Agente penitenciário levaria armas e daria apoio a fuga de presos

CGD e SAP descobriram que o servidor realizava negociações com uma facção criminosa, que já teriam resultado na entrada de celulares no presídio. Policial penal alegou que o dinheiro era para apostas em jogos de futebol

Legenda: O agente penitenciário não vai ao presídio há três meses, por estar no grupo de risco da Covid-19
Foto: NATINHO RODRIGUES

Um agente penitenciário foi contratado por uma facção criminosa local para levar celulares e armas de fogo para dentro de um presídio na Região Metropolitana (RMF) e para dar apoio a uma fuga de detentos. Mas o esquema criminoso foi descoberto pela Controladoria Geral de Disciplina dos Órgãos de Segurança Pública e Sistema Penitenciário do Ceará (CGD) e pela Secretaria da Administração Penitenciária do Ceará (SAP) antes dos presos receberem as armas.

A Delegacia de Assuntos Internos (DAI), da CGD, cumpriu um mandado de busca e apreensão - expedido pela Justiça Estadual - contra o servidor Milton Oliveira Martins Neto, em uma residência no Município de Itapajé, na última terça-feira (9), para colher documentos e mídias que colaborem com a investigação.

Milton Neto terminou preso em flagrante por não estar na posse da arma funcional. A pistola calibre 380 estava com um comerciante da região, que apresentou a arma à Polícia Civil minutos depois. O agente penitenciário pagou fiança de R$ 1,5 mil e foi solto, para responder em liberdade pela prática criminosa de emprestar arma de fogo de uso permitido, além da suspeita de corrupção passiva.

Ao ser interrogado na DAI, o policial penal confessou que começou a fazer os "corres" (trabalhos ilegais) no Instituto Penal Professor Olavo Oliveira (IPPOO) II, em Itaitinga, em janeiro deste ano, para sustentar o vício em apostas de jogos de futebol. Ele recebia R$ 2 mil por cada celular que levava para dentro do cárcere.

O pagamento chegou a ser feito através de transferência bancária para a conta da namorada de Milton, mas depois o dinheiro passou a ser entregue em espécie, por esposas de detentos, em um shopping localizado no bairro Papicu, em Fortaleza. O agente penitenciário afirmou que realizou três negociações, sendo que uma delas rendeu R$ 16 mil (equivalente ao valor da entrega de oito celulares). Os contatos do servidor eram duas lideranças da facção.

Plano frustrado

O envio de celulares evoluiu para um plano criminoso ousado de entrega de armas de fogo aos detentos, para a utilização em uma fuga, na qual o próprio Milton Neto seria feito refém. O policial penal recebeu R$ 25 mil em espécie adiantados, em mais um encontro no shopping. Segundo ele, o dinheiro já foi todo gasto com apostas.

Milton afirmou à DAI que não chegou a receber as armas que seriam entregues aos detentos, porque a facção estava com dificuldade de conseguir o armamento. Além disso, desde o início da pandemia do novo coronavírus (há três meses), o agente penitenciário está afastado do trabalho por um atestado médico, por se incluir nos grupos de risco da Covid-19. A reportagem apurou que, se o plano de fuga fosse colocado em prática, ele receberia um total de R$ 150 mil da facção.

A CGD confirmou que investiga o policial penal pelos crimes de corrupção, facilitação de entrada de arma de fogo e celulares, além de facilitação de fugas no sistema penitenciário. "Por ser uma investigação de caráter sigiloso, o órgão não pode fornecer mais informações sobre os fatos".

Já a Secretaria da Administração Penitenciária afirmou que "respeita o trabalho da Controladoria Geral de Disciplina dos Órgãos de Segurança Pública e Sistema Penitenciário e reafirma seu compromisso e apoio para que o sistema prisional do Ceará seja o espelho de um trabalho ético, profissional e integrado". A defesa do investigado não foi localizada pela reportagem até o fechamento dessa matéria .

Você tem interesse em receber mais conteúdo de segurança?