Uso de cabines para desinfectar pessoas causa controvérsia no Interior

Câmaras foram instaladas em pelo menos nove municípios para fazer a “desinfecção” de moradores em pontos de maior fluxo. Mas a Anvisa alerta que não há eficácia comprovada no método, além de poder causar danos à saúde

Em Coreaú, a cabine de desinfecção foi implantada no fim de abril no centro da cidade
Foto: Maristela Glaucia

[Atualização às 16:48, de 18/06/2020] O Sistema Verdes Mares noticiou anteriormente que o farmacêutico Alefe Albuquerque era o responsável pela instalação das cabines de desinfecção nas cidades de Granja, Coreaú, Maranguape e Graça. A informação correta é que a responsável pela instação dos túneis é a empresa ‘Global Protecs'. O gestor da empresa, Milton Alves, confirma a informação. Alefe diz ter ficado responsável apenas “a nível de saúde”, ou seja, pela idealização do produto químico a ser utilizado nas cabines. 

Como medida de prevenção à Covid-19, pelo menos nove municípios cearenses adotaram a instalação de túneis, câmaras ou cabines para desinfecção de pessoas. São os casos de Barro, Boa Viagem, Camocim, Coreaú, Graça, Granja, Limoeiro do Norte, Maranguape e Orós. A iniciativa preocupa pelo uso de saneantes que podem causar danos à saúde. Além disso, a eficácia do procedimento não é comprovada.

O uso de produtos pode incluir hipoclorito de sódio, dióxido de cloro, ozônio, iodo, dentre outros. Porém, eles são aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) apenas na aplicação em objetos e superfícies, não diretamente em pessoas. Também não há recomendações nas instituições internacionais de saúde sobre a “desinfecção de pessoas”.

Os primeiros túneis instalados no Ceará foram em Coreaú. Duas unidades estão no Centro, nas vias que dão acesso aos bancos, casas lotéricas e supermercados, e a outra foi projetada próximo aos hospitais da cidade. Em Limoeiro do Norte, na região do Jaguaribe, foram instalados três túneis.

Também foram colocados três túneis em Maranguape, que utilizam uma mistura de água e sabonete à base de glicerina. Segundo a Prefeitura, não irrita ou agride a pele e não mancha as roupas. Com o mesmo produto foram instalados túneis em Graça e Granja. Em Barro, o mesmo número está funcionando, mas não foi detalhado qual o produto químico está sendo utilizado. Os equipamentos de Orós estão no Hospital Luzia Teodoro e na Secretaria Municipal de Saúde. 

O farmacêutico Alefe Albuquerque explica que a fórmula balanceada utilizada na cabine ataca a parte externa do vírus, quebrando em partículas menores e, em contato com a água que é borrifada, essas partículas são despejadas do corpo da pessoa. 

O médico sanitarista e pesquisador da Fiocruz, Odorico Andrade, defende a ideia de que a instalação de cabines de desinfecção só deve ser feita como ação complementar. “Não deve ser única solução, mas pode ser usada como medida complementar de prevenção à Covid-19”, argumentou.

Alerta

Preocupada com a utilização destes produtos em estruturas como, câmaras, cabines e túneis, no último dia 13 de maio, a Anvisa divulgou nota técnica (Nº 51/2020) alertando sobre a falta de eficácia e segurança deste tipo de procedimento. Tecnicamente, numa duração de até 30 segundos, o procedimento não seria suficiente para garantir uma desinfecção. 

O coordenador de Saneantes da Anvisa, Webert Gonçalves, ressalta que a nota tem cunho orientador, mas que não há resultado comprovado em nenhum lugar. “Mas o mais importante é que podem causar pequenas irritações na pele, nos olhos, já inalando pode ter intoxicação respiratória”, alertou. “A forma mais eficaz (de combate à Covid-19) é lavar as mãos e, se for para a rua, levar álcool em gel”.

Outro problema da utilização dessas estruturas é a falsa sensação de segurança, que pode causar um relaxamento nas práticas de distanciamento social, higiene das mãos e desinfecção de superfícies. “É um erro ter este entendimento. Utilizar a máscara é importante. Lavar as mãos. São soluções mais simples e eficazes”, acredita o representante da Anvisa. 

Retiradas

O Ministério Público do Ceará (MPCE) recomendou, na última sexta-feira (12), a retirada, das sete cabines para desinfecção instaladas em Boa Viagem. O instrumento extrajudicial é baseado na nota da Anvisa. A Prefeitura informou que a Procuradoria Geral do Município analisa a recomendação.

Em Graça, a Promotoria de Justiça também recomendou, ontem (16), a retirada em até 24 horas das cabines de desinfecção diante da ausência de evidências científicas. Também foi recomendada a anulação do contrato celebrado para sua instalação. Situação semelhante a Limoeiro do Norte, onde a promotoria, neste mesmo dia, recomendou a retirada em até 72 horas dos equipamentos sob a mesma justificativa.

As promotorias de Justiça de Barro e Granja informaram que não há procedimento sobre a retirada das cabines, contudo, estão analisando a questão e ressaltaram que podem ser enviadas denúncias por e-mail. Já a promotoria de Orós pediu ao Município, ontem (16), informações sobre funcionamento e os produtos utilizados nas cabines de desinfecção. A Prefeitura tem até 48 horas para responder.

Nossa equipe de reportagem também tentou contato com todos os municípios citados, mas, além de Boa Viagem, tivemos retorno apenas de Orós. Lá, cada cabine custou R$ 4,5 mil, equipada com motor, sensor e reservatório de até mil litros.

O presidente da Associação dos Municípios do Estado do Ceará (Aprece), Nilson Diniz, entende que, após nota da Anvisa, as gestões municipais devem evitar aquisição de novas cabines. “Se já existe uma orientação técnica, científica, é preciso obedecer”, frisou.