Rezadores levam cura a diferentes classes sociais
Crato. “Dona Líu, dá para passar um raminho em meu marido”. É pela janela da casa de esquina que o povo pede a oração. Dona Líu não tem cerimônia, recebe a todos há mais de 20 anos. Depois de uma promessa que fez para a cura do câncer com Santa Edwirges, decidiu seguir o caminho da mãe, de rezar nas pessoas.
Aos 70 anos, é famosa no Alto da Penha, no Crato. Quem chegar procurando por Maria da Conceição, ninguém sabe. Tem dia da casa estar cheia de gente em busca da oração. A orientação é “se pegar com os santos protetores”. No momento, segundo dona Líu, dá para sentir qual vai ser a oração. Isso, a depender do momento de cada um. De preferência, as orações são feitas durante o dia, para aproveitar a presença da luz do Sol.
No quintal de casa a rezadeira tem um jardim de ervas. São plantinhas usadas nas orações. Completam o ritual. “Auxiliam no momento de expurgar os maus espíritos, a negatividade da doença”, diz dona Líu. Os rezadores seguem um ritual próprio, dependendo da forma como aprendem as orações. “Há orações mais poderosas do que outras, e dependo da situação da pessoa a gente escolhe qual vai ser”, diz a rezadeira.
Em um álbum de fotografias, ela exibe as pessoas que foram à sua procura em busca de oração. Uma delas, uma moça que havia perdido a visão. Pediu que ela se apegasse com Santa Luzia, para indicar também um tratamento até a cura chegar. A fé chegou na moça, que acreditou muito mais na oração do que na cirurgia bem sucedida. Voltou a enxergar, mas o seu fortalecimento veio após o tratamento e orientações de dona Líu, também conselheira na comunidade. E tem santo para tudo. São várias imagens deles espalhados pela casa. A família não se incomoda. Em casos mais sérios São Braz, para desengasgar. Nos momentos de aflição e para conter a violência, Santo Amâncio resolve.
Não são apenas leigos que procuram as orações. Há médicos que a procuram com freqüência. Um deles curou dor de cabeça pela oração. “Tem gente que chega aqui e diz estar com dores no corpo, na cabeça, com mal-estar. No momento que a reza começa a gente já vê uma mudança”, diz dona Líu, mas acrescenta que é preciso ter fé. Às vezes, há necessidade de mais de uma reza. É o tratamento espiritual recomendado. E mais reza para o paciente se apegar em casa.
Cruz e cordão
No bairro Batateiras, também no Crato, há um senhor conhecido como Zé do Mel, nome de batismo. José Francisco do Nascimento. Com ele, sempre uma cruz e um cordão no bolso. A cruz, o mistério. Todos somos uma. O cordão, para amarrar os males. Passou a fazer oração nas pessoas desde uma promessa. Se curou da “congestão cerebral”, ocasionada por um café, depois de uma promessa com São Francisco e, depois seguiu a orar nas pessoas. Com o pai aprendeu as rezas, mas tem muitas que ele mesmo faz, dependendo da situação.
“Tem uma voz que me guia. É nossa mãe”, diz ele. E foi essa mesma voz, segundo Zé do Mel, que o encorajou a seguir na estrada de Canindé para pagar a promessa da doença. Saiu a pé do Cariri e no caminho encontrou uma onça. A voz indicou que seguisse e nada aconteceria. “Até hoje ela me acompanha”, ressalta. E continua indicando o que rezar nas pessoas. “Sempre estou viajando para outras cidades, para rezar nas pessoas”.
Cura
Quando começou, diz ter curado, por meio da oração, uma moça com bronquite. A partir daí as pessoas começaram a procurá-lo. “Se tem fé em Deus e no coração de Jesus, coloco a cruz na mão e vejo tudo. É com isso que trabalho”, completa Zé do Mel.
SAIBA MAIS
Feiticeiras
Em algumas regiões do Brasil, as rezadeiras são conhecidas também por ´Curandeiras´ ou ´Benzedeiras´. A curandeira foi vista, especialmente entre os séculos XVI e XVIII, como uma espécie de ´feiticeira´. Erroneamente foram perseguidas, oprimidas, punidas, rejeitadas e algumas até condenadas ao lançamento ainda vivas, nas ´Santas´ fogueiras do Santo Ofício - pelos Tribunais da Inquisição da então Igreja Católica.
Bênção
Os pais e padrinhos dão a sua benção a seus filhos e afilhados. Os católicos se benzem antes de qualquer ação importante ou ao passarem diante de uma capela ou igreja. Os espíritas dão ´passes´ aos que estão com negatividade fluídica. Os evangélicos fazem orações e cultos nas horas alegres e tristes dos irmãos. Tudo é oração e a rezadeira faz a sua ´Benzeção´ em quem vai à sua procura no intuito de curar-se de algum mal.
Resistência
O estudioso das religiões, escritor Giorgino Paleari, em seu livro - Religiões do Povo, 1990, na página 58, define muito bem o pensamento quanto às múltiplas funções das rezadeiras na vasta e rica Cultura Popular: - ´Dependendo de cada situação social ou histórica, a religião assentada numa cultura popular pode ser fator de alienação, de identidade popular, de resistência diante da cultura dominante ou oficial...´ Portanto, essas rezadeiras é a resistência diante desta cultura dominante dos meios de comunicação e das religiões oficiais que as discriminam.
Rezadeiras
As rezadeiras têm algumas coisas em comum: a simplicidade e a fé, por exemplo. Invocam o nome de Deus o tempo todo. Na hora de rezar, misturam orações como o Pai-Nosso, Ave-Maria e o Credo com truques da magia. Em sua maioria, são católicos.