'Eu me contorcia de dor', relata vítima estuprada por pastor preso em Fortaleza
Alan Pereira foi colocado à disposição da Justiça.
Esta reportagem traz conteúdo sensível. Uma das mulheres vítimas do pastor Alan Pereira Vicente, de 37 anos, preso pela Polícia Civil do Ceará (PCCE) e investigado pela prática de crimes sexuais contra fiéis da própria igreja, relatou ao Diário do Nordeste os momentos de 'terror' vividos enquanto era estuprada.
A defesa de Alan Pereira não foi localizada pela reportagem. O espaço segue aberto para futuras manifestações.
A jovem, de identidade preservada, contou ter sido abusada sexualmente dentro da própria casa, em sessões retratadas pelo líder espiritual como um tipo de 'limpeza'. Tudo aconteceu em um momento de fragilidade da vítima, quando ela se recuperava de um parto com sequelas.
"Eu tive complicações depois da cesariana, fiquei com muitas dores. Ia normalmente à igreja porque tinha fé que Deus ia curar a minha dor. Um dia após o fim do culto o pastor Alan perguntou se eu estava bem. Eu disse que estava com muita dor e ele falou 'se cuide'. No outro dia, ele me procurou dizendo que precisava ir na minha casa, porque tinha algo espiritual para me falar".
A jovem aceitou receber o líder religioso na residência dela: "deixei portas e janelas abertas". Instantes depois, logo no início da conversa, Alan teria dito que havia uma 'bola de carne' dentro da mulher e que ele precisava "tirar aquilo dela".
"Ele falou que ele ia precisar botar a mão dentro de mim. Eu disse que aquilo era errado, mas ele usou uma passagem bíblica. Repeti que não me sentia bem com aquilo, falei que tinha traumas ainda da infância. Então ele pediu para orar por cima da minha roupa, em cima da cirurgia".
'AGORA PRECISO COLOCAR A MÃO'
Já com portas e janelas fechadas pelo suspeito, a 'oração' começou. A vítima relembra que o homem disse ter tirado um 'pedaço de agulha quebrada' de dentro dela e disse: "agora preciso colocar a mão".
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"Chegou a me mostrar uma agulha. Ele disse para eu deitar, relaxar e ficar em posição ginecológica. Enquanto isso, ele pedia para eu olhar para o pênis dele e disse que eu não precisava ter medo. Mandou eu tirar o vestido e o short que eu estava por baixo. Ele melou a mão toda com azeite e botou mão e punho dentro de mim. Eu me contorcia de dor".
Enquanto se questionava se 'aquilo era realmente necessário', a mulher era obrigada a olhar "o tempo inteiro para o pênis do pastor": "ele disse que mesmo colocando a mão não conseguiu tirar e que ia precisar fazer aquilo outras vezes".
A vítima diz ter ficado em 'estado de choque' e ainda sem "entender direito o que tinha acontecido". No dia seguinte, Alan teria pedido para ir novamente até a casa dela. Os abusos aconteciam enquanto a bebê da vítima estava dentro da mesma residência.
"Ele mandou mensagem antes perguntando se meu marido já tinha saído para trabalhar. E aí ele foi lá depois do culto. Falou tudo de novo, falou da bíblia... Mandou de novo eu tirar minha roupa e assim ele fez, foram três vezes. Na quarta vez ele foi um dia de tarde. Eu tentei esconder, fingir que não tinha ninguém em casa e ele falava lá de fora: 'eu sei que você está aí".
Ao perceber que a mulher tentava se desvencilhar dos assédios, o pastor levou um pote de sorvete para tentar convencer a vítima a "tentar de novo".
"Ele falava: 'você ainda está sentindo dor?'. Aí eu menti. Disse que estava bem e falei que aquilo estava abalando a minha fé".
Conforme a vítima, o comportamento do pastor mudou a partir de então, ficando mais agressivo.
"Do nada ele começou a falar de coisas íntimas, perguntou dos órgãos genitais de quem já foi meu companheiro e por fim perguntou de novo: 'você não quer que eu faça, né?'. Eu disse que não e ele foi embora".
A decisão em denunciar veio meses depois. A jovem diz que Alan começou a falar mal dela dentro e fora da igreja e que "ia espalhar nossos nomes (dela e do ex-marido) para a facção": "eu decidi denunciar por conta dessas difamações e porque soube que ele fez isso com mais gente".
PRISÃO
Alan Pereira Vicente foi autuado por crime sexual mediante fraude. Conforme a Polícia, "com apoio do Núcleo Operacional (NO) do Departamento de Polícia da Capital (DPC), o alvo foi capturado nessa quinta-feira (7) mediante o cumprimento de um mandado de prisão preventiva, no bairro Antônio Bezerra, na Área Integrada de Segurança Pública 18 (AIS 18) de Fortaleza".
"Em posse das informações, os agentes policiais diligenciaram ao endereço do alvo, onde cumpriram o que determinava a ordem judicial. Após a prisão, ele foi conduzido à Delegacia de Capturas (Decap) para os procedimentos legais cabíveis, onde permanece à disposição do Poder Judiciário. A PCCE ressalta que as investigações seguem em andamento, averiguando, inclusive, a possível prática de coação das vítimas por outros membros da igreja", disse a Polícia.
As autoridades confirmam a versão das 'agulhas' e das ameaças.
Segundo as investigações, "o suspeito se aproximava das vítimas, comumente do sexo feminino e que possuíam idades entre 20 e 27 anos, afirmando que elas estavam doentes e teriam de passar por uma “limpeza espiritual” para a retirada de agulhas e alfinetes que estariam dentro de seus corpos. Outros levantamentos revelam, ainda, que o homem se utilizava de uma suposta influência sobre um grupo criminoso de origem carioca para coagir as vítimas".
A advogada Elaine Araújo representa uma das vítimas e diz que "as autoridades competentes adotaram as medidas cabíveis no curso da investigação, que tramita sob sigilo judicial. Em respeito à preservação da apuração, da intimidade das vítimas e ao devido processo legal, não serão divulgados detalhes do procedimento neste momento".
A Polícia destaca que a população pode contribuir com as investigações repassando informações que auxiliem os trabalhos policiais: "as informações podem ser direcionadas para o número 181, o Disque-Denúncia da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), ou para o (85) 3101-0181, que é o número de WhatsApp, pelo qual podem ser feitas denúncias via mensagem, áudio, vídeo e fotografia ou ainda via “e-denúncia”, o site do serviço 181".