Fevereiro de 2020 já é o mais violento dos últimos oito anos no Ceará

Números de homicídios registrados pela Secretaria da Segurança superam o - até então - fevereiro mais sangrento, em 2014. Mancha de assassinatos aponta periferia de Fortaleza como principal local das mortes durante motim de PMs

Legenda: Aumento da estatística de violência no Estado ocorre num contexto do qual parte da Polícia Militar está de braços cruzados
Foto: Foto: José Leomar

Embora fevereiro seja o menor mês do ano (com 28 ou 29 dias), os números de Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLIs) no Ceará - que englobam homicídios dolosos, feminicídios, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte - para o período de 2020 é o maior do mês para os últimos oito anos, mesmo sem ele ter finalizado ainda.

Até o dia 27 deste mês, foram registrados 405 assassinatos no Ceará; em fevereiro de 2019, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) contabilizou, em todo o mês, 164.

O aumento, de um ano para o outro, foi de 174% - ainda sem contar sexta-feira (28) e sábado (29) do atual mês. O aumento no número de casos ocorre em um contexto do qual parte da Polícia Militar está de braços cruzados, amotinada e aquartelada em batalhões do Estado do Ceará.

O último fevereiro mais violento havia ocorrido em 2014, com 386 casos. Naquela época, o Diário do Nordeste noticiava que oito homicídios haviam sido registrados na Grande Fortaleza em apenas 24 horas. Desde então, a soma mudou - e muito.

No dia mais sangrento deste ano, em 21 de fevereiro, no qual foram contabilizados 38 assassinatos, 27 ocorreram na região, em igual espaço temporal.

O motim

A paralisação dos profissionais de Segurança entra, neste sábado (29) no 12º dia - e ainda sem previsão para que policiais e governo estadual consigam chegar a um consenso.

O motim começou às 18h do dia 18 de fevereiro, mas os dados de mortes violentas - com influência dessa atitude - só são considerados a partir do dia 19. Entre este dia e a última quinta-feira, 27 de fevereiro, foram registrados 239 homicídios no Ceará. Em média, são mais de 26 casos por dia; ou um assassinato a cada 54 minutos e 20 segundos.

De acordo com o sociólogo Luiz Fábio Paiva, do Laboratório de Estudos da Violência (LEV), da Universidade Federal do Ceará (UFC), os números corroboram com a falta da Polícia nas ruas do Ceará.

"A gente tem um claro vazio de policiamento e, obviamente, tem um cenário de oportunidades para todas e as mais diversas práticas de crimes, como ações de milícias, facções e muitos acertos de conta", explica o professor.

Exército

Segundo Luiz Fábio, embora o Exército esteja atuando nas ruas, a força armada não têm prática de policiamento ostensivo.

"É uma ação totalmente inadequada e ineficiente, ela não vem pra coagir o crime, vem para criar uma sensação de que algo está sendo feito, evitar situações de maior gravidade, mas as pessoas que fazem o crime conseguem continuar atuando mesmo com esse tipo de presença ostensiva", analisa.

Em nota, a 10ª Região Militar afirmou que "a Operação (Mandacaru - gerenciada pelas Forças Armadas) tem contribuído, desde o seu início, para a diminuição dos índices de violência que estavam em escala ascendente, proporcionando, inclusive, a realização de grandes eventos, como a Copa Sul-Americana".

Segundo o Exército, "todos os índices são avaliados diariamente pela Operação para a tomada de providências necessárias e estratégicas".

A periferia

Nos boletins diários da Secretaria da Segurança relativos à primeira semana de motim (19 a 25 de fevereiro), os dados mostram que a maioria ocorreu em Fortaleza. Na Capital, as três Áreas Integradas de Segurança (AIS) que mais apresentaram registro de homicídios são da periferia.

As áreas mais violentas compreendem bairros como Barroso, Conjunto Palmeiras e Jangurussu (AIS 3); Antônio Bezerra, Henrique Jorge e Quintino Cunha (AIS 6); e Canindezinho, José Walter e Mondubim (AIS 9).

Para o sociólogo Luiz Fábio Paiva, a maior parte desses crimes já acontece na periferia.

"Por exemplo, conflitos entre grupos armados acontecem de maneira mais ostensiva nas periferias, elas acabam sendo os locais também onde têm um incremento quando esse policiamento para de fazer ações. Esse policiamento havia sido intensificado nos últimos meses por conta de uma tentativa do governo de reduzir homicídios", lembra.