Como a PF impediu 'mulas' de levarem mais de 600 cápsulas de cocaína no corpo de Fortaleza a Paris

Aos transportadores das drogas eram prometidos recompensas de R$ 5 mil a R$ 20 mil caso o esquema fosse completado.

Escrito por
Matheus Facundo matheus.facundo@svm.com.br
Várias cápsulas de cocaína que foram apreendidas com passageiros que tentavam embarcar de Fortaleza para Paris. Ao lado, há um distintivo da Polícia Federal.
Legenda: Cápsulas foram ingeridas e colocadas nas genitálias de participantes do esquema internacional.
Foto: Divulgação/PF.

Um grupo de seis pessoas preso pela Polícia Federal (PF) em maio de 2024 no Aeroporto de Fortaleza ao tentar embarcar em um voo para Paris com centenas de cápsulas de cocaína dentro do corpo e escondidas nas genitálias aguarda julgamento na Justiça Federal do Ceará. O processo tem enfrentado impasses devido à complexidade e diversidade dos réus, que possuem estados processuais diferentes. 

No papel de "mulas" do tráfico internacional de drogas, os acusados foram recrutados para participar de uma logística que exigiu preparação física intensa, com ingestão de remédios para facilitar a ocultação da droga no corpo. Eram prometidas a eles recompensas de R$ 5 mil a R$ 20 mil quando o esquema fosse completado. Todos confessaram o crime, e afirmaram que foram aliciados e até ameaçados caso desistissem.

Segundo documentos obtidos pelo Diário do Nordeste, nessa última quarta-feira (8), o Juízo da 11ª Vara Federal do Ceará marcou pela segunda vez o início das audiências de instrução para o dia 11 de junho.

Uma primeira audiência chegou a ser marcada para 5 de agosto do ano passado, mas ela não aconteceu devido à situação dos réus. Alguns estavam presos em diferentes estados, outros não respondiam às citações e outro estava foragido à época — e permanece. 

Quem são réus e qual a situação atual deles?

  • Victtor Nobrega Ramos: natural de Macaé (RJ), foragido, com solicitação de inclusão do nome Difusão Vermelha da Interpol. 
  • Mathews Marciel dos Santos Alves: natural de Guarulhos (SP), preso no Centro de Detenção Provisória IV (CDP IV) Pinheiros, em São Paulo (SP), pois violou diversas vezes os termos da liberdade provisória. 
  • Breno Carvalho de Oliveira: natural de Guarai (TO), preso na Unidade Prisional de Araguaína/TO, supostamente por outro processo criminal. 
  • Jennifer Annette Seabra: natural de Belém (PA), presa em Santa Catarina após descumprir medidas cautelares. 
  • Leticia Santos Silveira: natural de São Roque (SP), solta após ganhar liberdade provisória com cumprimento de medidas cautelares, como entrega do passaporte.
  • Ana Gabrielly Elias de Souza: natural de Peruíbe (SP), em liberdade provisória com medidas cautelares. 

O Diário do Nordeste solicitou notas de esclarecimento às defesas das rés Jennifer Annette Seabre e Letícia Santos Silveira, mas não recebeu retorno até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto,

Os advogados outros réus não foram localizados. 

Veja também

Como a Polícia Federal desconfiou do esquema 

A denúncia oferecida pelo Ministério Público Federal (MPF) detalha que o tráfico foi frustrado por volta das 17h do dia 8 de maio de 2024, quando os seis acusados se preparavam para embarcar à França e apresentaram nervosismo. Os agentes da PF informaram que o grupo deu respostas desconexas para perguntas simples. 

Com a primeira desconfiança, foi efetuada uma busca nas bagagens e os então suspeitos foram submetidos ao procedimento do body scan — equipamento que utiliza raio-X para realizar revistas corporais —, momento em que as cápsulas de droga foram encontradas.  

"Segundo os agentes da Polícia Federal, os seis flagranteados, ao serem entrevistados, deram respostas completamente desconexas para perguntas básicas dos policiais (o que iriam fazer no destino, onde se hospedariam, se tinham dinheiro para se manter, etc). Diante da situação, foi efetuada a busca nas bagagens e os investigados foram submetidos ao procedimento de raio-X, onde foi atestado que todos transportavam cápsulas de droga dentro do corpo", apontou denúncia do MPF. 

Uma das carregadoras de entorpecentes, Anna Gabrielly, retirou algumas capsulas do seu corpo ainda no banheiro do aeroporto, pois havia uma quantidade em um saco plástico introduzido em seu órgão genital. Durante os interrogatório, ela afirmou que foi obrigada a colocar parte da droga em sua genitália por não ter conseguido engolir toda a quantidade programada. 

No dia do flagrante, foram apreendidos passaportes, seis celulares e diversas cédulas de euros, entre notas de 10 a 100 euros.

Todos os seis presos em flagrante foram encaminhados ao Instituto Doutor José Frota (IJF), sob escolta, para que as cápsulas fossem expelidas, pois se tratava de um caso de emergência médica. 

Após os procedimentos, foi constatado pela perícia que Victtor expeliu 125 cápsulas, Matthews, 117, Letícia, 108, Breno, 102, Jennifer, 91 e Ana Gabrielly, 74. Em todas as amostras foi verificado que a substância era cocaína.  

Recrutamento para a rota do tráfico 

O MPF explica que os recrutadores do tráfico geralmente escolhem pessoas em situação de vulnerabilidade financeira para atuarem como transportadores dos ilícitos. Eles eram obrigados a tomar medicamentos para facilitar a ingestão da droga e também para inibir as funções intestinais durante o voo.

O perfil era de pessoas jovens que precisavam de dinheiro e às vezes tinham amigos com contatos de participantes do esquema. Isso pode ser percebido no interrogatório de Mathews Marciel, que nem pelo próprio passaporte pagou. Ele teria sido aliciado por uma pessoa identificada apenas como "Nigeriano".

O homem relatou ter sido prometida a ele uma quantia de R$ 10 mil caso concluísse a rota internacional com as drogas no organismo. Ele contou ainda aos policiais federais que recebeu 1.000 euros para a viagem, mas só estava autorizado a gastar 500. 

A orientação, caso conseguisse chegar a Paris, era dirigir-se a um hotel para ficar quatro dias expelindo a droga. Ao final, uma pessoa entraria em contato para que a entrega da droga fosse realizada na porta da estadia. 

Victtor Nobrega, que é considerado foragido e está na lista de procurados da Interpol, relatou que foi procurado para o trabalho ilegal por meio do Instagram em março de 2024, com a promessa de R$ 15 mil. Em depoimento, ele relatou que foi levado a uma casa onde estavam três nigerianos que mandaram para ele as cápsulas de cocaína, um dia antes da viagem à Fortaleza. 

O acusado relata que teve dúvidas entre o período após ocultar a droga em seu corpo e a saída de São Paulo para Fortaleza para pegar o voo com destino a Paris. Entretanto, ele e sua família teriam sido ameaçados por um recrutador. 

Este conteúdo é útil para você?
Assuntos Relacionados