Ameaças, incêndio, tiros e sabotagens: como o CV e provedores aliados impõem regras no Ceará

A facção criminosa tem tentado exercer controle sobre provedores de internet no Estado por meio de ataques e intimidações.

Escrito por
Matheus Facundo matheus.facundo@svm.com.br

Uma investigação da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), especializada da Polícia Civil do Ceará (PCCE), revelou como funciona o esquema de incêndio, ameaças e coação de técnicos de internet e donos de provedoras de internet em bairros de Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza. Desde o ano passado foi monitorada a situação na região do bairro São Miguel/Parque das Nações, e nos últimos meses a ação se intensificou, com equipamentos danificados e trabalhadores expulsos da região. 

Durante as diligências, trabalhadores do ramo informaram aos agentes de segurança que somente as empresas FramNet, pertencente à família do empresário preso por se aliar ao CV na tentativa de controle de provedoras, nessa segunda-feira (20), e a CVNET (provedor do Comando Vermelho) poderiam funcionar nos bairros vizinhos à instituição de ensino. 

Um vídeo obtido pela reportagem mostra um homem mandando técnicos de internet deixarem a região (veja no destaque acima). 

Ele chega a falar que os moradores "já sabem como funciona" e manda um dos trabalhadores falar que a instalação não deu certo. O homem também fala sobre os funcionários "já terem entendido que é pra ir embora". Ele cita ainda que há pessoas "teimosas" que insistem em outros provedores

Em áudio, um colaborador de uma empresa informa a um cliente que não vai ser possível consertar a internet dele, pois eles foram forçados a deixar de atuar na região. 

Foi informado que alguns provedores teriam que ser expulsos da região. Por questão mesmo de segurança, a gente não tem como mandar a equipe para poder realizar o reparo. É lamentável a gente ter que dizer isso, mas infelizmente a gente não tem como mandar a equipe. Por questão de segurança, a gente tomou essa decisão de não atuar mais nessa região também.
Colaborador de empresa
Em áudio

Registros fotográficos mostram que as caixas de terminação óptica de todos os provedores eram sabotadas, inclusive por disparos de arma de fogo, menos as das provedoras "autorizadas" pela organização criminosa. 

O Diário do Nordeste solicitou uma nota de esclarecimento à defesa de Francisco Ítalo, mas não recebeu retorno até a publicação desta matéria. 

O homem de 37 anos foi preso ao desembarcar de São Paulo no Aeroporto de Fortaleza. Informações da PCCE apontavam que ele estava de viagem a São Paulo, e os agentes se prepararam para prendê-lo no desembarque. 

Ataques coordenados por líderes do CV 

As diligências da Draco concluíram que os ataques e danos aos empreendimentos são coordenados por lideranças do CV, que visam espalhar a influência da organização no Ceará, assim como ocorre no Rio de Janeiro. É apontado que um homem identificado como Domingos Costa Miranda, o Penetra, estaria por trás da operação ilegal. 

Outro nome apontado por testemunhas sigilosas é o de Francisco Eduardo Silva Abati, indicado como articulador das ações de intimidação a empresas concorrentes. Ele seria técnico da FramNet e atuaria junto a faccionados para danificar cabos e caixas de rede. 

Fotos de equipamentos de internet danificados pelo CV em Caucaia.
Legenda: Equipamentos de empresas que não aceitavam as regras do CV eram danificados pelos criminosos.
Foto: Reprodução.

A investigação "ainda se identificou a participação de técnico usando identificação da FRAMNET em ações diretas de danos e intimidação, como as conexões existentes entre os demais envolvidos e a atuação das empresas citadas".

Identificou-se procedência das denúncias, de modo que a Organização Criminosa Comando Vermelho busca estabelecer o monopólio forçado do serviço essencial de provedor de internet e se indicou a participação da empresa FRAMNET nos casos apurados, envolvendo coação, dano ao patrimônio, restrição à livre concorrência e possível vínculo com organização criminosa
Draco
Polícia Civil

Veja também

Monopólio forçado 

A investigação policial apontou que bairros de Caucaia são afetados pela tentativa de monopólio clandestino dos serviços de internet. Prestadores legítimos têm sido impedidos de exercerem seus trabalhos, a não ser que aceitem ser extorquidos. 

O prejuízo para os clientes, além da insegurança social, seria a qualidade da internet. Muitos eram cobrados R$ 100 por uma rede considerada de baixa qualidade. 

O empresário preso, segundo a PCCE, financiava o crime organizado por meio de pagamentos milionários ao CV. Em interrogatório após a captura, ele negou estar aliado ao grupo criminoso e disse que é vítima de extorsão. O pai dele também foi conduzido à delegacia e corroborou as falas do filho. 

Ele alegou pagar valores, que segundo ele eram da ordem de R$ 10 mil, apenas por meio de coação, para proteger sua família. As autoridades policiais, entretanto, afirmam que há evidências que apontam o empreendimento dele, a FramNeT, como cúmplice. 

 

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