Romaria da Santa Cruz reúne multidão de devotos católicos

Escrito por
Redação producaodiario@svm.com.br
Legenda:
Foto:

A história de martírio da escrava Romana vem ganhando dimensões religiosas, com romaria realizada em santuário

Meruoca. Movidos pela devoção à escrava Romana, milhares de fiéis participaram neste fim de semana, da tradicional festa da Exaltação da Santa Cruz. A romaria em homenagem à escrava é realizada tradicionalmente há mais de 150 anos. A festa começou na última sexta-feira, com uma procissão e terminou no Santuário da Santa Cruz, com uma missa campal, celebrada pelo padre Emanuel. Antes, devotos participaram de várias atividades religiosas. Batizados e confissões marcaram a programação.

No Sítio São Brás, a movimentação foi intensa. Todos os anos, no segundo fim de semana de setembro, milhares de devotos tomam conta do lugar, que mais parece um paraíso. O clima é ameno e a paisagem natural é exuberante. A natureza parece caminhar junto com a religiosidade do povo. No Santuário da Santa Cruz, construído em homenagem à Romana, a participação de romeiros superou as expectativas. Apesar do clima eleitoral que divide, nesta época, as atividades dos moradores, todos se uniram na festa. Durante os três dias de programação, milhares de romeiros se juntam aos moradores da Meruoca para prestar homenagem à escrava.

Uma tradição de mais de 150 anos enche de orgulho moradores da pequena cidade da região Norte do Estado. No alto da serra, a romaria diferencia-se das tradicionais.

Ontem, conforme calendário da Igreja Católica, o Dia da Exaltação foi comemorado com muitas orações. A festa religiosa teve início na última sexta-feira, com uma missa celebrada pelo cônego Francisco Sadoc de Araújo. O movimento religioso vem, aos poucos, atraindo adeptos de várias partes do País e até da Europa.

História peculiar

O Santuário da Santa Cruz ficou lotado de fiéis em torno da devoção à Cruz da Romana. A história da devoção é peculiar, começou ainda no final do século XVIII, quando uma escrava foi morta e torturada pelo seu dono.

Tendo feito votos de castidade, Romana foi perseguida pelo filho do seu dono. A vida da heroína terminou tragicamente. Acusada de assassinato ela foi amarrada e açoitada no tronco, torturada até a morte.

Enterrada no alto da serra, uma cruz foi colocada no local e, desde então, muita gente visita a cruz da Romana, local onde segundo os historiadores, ela teria sido enterrada. Ao redor da cruz, um santuário guarda a memória da escrava heroína. O monumento foi construído pelo casal Machadinho e Luiza Marilack . O local transformou-se no ponto de devoção e fé, e virou referência para romeiros, estudiosos e turistas que desejam conhecer de perto, a história da escrava que perdeu a vida tendo como ideal a castidade e a reclusão.

No santuário foi instalada a casa dos ex-votos. Os romeiros visitaram o local, pagando promessas e renovando votos de devoção em agradecimento às graças alcançadas.

A festa começou em frente à casa religiosa, Murmúrio da Natureza, a três quilômetros do santuário, com uma procissão de andores trazidos de várias casas de famílias. Cada comunidade conduzia uma imagem de Nossa Senhora de Fátima. Ao som de hinos e fogos de artifício, as pequenas imagens foram levados em procissão até o santuário. Na frente do cortejo uma grande cruz. Os pagadores de promessa se destacavam no meio da manifestação religiosa. A romaria percorreu vários trechos da serra, em meio à escuridão. Durante o percurso, os fiéis entoavam cânticos e orações. Ao final, as imagens de Nossa Senhora de Fátima foram recebidos com muita devoção no santuário.

A romeira Andréia Fontenele Leandro e o filho Alex da Costa participaram da caminhada. “A esperança é ver meu filho curado de um cansaço”, disse. “Vim até Santa Cruz para pedir a saúde de Alex. Tudo que a gente pede com fé em Nosso Senhor Jesus Cristo, Romana vai nos ajudar”, disse Andréia, que há dois anos participa da romaria. Ela mora em Alcântaras, a seis quilômetros do Sítio São Brás. “O caminho é longo. A fé ainda maior. Eu deixo tudo em casa para vir. Essa fé que eu tenho em Romana é muito forte. Enquanto tiver com vida e saúde, eu nunca vou deixa de vir”, diz a romeira.

O comerciante Josafá Pires Davi, do Sítio Anil, lotou a camioneta. “Faço isso todos os anos em homenagem à Romana. A gente vem louvar a Deus e a Romana”, conta a romeira Maria Rejane Coelho. “É uma grande manifestação de fé. Vim pedir a saúde do meu filho Francisco Davi Coelho, de 3 anos, que tem dificuldade de andar e falar. Vim também agradecer a Deus e a Romana pelos resultados que venho alcançando”, disse. “Emociona muito, porque temos fé por ela ser uma pessoa santa, que morreu de tanto sofrer e não cedeu os desejos sexuais do filho do patrão”, acrescentou.

Missa campal

O pároco de Sobral, Francisco Sadoc, abriu a tradicional Romaria da Santa Cruz, com uma missa. No sermão, fez referência à importância do evento. Ele destacou que a história da mártir foi contada em versos pelo poeta José Gurgel do Amaral. O trabalho publicado em 1955, narra a vida e morte da escrava Romana.

No Sítio São Brás, é comum, nesta época, encontrar devotos e romeiros espalhados nas trilhas e ladeiras. Eles vêm em busca de cura. Os romeiros fazem fila para entrar na casa dos milagres e ex-votos, antigo oratório construído em homenagem à Romana. “A fé remove montanhas. Então é a fé que nós devemos ter. Essa fé forte, que remove os nossos corações”, observa a organizadora Luiza de Marilack.

MANOEL LIMA
Colaborador