Romeiros e devotos de Padre Cícero adaptam celebrações após um ano de pandemia

Sem as romarias presenciais, transmissões virtuais foram alternativas encontradas para as celebrações

Escrito por Antonio Rodrigues , antonio.rodrigues@svm.com.br
Estátua de Padre Cícero - Horto. Romeiros chegaram a visitar Juazeiro do Norte durante a pandemia
Legenda: Romeiros chegaram a visitar Juazeiro do Norte durante a pandemia
Foto: Antonio Rodrigues

Há um ano, eram interrompidas, pela primeira vez na história, as celebrações presenciais em homenagem ao nascimento do Padre Cícero. Na época, havia muitas incertezas com relação à pandemia da Covid-19 e ainda se debatia, por exemplo, a continuidade da tradicional missa que acontece todo dia 20 de cada vez e que reúne milhares de fiéis no largo da Capela do Perpétuo Socorro. Juazeiro do Norte, até então, registrava dois casos suspeitos da doença.  

Nesta quarta-feira (24), dia em que completam 177 anos do nascimento do sacerdote, a própria forma de celebrar dos fiéis mudou. Durante este ciclo, todas as romarias tiveram que ser adaptadas ao formato virtual, com as missas transmitidas pela TV Web Mãe das Dores, importante canal para manter o vínculo com o devoto do “padrinho”.

Quando houve uma flexibilização, em setembro do ano passado, com a reabertura das igrejas e pontos turísticos como o Horto, visitantes retornaram à cidade que se acostumou a ver sua população dobrar ou triplicar durante os eventos religiosos.  

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Juazeiro já enfrentou duas epidemias

Desde que se emancipou de Crato, Juazeiro do Norte enfrentou duas grandes epidemias. A da gripe espanhola, em 1918; e da chamada gripe asiática, manifestada pelo vírus H2N2, em 1958. Porém, nenhuma delas afetou as romarias.

A primeira atingiu a cidade em outubro, que no tradicional ciclo de romarias só afetaria a Romaria de Finados, em novembro, mas que só surgiu após a morte do Padre Cícero em 1934.

“A gripe asiática também teve uma fase complicada, mas as romarias não foram proibidas”, lembra o pesquisador Renato Casimiro.

Com a primeira interrupção em sua história, os costumes foram afetados. “Houve uma mudança radical. Não só dos sacramentos, mas dos encontros pastorais. Tivemos que nos adaptar aos meios de comunicação para chegar aos nossos fiéis”, detalha o bispo da Diocese de Crato, Dom Gilberto Pastana.

Isso exigiu, também, a aquisição de equipamentos e uso de plataformas como Facebook, YouTube e Instagram para manter esse contato, principalmente com devotos de outras cidades. “A saúde está em primeiro lugar. A defesa da vida está em primeiro lugar”, completa.  

Missa em Juazeiro do Norte
Legenda: Mesmo com a liberação, as missas presenciais contaram com poucos fiéis
Foto: Antonio Rodrigues

Longe da romaria

A mais de 620 quilômetros de distância de Juazeiro do Norte, a aposentada Maria José Lima, 74, reclama: “Nunca passei tanto tempo longe desde comecei a pisar no Juazeiro”. Sua ida até a cidade começou ainda criança, junto com seus pais.

Apesar de eventualmente também visitar a terra do Padre Cícero nas romarias de Finados e Candeias, em novembro e fevereiro, respectivamente, sua tradição é participar da Romaria de Nossa Senhora das Dores, em setembro. 

Ano passado, sem poder ir à festa da “Mãe das Dores”, rezou aos pés da televisão com seus cinco filhos, que acostumou a levá-los a Juazeiro quando ainda eram pequenos, junto ao seu marido, já falecido.

“É o mesmo que tá vendo a missa do chapéu. Me emocionei de saudade que sinto de Juazeiro e porque sempre foi nossa maior alegria. Mas não foi a mesma coisa”, admite. Por outro lado, se mantém otimista: “Logo, logo, essa peste vai passar e vou voltar pra lá com fé no meu padrinho”.  

Mesmo quem mora em Juazeiro do Norte demorou a se adaptar às celebrações transmitidas em formato virtual. A costureira Maria de Lourdes Sobrinho, por exemplo, acompanhou as missas que acontecem no dia 20 de cada mês, em memória do Padre Cícero, do lado de fora da Capela do Socorro.

No dia de Finados, também visitou o túmulo do sacerdote. “A gente mantém o cuidado de ficar sozinha, mantendo a distância”, justifica.  

Missa em Juazeiro do Norte
Legenda: Em setembro e outubro de 2020, época em que o número de casos da covid-19 era menor, as igrejas foram reabertas seguindo as medidas sanitárias
Foto: Antonio Rodrigues

Impactos na religiosidade

Antropóloga e doutora e Sociologia, a professora Renata Marinho iniciou no final do mês de agosto uma pesquisa sobre essa ruptura, principalmente das romarias. “O Nordeste já viu várias situações, como secas muito fortes, e nada impedia o fluxo de romeiros. Veio a pandemia e para tudo. Então, veio o questionamento: ‘E agora?’”.

Diante desse cenário, ela investiga os possíveis impactos nas práticas religiosas durante o período. Para isso, começou a entrar em contato com romeiros, principalmente, pelas redes sociais. Mais de 20 deles já foram entrevistados.  

“De uma forma geral, uma coisa que podemos destacar é que a maior parte tem até 50 anos. A gente teve dificuldade de acessar romeiros mais velhos”, pondera a pesquisadora. Apesar das dificuldades, Marinho reforça que nenhum deles se coloca numa postura negacionista da covid-19, tratando a doença com seriedade e entendendo as medidas de isolamento social.

“Muitos entendem que é uma oportunidade para reflexão, valorização dos laços familiares e de viver de forma mais consciente e presente”, detalha a pesquisadora.

Adaptações

Além disso, Renata Marinho acredita que a Igreja deu uma resposta muito rápida à paralisação das celebrações presenciais, tornando as transmissões eficazes para montar a programação para romeiros. “Garantir, de alguma maneira, a manutenção desse vínculo”.

Como termômetro, a pesquisadora cita os meses de setembro e outubro, época em que o número de casos da covid-19 era menor e, consequentemente, as igrejas foram reabertas seguindo as medidas sanitárias. “Voltou a ter presença de romeiros aqui. Ou seja, existe uma demanda e necessidade de eles estarem presentes”, acredita.   

Segundo ela, a pandemia "pode ter algum impacto em irem três vezes ao ano, mas o vínculo de presença física, acho que não vai mudar, até porque, tem outra questão: o turismo religioso. Tem pessoas que vem para além das práticas devocionais, para passear. Vem para rezar, agradecer, mas fazer compras, rever pessoas”, completa a antropóloga.  

Reitor da Basílica de Nossa Senhora das Dores, o padre Cícero José da Silva acredita que a procura e a participação dos romeiros, em um cenário futuro em que as celebrações poderão ser presenciais novamente, será ainda maior:

“Devemos nos preparar para uma acolhida permanente. Essa ausência tem gerado uma vontade de vir. Muitos perguntam. Hoje, celebramos de forma virtual para não deixar aqueles em casa impossibilitados de viver sua fé”, conclui.  

 

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