Alta cúpula do PCC sabia do furto ao Banco Central, diz especialista

O pesquisador Bruno Paes Manso, autor de livro sobre a facção, aponta relação de Alejandro, irmão de 'Marcola', com o Ceará e afirma que liderança deve ter unido homens em torno do crime histórico

Legenda: Criminosos saíram de empresa de grama para caixa-forte do Banco Central, através de túnel de 80 metros
Foto: José Leomar

Afinal, quem comandou o furto ao Banco Central em Fortaleza, em 2005? Para a Polícia Federal (PF), a liderança se dividia entre quatro homens, inclusive o cearense Antônio Jussivan Alves dos Santos, o 'Alemão'. Mas nenhum deles era conhecido como uma alta liderança do Primeiro Comando da Capital (PCC). Para o jornalista, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência (NEV), da Universidade de São Paulo (USP), e autor do livro "A Guerra: A ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil", Bruno Paes Manso, a alta cúpula da facção tinha conhecimento do crime que entraria para a história e uma liderança superior - que não foi indiciada, acusada nem condenada - reuniu os homens que furtaram R$ 164 milhões.

O que o furto ao BC representa para o PCC?

Acima de tudo, é uma fotografia que mostra a capacidade de articulação de diversas pontas do crime, em um empreendimento muito ousado, que demandava muito planejamento e segredo. Era importante que as informações não caíssem na boca de policiais. Essa capacidade de articular um empreendimento que durou dois a três meses para ser finalizado mostra um profissionalismo, que a gente não conhecia. O 'Marcola' (Marcos William Herbas Camacho, líder máximo do PCC) já tinha feito alguns casos, mas de médio porte, em São Paulo.

Quem eram os homens que participaram do furto ao Banco Central, pessoas já conhecidas do PCC pela mídia e pela polícia paulista ou surgiram caras novas?

Isso é uma coisa que faz parte do DNA do PCC. Ao mesmo tempo em que existe uma burocracia de os sintonias gerais e de uma certa hierarquia presente para gerir a facção, em diversos estados e presídios, a horizontabilidade é muito importante. A capacidade de formar uma rede horizontal, independentemente do nome da pessoa envolvida. É a capacidade de você ter um financiador para o empreendimento, pessoas que conhecem engenheiros capazes de ter o conhecimento e tecnologia para fazer um túnel naqueles moldes, que já vinha de um conhecimento adquirido das fugas do Carandiru e dos presídios nos anos 90. Você ter pessoas responsáveis pela parte elétrica e, ao mesmo tempo, pessoas com uma história no crime, que permitam ter confiança que nada vai acontecer e que essas pessoas não vão contar aos policiais. O irmão do 'Marcola' (Alejandro Juvenal Herbas Camacho Júnior) é uma pessoa importante que participa do assalto, um nome que surge? Sim. Mas tem outras pessoas. É justamente um gestor da atividade criminal, que tem uma capacidade de arregimentar uma rede de pessoas que vão trabalhar com ele. São caras novas, mas, mais do que nomes, é o modelo de negócio que interessa.

Conversamos com o delegado que presidiu o inquérito desse furto. Eu perguntei a ele sobre a participação de 'Marcola', Alejandro. Ele nos disse que, durante a investigação, não foram citados esses nomes. Você acredita que um crime dessa envergadura foi conduzido sem a sintonia final do PCC saber?

Eu acho que saber, provavelmente, eles sabiam. E, muito provavelmente, existe um investimento de capital que passa pela decisão de hierarquias superiores, que é responsável justamente por arregimentar pessoas importantes para ajudarem nesse tipo de empreendimento. Mas eu não duvido que eles não tenham participação direta e não estejam participando do dia a dia. Eu lembro que, na época, houve a suspeita que ele (Alejandro) teria fugido para o Ceará, logo depois de um assalto bem importante que ele tinha feito com o 'Marcola', entre 1998, em que roubaram R$ 15 milhões. Foi um roubo super planejado, levou um mês, sequestraram a família dos seguranças da empresa. Um roubo que não teve nenhuma troca de tiros e levou toda a grana. Ele foi preso por causa disso, fugiu e, depois dessa fuga, dizem que ele teria ido para o Ceará. Inclusive teve, recentemente, uma matéria em que identificaram que vários integrantes do PCC fizeram documentos falsos, em 2004, 2005, para viver como outras pessoas, em outros lugares, foragidos. Quando o 'Marcolinha' (Alejandro) foi preso, em 2006, estava com uma placa de Fortaleza no carro dele. Mas isso não está bem documentado, são suspeitas, mas ajudam entender essa capacidade de articulação. Essa capacidade de gestão de um crime como esse me parece que, de fato, tem uma inteligência, capacidade de planejamento e experiência que não surgem do nada. Você tem esses grupos que estão dividindo tarefas. O 'Fê' (Luís Fernando Ribeiro) que vai dar o dinheiro. O 'Alemão' vai conseguir alguma coisa. O outro, que vai conseguir uma outra parte. Mas tem alguém que une a todos. Tem algo que represente ou que permita que esses três grupos trabalhem unidos, sem entrar em conflito entre eles, que parece que transcende o negócio. O PCC tem esse lado. Pode ser que essa informação não tenha vindo a tona, por não querer denunciar. É difícil saber.

Após o furto ao Banco Central, outros furtos semelhantes começaram a acontecer. Tinha túnel sendo escavado em Porto Alegre, em Maceió e no Paraguai. O furto ao BC fez com que eles partissem para ações cada vez mais ousadas?

Isso é uma coisa que eu ouvi em entrevistas nos anos 90, 2000, e nunca mais esqueci. Um criminoso disse que o criminoso funcionava mais ou menos como um feirante. Dependendo da fruta da época, você trabalha. Eles buscam oportunidades que deem mais dinheiro e tragam menos problemas. O furto tinha o benefício de ser tipificado como furto, a pena seria menor. Além de que você tinha a possibilidade ganhar muito dinheiro. E deu certo. Isso inspira outros empreendimentos. Mas também, isso parou.

Financeiramente, o furto ao Banco Central representou muito para o PCC? Esse dinheiro chegou à facção e ajudou em ações criminosas nos próximos anos?

Não. O PCC, apesar de ter uma estrutura que demanda um custo operacional (em São Paulo são 10 mil membros, no Brasil são 30 mil), que tem uma série de atividades e uma certa responsabilidade com a burocracia, o grosso das pessoas que trabalham no PCC, o próprio 'Fê' e outros que participaram do furto a esse banco, eles fazem esses negócios para ganharem dinheiro para eles mesmos e pagam uma parte para o PCC. O PCC tem essa visão liberal, diferente de outros modelos de negócios criminais - talvez essa seja a grande inteligência e o motivo da durabilidade do PCC. Ele é uma grande agência reguladora do mercado criminal. São várias pessoas que participam dessa rede. Alguns são filiados, 'irmãos', outros não são. Mas eles fazem o crime não para que o PCC lucre com tudo. Cada um tem seus negócios individuais. Eles pagam uma mensalidade para o PCC, até muitas vezes por aluguel de armas. Óbvio que tem pessoas, como o 'Gegê' (Rogério Jeremias de Simone). O que dizem é que ele usou o nome do Partido (PCC) para ganhar dinheiro para ele mesmo. Então ele 'confundiu as bolas' e foi decretado. No livro, a gente fala isso: tem o PCC 'pessoa jurídica'. São negócios para financiar o PCC, o caixa, advogados, os transportes, as cestas básicas, atendimento médico, uma série de benefícios, compra de armas. Mas a absoluta maioria dos casos são negócios individuais, do PCC 'pessoa físicas'.

Na década de 90, o 'Marcola' estava aqui. Teve o furto ao Banco Central. O Alejandro já estava aqui nos anos 2000 e depois voltou nos anos 2010. E depois, veio o 'Gegê do Mangue' e o 'Paca' (Fabiano Alves de Souza). O Ceará é um dos pontos prediletos para o PCC? E por quê?

Tem a questão do porto, que sempre é mencionada, mas a gente precisaria olhar para trás e ver como essa rede foi formada no Ceará. O Júnior (Alejandro) se casou por aí e tinha uma relação social com outras pessoas, outros criminosos. Pode ter alguém que era muito próximo a eles em São Paulo que era do Ceará, que ajudou o grupo a se sentir seguro em Fortaleza. Às vezes, a explicação é muito mais relacionada ao acaso do que as condições estruturais que contribuem. O que me parece é que eles se sentiam mais seguros, em casa, impunes, com capacidade de circular na cidade. Têm uma carteira de identidade falsa e se passam por empresários em Fortaleza, têm uma vida social, levam uma vida muito boa.

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