População teme voltar para casa depois de chuvas

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Depois das fortes chuvas, moradores que foram atingidos pelas águas, não querem voltar para casa

Quixeramobim. Os 114mm de chuva registrados nesta quinta-feira, neste município, ainda são o principal problema para dezenas de famílias abrigadas em escolas e creches da cidade. Apesar da redução das precipitações ontem — apenas 1mm até o encerramento desta edição — a maioria prefere não voltar para casa. O tempo está nublado e promete mais chuvas. A Defesa Civil do município evita o retorno de moradores para as áreas consideradas de risco.

Depois do sufoco com água na cintura durante a madrugada da quinta-feira, continua o vai-e-vem de moradores do Bairro Monteiro de Moraes, no Pólo Educacional Antônio Holanda. São vizinhos, transportando móveis e eletrodomésticos para as salas de aula transformadas em dormitórios. Devem permanecer ali até a coordenação da Defesa Civil local dar o sinal para o retorno seguro. A mesma situação é vivida em outros quatro prédios públicos do município espalhados pela cidade.

Para aliviar o sofrimento dos desabrigados, a Prefeitura de Quixadá está fornecendo alimentação para quem permaneceu nas escolas e creches e cestas básicas para quem encontrou acolhida nas casas de parentes e amigos. Pelas emissoras de rádio, o próprio prefeito, Edmilson Júnior, está conclamando a população a doar alimentos, roupas e produtos de higiene para as famílias afetadas pela inundação. Os donativos já estão chegando.

Mas o que muitas famílias querem mesmo é o reparo dos danos e perdas, incluindo o televisor e a geladeira, como lamenta a dona-de-casa Maria Vanda Alves de Oliveira. Ainda muito nervosa, espera receber auxílio financeiro e uma moradia em local seguro. Essa também é a expectativa da agricultora Luzineide do Carmo Alves. Ela e os dois filhos menores tiveram que sair às pressas. Os móveis ficaram encharcados. Só escapou a cama.

Segundo o coordenador da Defesa Civil de Quixeramobim, Marcos Machado, o número oficial de famílias desabrigadas é de 128. Ele ressaltou, porém, que a maioria seguiu para as casas de familiares. Quanto ao número de casas desabadas, houve registro de oito, mas apenas parcialmente. Em relação aos imóveis interditados o levantamento ainda estava sendo feito. Porém, a reportagem constatou que, somente na Rua Presidente Castelo Branco, quatro casas estavam isoladas.

Zona norte

Apesar de dois dias sem chuva, em Sobral, o quadro continua inalterado, quem informou foi o coordenador da Defesa Civil do município e chefe da Guarda Civil Municipal, Jorge Trindade de Vasconcelos. Ele assegurou ontem que, pelo menos, 46 famílias continuam em abrigos improvisados pela Prefeitura e outras 80 famílias estão em casa de familiares. “Estivemos visitando essas famílias, sabemos que algumas crianças estão doentes, por isso a nossa preocupação agora em oferecer atendimento médico para essas crianças”, disse ele, acrescentando que, como há previsões de mais chuvas na região nos próximos três dias, as famílias permanecerão nos abrigos.

“Atendendo a uma solicitação do secretário de Saúde, Carlos Hilton, os postos de saúde dos locais afetados pelas chuvas estão com plantão de 24 horas”, disse Cristina Coelho, da Secretaria de Saúde.

Uma avaliação feita pelo subtenente do Corpo de Bombeiros, Marcos Costa, mostra que em outras regiões afetadas como Aracatiaçu, Patos e Várzea Redonda, as pessoas continuam precisando de ajuda da Defesa Civil. Santana do Acaraú e Marco receberam ontem o bombeiros para ajudar pessoas que estavam ilhadas.

ENQUETE

Quais transtornos você enfrenta com as chuvas?

Maria das Graças Alves da Silva

61 ANOS
Aposentada

"Eles têm nos ajudado com cesta básica e colchão, mas o que eu queria mesmo era voltar para minha casa"

Juliano do Nascimento Alves
32 ANOS
Pedreiro

"Não tive como voltar ainda para casa. Estou aqui no abrigo com minha esposa e meus dois filhos"

Daniele Gonçalves da Cruz
22 ANOS
Dona-de-casa

"Cuido de uma criança de pouco mais de ano, filho de uma cunhada. Ficar com ela fora de casa não é nada agradável"

Francisco Adelmir do Carmo Alves
29 ANOS
Operário

"Moro numa casa de taipa. A enxurrada levou uma parede todinha. Se houver chuva forte novamente leva o resto"

Erosão em parede de açude

Icó. O Açude Lima Campos, localizado no distrito de mesmo nome, neste município, começou a sangrar, na noite desta quinta-feira. Apesar do espetáculo, os moradores da sede do distrito estão apreensivos porque há erosão na parte externa da parede do reservatório, construído em 1932, pelo Governo Federal.

Segundo os moradores, a erosão começou em janeiro passado, mas com a chegada das chuvas os buracos aumentaram. “Estamos preocupados”, disse o aposentado Juvenal Oliveira. “Ninguém sabe ao certo a real gravidade e a profundidade desses buracos”. Recentemente, um poste de energia elétrica sobre a parede tombou em decorrência da erosão na parte superior externa.

A população permanece assustada e já comunicou o fato ao encarregado local do Dnocs, órgão responsável pela administração do Açude Lima Campos. O gerente do Dnocs, em Icó, Ipojucã Pereira, disse que o fato já foi comunicado à direção do órgão, mas a reforma depende da liberação de uma verba de R$ 80 mil. “Engenheiros já verificaram as erosões, mas não há risco para a população. Os moradores podem ficar tranquilos e os serviços de recuperação devem começar na próxima semana”, frisou.

As últimas chuvas que banharam os Inhamuns e o Cariri contribuíram para a cheia do Jaguaribe. Em Iguatu, o nível da água subiu 8 metros em relação ao leito do rio.

Até o fechamento desta edição, o Açude Orós estava com 99% de sua capacidade, que é de 1,9 bilhão de metros cúbicos. O reservatório é o segundo maior do Ceará. A medida feita às 11 horas da manhã de ontem mostrou que faltavam apenas 14cm para atingir a cota de transbordamento. A previsão dos técnicos era de que a sangria ocorresse por volta de meia-noite de ontem.

A Defesa Civil do Estado informou, ontem, que havia 4391 pessoas desalojadas em 27 cidades em decorrência de chuvas. O número de desabrigados era de 549 pessoas que estavam em imóveis públicos.

SERTÃO DE CANINDÉ

Três reservatórios sagram em Itatira

Itatira. As chuvas, que renovam a natureza e enchem açudes, proporcionam sangrias espetaculares e atrai curiosos para assistirem o espetáculo das águas, estão presentes em todo o Ceará. Em Itatira três açudes estão sangrando. O Oiticica com capacidade para 2 milhões e 500 mil metros cúbicos, que garante o abastecimento da sede de Lagoa do Mato, sangra com uma lâmina de 45 centímetros. Este deságua no São Joaquim, que tem capacidade para 800 mil metros e atingiu sua cota máxima numa altura de 53 centímetros.

Esses dois reservatórios deságuam no Açude João Silva Guerra, que tem a capacidade para 6 milhões de metros cúbicos e que está sangrando com uma lâmina de 1,35 metro. Este açude era um sonho de mais de 80 anos da população e somente este ano foi dado início à sua construção.

A sangria do maior açude do município deixou um rastro de destruição ao longo do leito do rio. As plantações de milho, feijão, mandioca, mamona e girassol, que ficam no trajeto das águas, ficaram alagadas.

Ontem, o prefeito José Ferreira Matheus, o vice-prefeito, Paulo Ruberto, e a secretária da Agricultura e Recursos Hídricos, Cláudia Guerra, visitaram o local para ter uma noção do que estava ocorrendo com a barragem. “Graças a Deus tudo está sob controle. Temos que manter a vigilância na área, para evitarmos maiores problemas”, diz o prefeito Zé Dival.

Conforme o último boletim da Cogerh divulgado, ontem, pela manhã, no Ceará, 59 açudes estão sangrando e os reservatórios acumulam uma média de 14,7 bilhões de metros cúbicos dos 131 açudes monitorados pelo órgão.

CHUVAS NO CEARÁ

Cidade/mm

Granja 140
São Benedito 114
Senador Sá 75.2
Itarema 75
Guaraciaba do Norte 71.6
Varjota 68
Reriutaba 66
Caririaçu 64
Carnaubal 62.4
Camocim 60.2
Ibiapina 54

Mais informações:

Defesa Civil de Quixeramobim
(88) 3444.4526
Sobral: 0800 280 0193


honório barbosa
Repórter

ALEX PIMENTEL/ WILSON GOMES
Repórter