Praças mantêm tradição do encontro
A praça é o espaço democrático, o panteon sagrado, onde está perpetuada a memória da cidade, púlpito de todas as religiões, palanque político de todos os partidos, refúgio de boêmios, aposentados, desempregados, irreverentes que costumam “matar o tempo” nas discussões estéreis, à sombra de árvores frondosas. É a academia popular dos intelectuais de plantão que discorrem sobre os mais variados assuntos. É também pista de caminhadas, ponto de encontros e reencontros, uma extensão da varanda da casa, onde, no passado, a família se reunia para a troca de idéias. O crescimento das cidades, empurradas pelas atividades mercantilistas, e o culto ao automóvel não esvaziaram as praças. Nem mesmo a violência conseguiu acabar com o fascínio que o homem do Interior tem pela praça. Ali, no convívio dos amigos, motivado pela necessidade de se agrupar, o homem se sente seguro, protegido pelo anseio coletivo de viver em comunidade.
Entre importantes elementos simbólicos da história de Sobral, como o Teatro São João, um dos maiores ícones da cidade, a Casa de Cultura, o Museu Dom José e a Igreja do Menino Deus, está a Praça São João. Uma das mais antigas da cidade, construída em 1848, o local faz parte da área tombada como patrimônio histórico nacional. Sua história é marcada por fatos, no mínimo, inusitados. Há muito tempo, a praça não era tão bem compartilhada como nos dias atuais, sendo dividida entre o lado dos pobres e o lado dos ricos.
O “passeio”, como era conhecida a Praça São João, começou como um largo. A primeira ala a ser construída foi a que fica ao lado da Igreja. Mas, com a grande movimentação em frente ao teatro, foi necessária a construção de uma nova ala. Antes de existir a praça, importantes construções já existiam a seu redor. A casa do major Bandeira de Melo, 1º juiz de Paz de Sobral, de 1844, que agora abriga o Museu Dom José, a antiga casa do vigário Colado Jorge de Souza, de 1856, que hoje abriga a Casa de Cultura, e o Teatro São João, que teve sua pedra fundamental lançada em 1875, mas só foi inaugurado em 1880.
Em meio a importantes pontos, que hoje fazem parte da área urbana de Sobral tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como patrimônio histórico nacional, nasceu o terceiro núcleo urbano do Município. Antes da Praça São João, as pessoas se reuniam na margem do Rio Acaraú e na Praça da Igreja do Rosário, como conta o vice-prefeito do Município, Clodoveu Arruda. Sempre bem localizada, desde o passado até hoje, a Praça São João se tornou um dos locais de maior movimentação da cidade.
Desde cedo, a Praça era um “passeio” propício ao lazer e à conversação para a sociedade sobralense. Nessa época, freqüentavam o local ricos e pobres, lembra uma moradora antiga. “Como a praça tinha essa divisão diagonal, de um lado ficavam as pessoas pobres e do outro os ricos”, explica Clodoveu Arruda. Para o vice-prefeito, que também é ex-secretário de Cultura, essa divisão acabou acontecendo por conta da imposição das próprias pessoas. “Na minha opinião, a estrutura dividida da praça não foi feita com esse intuito, mas acredito que as pessoas acabaram fazendo com que isso acontecesse”.
Apesar de conviverem em harmonia, os freqüentadores da elite elegeram a ala mais nova (a da ema), como privativa, e aos pobres restou a antiga ala. Na divisão, a classe rica de Sobral ficava com o lado da praça que tinha a radiadora. Criada em 1938, a “Imperador”, como era chamada, foi uma das primeiras radiadoras da cidade. Mesmo com a divisão, todos os freqüentadores desfrutavam do prazer de passear ouvindo uma boa música. Até hoje, os visitantes da Praça São João podem encontrar, fielmente mantida, a estrutura da antiga radiadora.
Segundo Clodoveu Arruda, a praça sempre atraiu a atenção dos moradores de Sobral. Sua localização, no Centro da cidade, sempre contribuiu para isso. Se antes havia comércios e casas de importantes personalidades, hoje a Praça tem a seu redor de tudo um pouco. São lojas, lanchonetes, museu, igrejas - católicas e evangélicas -, a Casa de Cultura e o Teatro São João. A intenção da Prefeitura, segundo o secretário de Planejamento, Campelo Costa, é tornar o local centro de atividades artísticas. Como já acontece às quintas-feiras, quando é realizada a feira de artesanato.
O local parece já ter jeito para isso. Até pouco tempo atrás, na década de 1980, era pela Praça São João que passavam os blocos de carnaval de Sobral. Foram quase 40 anos de desfiles pela praça. Atualmente, o local faz parte da rota dos blocos do Carnabral, micareta fora de época da cidade. A qualquer momento do dia, é possível ver pessoas circulando ou conversando pelos bancos da Praça e crianças brincando pelo jardim.
Um dos pontos mais bonitos da Praça São João é o pequeno lago onde está exposta uma das esculturas mais comentadas do local, ou até mesmo da cidade, a ema. O lago também tem sua história. Seu formato lembra o mapa de Sobral do século 19, quando o Município era muito maior, incluindo o atual Município de Forquilha.
Com a mesma estrutura mantida desde sua construção, a Praça São João só sofreu alterações para manutenção do espaço. Os bancos e postes continuam os mesmos. Já os cuidados com o jardim é responsabilidade da Grendene, que participa do programa da Prefeitura, “Adote uma praça”. Através dessa iniciativa, a parte de jardinagem de cada praça da cidade é adotada por uma empresa.
Apesar dos cuidados com a manutenção, algumas questões ainda preocupam. Impedir o tráfego de veículos pelo local, a retirada de um quiosque que descaracteriza o espaço e a repavimentação da rua central são as providências que deverão ser tomadas pela Secretaria de Planejamento de Sobral. “A intenção é melhorar a qualidade do local. A estrutura da Praça continuará a mesma”, explica Campelo Costa, secretário de Planejamento.
Hoje, os carros já invadiram a parte da praça que deveria ser exclusivamente para pedestres. As correntes que isolavam a passagem dos veículos foram quebradas. Dessa forma, o local está servindo hoje para estacionamento, situação que piora à noite, quando as pessoas costumam estacionar no local para beber e conversar.
Além disso, o quiosque colocado há cerca de seis anos na Praça não tem nenhuma identidade com as características do local. O vice-prefeito, Clodoveu Arruda, também ressalta a descaracterização do próprio quiosque que, com a intenção inicial de funcionar como banca de revista, acabou se tornando um espaço para venda de bebidas, com mesas e cadeiras colocadas pela praça.
Segundo o secretário Campelo Costa, o quiosque deve ser retirado da Praça na reforma e o piso da entrada da rua central deverá ser levantado para impedir a entrada de veículos. Está prevista também uma repavimentação do local, que já apresenta alguns buracos abertos pelo passeio.
Cristiane Vasconcelos
sucursal Sobral