Entenda a disputa por território entre facções criminosas em cidade do Interior do Ceará

Fontes sigilosas revelaram ao Diário do Nordeste que a cidade de Tauá, anteriormente disputada pelo PCC e pela GDE, agora é palco de um novo conflito.

Escrito por
Geovana Almeida* geovana.almeida@svm.com.br
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Legenda: Criminosos do PCC se articulavam em Tauá através de um grupo de mensagens chamado "Futebol de Sexta-Feira".
Foto: Reprodução.

Ameaças de morte, listas expondo nomes de inimigos e várias prisões têm marcado uma guerra de facções no município de Tauá, na região do Sertão dos Inhamuns. Nos últimos meses, esse território foi palco de diversas disputas violentas envolvendo três facções criminosas diferentes, de origem paulista, carioca e cearense.

Duas operações policiais distintas estão acontecendo na cidade de Tauá, na tentativa de cessar a atuação dos grupos envolvidos na disputa atual: Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV).

Alguns meses antes do início do conflito entre as duas facções, a localidade era conhecida pela disputa territorial que acontecia entre o PCC e a facção cearense Guardiões do Estado (GDE). 

Entretanto, um comunicado de "ultimato" feito pelo PCC é apontado pelas autoridades como o ponto de "virada no domínio faccionado da região". 

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Legenda: As mensagens foram utilizadas na investigação como provas centrais da articulção da organização criminosa na cidade.
Foto: Reprodução.

A reportagem teve acesso ao documento sigiloso que expôs o "comunicado oficial" da organização criminosa, contendo ameaças de morte, condições de expulsão e promessas para os que desejassem integrar a facção "de coração". Em um dos parágrafos, o PCC afirma: "A única solução é vir com nós ou vai morrer todos" [sic]. 

(Veja imagens do comunicado completo abaixo)

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O "COMUNICADO OFICIAL" do PCC

"Vocês têm 24 horas para rasgar a camisa da GDE", essa é uma das primeiras frases do comunicado que, segundo a investigação da Polícia Civil, teria marcado a chegada do Primeiro Comando da Capital (PCC) no município. A cidade anteriormente era ocupada quase integralmente pela organização criminosa Guardiões do Estado (GDE). 

Para os que não "rasgassem a camisa" da GDE, expressão que significa renunciar formalmente a uma facção, existiam apenas duas opções: sair da cidade imediatamente e nunca mais ter "paz" ou "morrer na bala". 

Ainda segundo o comunicado, apenas dois integrantes da Guardiões não teriam o poder de escolha: José Wilson de Sousa Carvalho, conhecido como 'Capetinha' e Moisés Moreira e Souza, o 'Zezinho', que iriam ser "caçados como ratos em bueiros".

Além das ameaças, o comunicado trazia promessas para aqueles que "de coração" aderissem ao PCC, dentre elas estavam a possibilidade de não pagar mais caixinha (tipo de mensalidade paga pelos criminosos), além de não ser mais "punido" ou "extorquido". 

Os criminosos fizeram também uma lista com nomes de 13 mulheres e 14 homens que integravam a facção Guardiões do Estado. Essas pessoas teriam 24 horas para gravar vídeos comprovando que estariam saindo da GDE. 

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Legenda: O comunicado foi compartilhado pela primeira vez em abril de 2025.
Foto: Reprodução.

Operação Embrião: a resposta ao "nascimento" do PCC em Tauá

Esse comunicado só foi descoberto pelas autoridades por meio do aparelho celular de Oziel Marques da Silva, conhecido como 'Zina' ou 'MTZ' - apontado como liderança local do PCC.

O jovem de apenas 19 anos foi capturado e teve o celular apreendido em uma ação policial. O homem confessou ser integrante do PCC e encontra-se recolhido na Unidade Prisional de Caucaia.

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Legenda: A defesa de Oziel Marques da Silva, o 'Zina' não foi localizada pela reportagem.
Foto: Reprodução.

Uma análise feita no celular de 'Zina' revelou que a célula do PCC em Tauá se organizava por meio do grupo "Futebol de Sexta-Feira", composto por 34 integrantes que atuavam criminalmente na região e teriam feito o "comunicado oficial". 

A descoberta do grupo, que esteve ativo entre março e abril de 2025, deu início a uma operação que resultou em cerca de 15 prisões. Alguns dos integrantes já tinham antecedentes criminais e eram "conhecidos" pelos policiais da região.

Além das prisões, 23 mandados de busca e apreensão foram cumpridos em endereços espalhados entre Tauá, Itapipoca, Camocim e até em Ubatuba e Franca, no estado de São Paulo.

Os números de telefone celular identificados no grupo eram vinculados a usuários que, em sua maioria, utilizavam alcunhas típicas de integrantes de facções criminosas, como “Padrinho”, “Pai”, “Zero Sete”, “Ligeirinho”, “Bigode”, entre outros.
Relatório da Polícia Civil do Estado do Ceará (PCCE)

Parte das mensagens do grupo eram apagadas logo após o envio, fato que representa um "comportamento consciente de ocultação de prova", aponta o relatório da PCCE. Dentre as conversas mais relevantes recuperadas pelas autoridades estavam as seguintes:

  • “Boa madrugada aí pra nós guerreiro” - referência ao "plantão" de trabalho no tráfico de drogas
  • "Manda a nove" - referência a uma arma 9 milímetros
  • "Meireles Ricardo tá doido aqui atividade meus irmãos" - indicando alerta em tempo real da presença policial, sendo compatível com o contexto de apoio logístico ou "olheiro"
  • "P**** de guardiões aqui é PCC 1533" - símbolo numérico alusivo à organização.

Novo conflito surgiu após a operação

Assim como o que aconteceu com a GDE, as prisões dos membros do PCC enfraqueceram o grupo, abrindo espaço para mais um inimigo que lutaria pelo território: o Comando Vermelho (CV). 

"Atualmente, a região está dividida entre duas organizações criminosas, do Rio de Janeiro e de São Paulo", afirmou uma fonte da Secretaria da Segurança Pública ouvida pela reportagem.

Em fevereiro de 2026, a PCCE deu início a primeira fase da "Operação Rubron", nome que vem da tonalidade rubro (vermelho). Como resultado dessa investigação, as autoridades realizaram em Tauá duas capturas de suspeitos e duas buscas e apreensões contra membros do CV. 

Assim como a "Operação Embrião", a "Operação Rubron" segue em curso na cidade de Tauá. Os detalhes seguem em sigilo. 

*Estagiária supervisionada pelo jornalista Emerson Rodrigues. 

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