"Estava presa pelo meu marido", diz vítima de violência doméstica

A enfermeira Edna (nome fictício), de 40 anos, conviveu com o companheiro durante quase três anos. Ela conta que, desde a gravidez, passou a ser agredida. A situação piorou no início da quarentena, quando ela saiu do emprego

Aos milhões de brasileiros que, atualmente, cumprem quarentena em regime de isolamento domiciliar, ficar em casa se assemelha a uma prisão, mas a medida é necessária para evitar contrair a Covid-19. Enquanto isso, dentro da própria residência, há mulheres que, pelo fato de estarem ali, correm risco de morte por conta da violência doméstica.

"Fiquei dentro de casa por mais de um mês. Eu estava presa pelo marido. Não é que eu tinha optado por ficar ali para me proteger de nenhuma doença. Sou enfermeira e tenho um filho pequeno, que ainda mama. Precisei parar de ir ao trabalho para não arriscar ser infectada pelo novo coronavírus. Nesse momento, meu companheiro aproveitou para não me deixar mais sair de casa. Comecei a viver um cárcere privado".

A história de Edna (nome fictício), de 40 anos, traz uma realidade que desde o início da quarentena já preocupava as autoridades. O aumento dos casos de violência doméstica e uma maior dificuldade das vítimas poderem denunciar os agressores eram previstos com o decreto estadual pelo isolamento.

Nesta semana, a Defensoria Pública do Ceará divulgou levantamento do Núcleo de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher (Nudem) apontando que de 23 de março até a última quinta-feira (30), 90% dos casos de violência contra a mulher atendidos pelos defensores aconteceram dentro de casa. Antes que Edna fosse acolhida pelo Nudem, ela foi vítima de violência física e psicológica.

"Entre idas e vindas, foram três anos. Ele sempre tentou me afastar das pessoas, mas começou a ser agressivo logo quando engravidei. Separei algumas vezes, mas acaba voltando por causa do meu filho. Tinha a ilusão que um filho precisava ser criado pelo pai e fiquei me segurando em uma coisa que não tinha mais jeito. Pensava nos outros e nunca em mim", contou.

Segundo a enfermeira, a situação se agravou com a chegada da pandemia da Covid-19. "Dia 16 de março. Foi essa a última vez que saí. Decidi parar de trabalhar. Ele continuou e levava a chave de casa. Eu e meu filho ficávamos trancados, sem contato com ninguém e ele ficou mais agressivo. Assisti na TV a defensora falando sobre acolhimento de vítimas de violência doméstica. Decorei o número e quando consegui pegar um celular fiz o primeiro contato", conta a enfermeira.

O caso de Edna passou a ser acompanhado, a distância, por uma assistente social e chegou ao conhecimento das autoridades. Nos dias seguintes, com o esposo sempre por perto, ela não conseguia mais pedir ajuda. "Se ele me via falando ao telefone dizia logo que eu estava conversando com algum macho. Eu cheguei e me sentir culpada por uma coisa que eu nunca fiz. Um dia antes do feriado da Semana Santa a Polícia bateu no portão de casa. Fui abrir. Fiquei com medo de falar. A delegada pediu para eu falar a verdade e quando eu disse ele ficava dizendo que era mentira, fingiu que não sabia de nada daquilo", relata.

Amparo

O pedido de medida protetiva da enfermeira foi deferido pela Justiça e o agressor saiu de casa. Desde então, segundo Edna, o casal não se viu mais. "Todo mundo abriu meus olhos, mas ele me manipulava de todas as formas. Hoje eu sei que não era amor. A gente tenta sair da situação, mas ele mexia muito com o meu psicológico. O pior de tudo é a sociedade achando que eu e muitas outras ficamos nessa situação porque gostamos de apanhar. Graças a Deus, agora eu estou recebendo muito apoio".

A defensora pública e supervisora do Nudem, Jeritza Braga, destaca que, a partir de diversas pesquisas do Núcleo, o perfil da mulher que mais é vítima de violência doméstica é aquele na idade adulta, de 36 a 45 anos, com filhos e histórico de agressões. Para Jeritza, os números reforçam que é preciso pensar em ampliar a rede de proteção, garantindo que a vítima se sinta resguardada e com amparo social.

"Os filhos presenciam essa violência e tendem a reproduzir esse comportamento. O machismo é uma questão cultural. Não tem como diminuir a violência doméstica se não for desconstruindo essa cultura machista. Se isolar não é sinônimo de silenciar".

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