Muito além da doença de criança
Até duas décadas atrás, milhares de crianças eram sepultadas no Sertão antes dos sete anos de idade. A diarreia deixava os meninos só 'couro e osso'. Hoje, a maior parte das mortes se dá até uma semana após o parto
"Minha avó dizia que feliz de quem tem um anjinho no Céu". É Judite quem afirma. Conheceu a dor de Dilce antes dela, a cunhada. Perdeu o filho e "ganhou um anjo" seis anos atrás. Mas a morte, da qual nunca se esquece, só está nas estatísticas na forma de números, e nela, na forma de dor.
A cada hora, uma criança morre no Nordeste antes de chegar ao primeiro mês de vida. Mais da metade não completou a primeira semana. O sertão nordestino (que abrange oito dos nove Estados da Região), é a sub-região geográfica do Brasil com a maior taxa de mortalidade infantil (vai de zero a um ano incompleto).
No Ceará, a cada sete horas, um bebê tem óbito com idade de zero a 27 dias de nascido. Média de três a cada 24h. Todos os dias, ao menos duas crianças no Estado não atingem uma semana de vida. Em 2013, foram 961 óbitos nessa faixa. Desses, em média, metade morre nas primeiras 24 horas de vida.
Nessa estatística está Ana Vitória, a filha de Dilce, vítima de insuficiência respiratória poucas horas depois da primeira e única amamentação.
O nome, quando substitui o número, dá uma dimensão da realidade só conhecida e vivida por quem passa. Muito embora seja crescente a redução das mortes (no ano 2000, eram três vezes mais nessa mesma faixa), o número menor não excluirá das estatísticas Quitéria Lívia Epifânia de Oliveira. Morta em 27 de agosto de 2014, cinco dias após o nascimento, seu sepultamento ilustra capa e contracapa desta edição, a primeira da série de reportagem. Não vai tirar, especialmente, para a mãe, que esperava voltar da maternidade com a filha viva nos braços.
Corte a mortalha
O Brasil, e o próprio Nordeste, sobretudo, é referência na redução de óbitos até cinco anos de idade. Morriam mais de "doença de criança", compreendida como um vasto número de sintomas que envolvem doenças gastrointestinais, respiratórias, infecciosas e distúrbios nutricionais, conforme Marilyn Nations, médica e antropóloga norte-americana que veio ao Brasil estudar sobre essas mortes e intitulou sua tese de doutoramento "Corte a mortalha: o cálculo humano da morte infantil no Ceará", no início dos anos 1980.
A principal conclusão do estudo não envolve a quantidade de mortos, vai além: essa vitimização ocorria, em parte, pelo distanciamento da ciência médica da ciência popular e o seu conjunto de crenças, símbolos e significados. Essa lacuna, na forma da não aceitação dos valores populares por parte da medicina, estaria contribuindo para a precariedade no atendimento. Ao defender que faltava humanização por parte dos médicos na relação com os pacientes, tratado muito como objetos, pouco como sujeitos, Marilyn cutucou a secular áurea da medicina.
De posse da realidade colhida no Ceará, causou polêmica na Universidade da Califórnia, na qual lecionava e pesquisava, especialmente ao contestar a tese de outra colega, que, antes dela, foi a Pernambuco, também no Nordeste, e teve por uma das conclusões que essas mortes infantis em larga escala eram fruto da negligência materna. Como numa seleção darwiniana, as mães entregariam para o 'destino' as crianças já fragilizadas e mais suscetíveis a morrer.
Com um olhar mais apurado, a médica Marilyn Nations provou com diversas evidências que as mães faziam o que podiam para que os filhos não morressem minguados gemendo no fundo de pequenas redes. Demonstrou que a lágrima contida em muitas delas, quando os filhos morriam, dava-se por mais um ato de amor, conforme fosse mais forte a crença de que as lágrimas molham as asas do anjinho, seu filho morto. De asa molhada ele não voa e, portanto, não chega ao céu. Por amor, as mães se impunham como último sacrifício recolher a dor. Dar passagem à "providência divina".
A médica e antropóloga é responsável, ainda, por ter incentivado, no Brasil, o modelo de rezas e soro. Para combater a desidratação de crianças, a medicina passou a aceitar a reza como o importante remédio do médico popular, na forma das rezadeiras e benzedeiras. Essas, por sua vez, orientavam a ida ao médico e recomendavam a aplicação oral de duas medidas de açúcar e uma de sal em um litro de água. A atitude simples salvou vidas. "Foi a nova fusão das ciências humanísticas com as ciências biológicas que permitiu aos profissionais da saúde enxergar o "corpo social" das crianças pobres, desnutridas e doentes", afirma Marilyn, atualmente professora da Universidade de Fortaleza (Unifor). A 'doença de criança' foi perdendo espaço.
Meta do milênio
O principal indicador do Relatório dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), da Organização das Nações Unidas (ONU), trata de óbitos entre crianças menores de cinco anos. É a taxa de mortalidade na infância, que conta a frequência de óbitos para cada mil nascidos vivos. Em 2011, esse índice (divulgado em 2013) era de 17,7mortes por mil nascidos vivos. Comparado com os anos a partir de 1990 (47,1 mortos por mil nascimentos), houve uma forte queda em todas as regiões brasileiras, sobretudo, no Nordeste (reduziu 76%, média de 6,6% ao ano). A meta do milênio, de reduzir em até dois terços essa taxa de mortalidade, foi cumprida antes do prazo: 2015.
Melquíades Júnior
Repórter
Acesso o hotsite da Série Parto dos Anjos

