximas a uma praça e consumiam bebia alcóolica.
Morreram Antônia Glauciene de Souza Abreu, a 'Vovozinha' e João Marcos Nunes do Nascimento. Outras duas pessoas, identificadas como Milena Nunes do Nascimento e João Gomes de Abreu Neto, sobreviveram. Eles eram da mesma família.
De acordo com denúncia feita pelo Ministério Público do Ceará (MPCE) em fevereiro de 2025, os autores do crime seriam integrantes do PCC. As vítimas seriam familiares de uma liderança local do CV, organização rival.
O órgão de acusação pontuou que a tentativa de chacina ocorreu na Comunidade do Sossego, um território que estava em disputa e era dividido em dois setores: o de baixo, liderado pelo CV e o de cima, liderado por Francisco Lindolfo de Souza, um dos réus pelo crime.
Lindolfo possui uma ficha criminal extensa, com crimes como homicídio, tentativa de homicídio e dano. Uma de suas prisões foi em março de 2019, por porte ilegal de arma de fogo, além de autuação na lei que trata sobre Organização Criminosa.
Vão a júri popular:
- Welison Douglas Souza Gonçalves, 'DG'
- Leylson de Sousa Abreu, o 'Barata'
- Francisco Lindolfo de Souza, o 'Gogó'
- Willian de Souza Rodrigues, o 'Royal Salute' ou 'Paulista'
Os réus foram pronunciados, ou seja encaminhados para julgamento, pelos crimes por duplo homicídio qualificado consumado e duas tentativas. No caso de Lindolfo, apontado como uma liderança de facção, ainda será julgado o crime de organização criminosa. O grupo de réus teve suas prisões preventivas mantidas.
Lindolfo seria o mandante, Willian teria fornecido o carro (com placas clonadas) de apoio ao crime, e Leylson e Welison teriam sido executores dos disparos de arma de fogo que mataram as vítimas, segundo documentos obtidos pelo Diário do Nordeste.
Sobre Willian, os autos processuais ainda revelam que à época do crime ele era foragido da Justiça do Maranhão desde 14 de maio de 2024, após ter sido beneficiado pela saída temporária de Dia das Mães. O homem seria conhecido na organização criminosa como o 'Sintonia Geral'.
Em nota, a defesa de Willian, informou que recebeu a pronúncia com "profunda inconformidade" e diz que a decisão "encontra-se alicerçada em um conjunto probatório eivado de nulidades e calcado em provas manifestamente ilícitas". "Diante deste cenário, a defesa técnica reafirma publicamente que não descansará na busca pelo reconhecimento destas graves irregularidades. Já estamos trabalhando nas medidas judiciais cabíveis e manejaremos todos os recursos necessários junto às instâncias superiores para extirpar dos autos as provas ilícitas e reverter esta decisão", disse o advogado Gilson Alves.
O Diário do Nordeste solicitou posicionamentos à defesa de Welison e aguarda retorno para atualizar esta matéria. Os advogados dos outros réus não foram localizados. O espaço segue aberto.
Outras três pessoas foram denunciadas pelas mortes pelo MPCE, mas foram impronunciadas pela 2ª Vara do Júri e não vão a julgamento. Segundo o juiz responsável pelo caso, não há indícios suficientes para julgar Danilo Santos da Silva, o 'Cabelim' ou 'Cassaco', Levi Peck Rodrigues Júnior, o 'Salau', e Antônio Gabriel da Silva Almeida, o 'Biel ou Malote'.
Ao ser impronunciado, o trio teve as prisões preventivas revogadas e já foram soltos.
'Golpe de estado' dentro da facção
De acordo com a denúncia do MP do Ceará, o ataque foi orquestrado para que o PCC se vingasse de uma traição interna na facção, que na linguagem dos criminosos é referida como "golpe de estado". Foi apurado que Antônia Glauciane, a 'Vovozinha' vendia drogas para a facção de origem paulista, mas acabou pegando entorpecentes para uso pessoal e não teria pago.
A vítima teria fugido para uma comunidade dominada pelo CV, grupo de origem carioca, fato que teria motivado o suposto chefe do tráfico da região, Lindolfo, a ordenar a execução dela.
A investigação da Polícia Civil descobriu que boa parte da família de 'Vovozinha' havia "rasgado a camisa" e saído do PCC para o CV.
O ataque foi orquestrado de modo a dificultar a defesa das vítimas, que estavam em um momento de descontração. "O modus operandi que marcou a conduta delitiva se verificou de modo a dificultar a defesa das vítimas, porque foram surpreendidas pela rápida aproximação dos agressores, que portando arma de grande poder atacaram e mataram as vítimas [...]", disse o MPCE.
Tentativa de chacina foi comemorada
Uma investigação do Núcleo de Inteligência Policial (NUIP) do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) da Polícia Civil do Estado do Ceará (PCCE) revelou que o réu Willian de Souza, comemorou a tentativa de chacina momentos depois do ataque.
Em conversas de WhatsApp em um celular apreendido, por volta das 18h03 do dia 14 de julho de 2024, ele afirma a outro faccionado que já "estava bebendo" e "comemorando" as mortes.
(sic) Acabei de fazer ali um triplo homicídio, daquele jeito, já tô bebendo, comemorando, tá ligado Daquele jeitão, viado! Mas, taí o número dos parceiros, aí entendeu, mano. Eu sou de Guarulhos, mas eu moro aqui agora, parceiro, no Ceará. Entendeu, parceiro? (sic)
Em áudios para uma segunda pessoa, ele chega a celebrar: "Derrubaram a Vovozinha" e diz que estará esperando a confirmação dos óbitos de mais pessoas, pois só dois haviam morrido no local. As outras duas vítimas sobreviveram.
O número atribuído a Willian ainda se vangloria de que "fez uma chacina" e diz que todas as vítimas eram "lixo", o que significa rivais de facção ou simpatizantes dos rivais. No dia seguinte ao crime, ele chega pedir apoio a uma pessoa identificada apenas como "Sabotage", falando que precisa de um cartão de crédito para se mudar de casa.
As redes sociais do celular apreendido ainda revelam tramas internas do tráfico de drogas da facção e interações com criminosos de diversos estados do Brasil. Conforme a Inteligência Policial, esse fato evidencia que o criminoso tem "posição relevante" na hierarquia interestadual do PCC.
Como foram as prisões?
O primeiro a ser preso foi Willian, no dia seguinte à tentativa de chacina. Ele foi capturado em um imóvel no bairro Meireles, por força do mandado de prisão do Maranhão, onde ele era considerado foragido. Com ele, foram apreendidos os celulares que deram rumos à investigação, devido à quantidade de informações internas das dinâmicas criminosas do PCC.
A segunda prisão relativa ao caso ocorreu em 28 de julho de 2024, com a captura de Danilo Santos da Silva, que foi inicialmente apontado por familiares das vítimas. Com o avanço da investigação, foram presos Francisco Lindolfo em 20 de setembro do mesmo ano, e Levi Peck Rodrigues, no dia 21.
Em dezembro de 24 foram presos Leylson de Sousa, no dia 6 de dezembro, e Antônio Gabriel, no dia 7 de dezembro.
O último a ser preso pelo crime foi Welison Douglas, o 'DG', apontado como um dos principais atiradores, que passou mais de um ano foragido. Os autos processuais não apontam a data exata da prisão dele, mas ele já estava sob custódia na audiência de instrução realizada no fim de 2025.