Moreno e Duvina revivem o cangaço
No começo do século XX, o Nordeste do Brasil viveu momentos difíceis, atemorizado por grupos de homens que espalhavam o terror por onde passavam. Eram os cangaceiros, bandidos que abraçaram a vida nômade e irregular de malfeitores por motivos diversos. Hoje, eles são vistos como heróis do povo, que responderam com coragem e brio à sanha e à potência dos coronéis do sertão que se mantinham no poder a ferro e fogo. No Cariri, vários episódios marcaram essa etapa da vida nacional. Um deles, foi a presença de Lampião em Juazeiro do Norte, envolvendo a figura mística do Padre Cícero. Hoje, completa 80 anos que Virgulino Ferreira, o Lampião, recebeu a patente de “capitão” com o objetivo de combater a Coluna Prestes ao lado do Batalhão Patriótico. O médico e escritor Magérbio de Lucena revive aquele momento histórico contando, em detalhes, a passagem de Lampião pelo Cariri. No rastro dos cangaceiros, o Diário do Nordeste publica uma entrevista com o casal de cangaceiros Moreno e Duvina, que saiu do Cariri, em 1938, depois da morte de Virgulino, deixando manchas de sangue, amor e ódio no sertão nordestino.
A localização do casal de cangaceiros na periferia de Belo Horizonte, Minas Gerais, reabriu a discussão em torno de um dos mais temidos bandoleiros do grupo de Lampião. Em Brejo Santo, onde Moreno morou até os 22 anos, parentes e amigos que o conheceram na adolescência, falam sobre o seu comportamento. Moreno foi descoberto pelo cineasta cearense Wolney Oliveira, que está fazendo pesquisas para o seu novo filme “Lampião, o Governador do Sertão”. O casal descreve, com desenvoltura, a “vida cangaceira”, mas desconversa, no confronto com a história, quando é lembrado dos crimes que lhe são atribuídos, muito embora já prescritos.
Com 96 anos, quase surdo, Moreno mora num sobrado, na Vila Tupy, ao lado de sua mulher, que também pertenceu ao bando, Duvalina Gomes de Sá, conhecida por “Duvina”. Os dois fazem parte de um reduzido grupo de ex-cangaceiros, ainda vivos. Eles poderão dar grande contribuição para a controvertida história do cangaço. Um irmão de Moreno, de nome Jacaré, que também morou em Brejo Santo, é apontado como autor da morte de Delmiro Gouveia, natural de Ipu e idealizador da Hidroelétrica de Paulo Afonso. O primo deles, João Inácio da Silva, conhecido por “João do Major”, de 73 anos, residente em Brejo Santo, nega a participação de Jacaré na morte de Delmiro, garantindo que tem documentos que comprovam a inocência dele neste caso, mas admite que os dois primos legítimos eram cangaceiros. “Foram vítimas de uma sociedade desumana e que faziam justiça com as próprias mãos”.
Moreno admite que o seu irmão foi preso como suspeito do assassinato do industrial cearense, mas não sabe se ele matou Delmiro. Confessar o rosário de crimes que praticou é demais para um homem que se manteve em silêncio durante 70 anos. “Nem mesmo os historiados que estão convivendo como a família, conseguiram arrancar de Moreno informações valiosas”, diz o escritor Voldi Moura, que se encontra em Belo Horizonte, fazendo pesquisa sobre o cangaço.
Há muitas informações sobre os motivos que levaram Moreno a entrar no bando de Lampião. A própria família do cangaceiro reconhece que ele não “abre o jogo”. Duvina conta que foi por causa de uma briga entre irmãos. O primo João Inácio garante que tudo começou porque ele foi preso, em Brejo Santo, sob a acusação de ter roubado um bode. Para não apanhar na cadeia, assumiu a culpa, fugiu e entrou no cangaço para se vingar de seus detratores.
Aos 89 anos, a aposentada Josefa Teles de Carvalho recorda-se do jovem Antônio Francisco da Silva — nome da batismo de Moreno. “A gente morava na mesma rua. A casa do pai dele, Manoel Francisco, era onde funciona hoje o bar ‘Caldeira do Inferno’, na rua Dionísio Rocha de Lucena”, conta dona Josefa, acrescentando que ele era um menino bom que virou uma “besta-fera”, quando se transformou em cangaceiro.
A aposentada lembra que um dia ele apareceu no sítio Garanhuns, a cerca de 10 km de Brejo Santo, “virado no cão”. “Eu corri com medo, pensando que era um bicho”. Dona Josefa descreve que Moreno usava barba e cabelos longos e estava “armado até os dentes”.
O médico e historiador Napoleão Tavares Neves, que residia em Porteiras, relembra que passou noites sem dormir com medo do bando comandado por Moreno. O médico Magérbio Lucena e o representante comercial aposentado, Hilário Luceti, autores do livro “Lampião e o Estado Maior do Cangaço”, residentes em Crato, o definem como um cangaceiro cruel, autor de crimes hediondos, que marcaram o lado desumano do cangaço. “Ele matou dois jovens com cacete para economizar munição”, afirmam.
Quando se juntou ao grupo de Lampião, em 1936, dizendo que vinha do Cariri, porque estava sendo perseguido pelo polícia, Virgulino lhe fez uma exigência: “então você é de Brejo Santo? Você deve conhecer ‘Onton da Piçarra’. Pois bem, eu tenho um ‘servicim’ para você fazer: mate ‘Onton da Piçarra’ e me traga as duas orelhas dele”. Moreno voltou para o Ceará com a missão de cumprir o compromisso assumido com Lampião. Entretanto, não conseguiu matar Antônio Teixeira Leite, conhecido por Antônio da Piçarra, que morreu com mais de 90 anos de idade. A versão é confirmada pelos familiares do cangaceiro. Moreno confirma que conheceu Antônio da Piçarra, mas nega a ordem para assassiná-lo.
Antônio Vicelmo
sucursal Crato