Moradores de Jati não passaram por simulação de evacuação

Defesa Civil do Estado afirmou que, além do simulado, plano de contingência não ficou pronto a tempo. Rotas de fuga ajudaram na saída de pessoas.

Legenda: Centro da cidade ficou vazio após o rompimento Até o fim da próxima semana o trecho da parede inclinada da barragem será recuperado. O dano, no entanto, não comprometeu a estrutura do açude
Foto: Foto: Toni Sousa

O pânico enfrentado por moradores da cidade de Jati, no extremo-sul do Ceará, após rompimento de uma tubulação na barragem do Projeto de Integração das Águas do Rio São Francisco (Pisf), tinha razão de existir: até aquele momento, nenhum deles havia feito qualquer simulação em caso de danos ocorridos na estrutura do empreendimento.

A informação é do supervisor regional da Defesa Civil do Estado, Francisco Brandão, que acompanha o processo de recuperação do equipamento no município. "A gente não tinha feito ainda o simulado. A população ainda não estava 100% preparada. O simulado é feito em conjunto e com a participação da comunidade, mas não tinha sido feito ainda em função dessa história toda (da pandemia), de alguma coisa que deixou de ser feita", reconheceu o gestor.

O documento que rege os procedimentos para retirada de pessoas que vivem em zonas de risco nas proximidades de barragens chama-se Plano de Ações Emergenciais (PAE), elaborado pela construtora e apresentado ao fiscalizador das barragens, no caso a Agência Nacional de Águas (ANA).

A fim de dar vazão aos cuidados para garantir a segurança da comunidade limítrofe, a Defesa Civil do Estado também deve elaborar um plano de contingência - que ainda não foi finalizado.

"É um plano muito parecido com o PAE, que estava sendo elaborado e que não tinha sido terminado também. As coisas estavam caminhando juntas, estavam por ser terminadas ainda quando o desastre aconteceu. Na realidade, a gente evitou um desastre porque se essa barragem arromba, a coisa tinha sido muito pior", avalia Brandão.

Na visão do supervisor da Defesa Civil do Estado, "a população só estaria "preparada" quando tivesse participado de algum simulado, seja do PAE ou do plano de contingência". Contudo, ele pondera que a ANA elaborou rotas de fuga dentro da cidade para que os moradores pudessem segui-las em caso de problemas com a barragem. Em nota, a Agência disse que "está em contato com o empreendedor e as autoridades locais e federais".

A ANA questionou, ainda, a informação repassada por Francisco Brandão. Segundo a Agência, não compete a ela realizar demarcações de rota de fuga, mas "a Defesa Civil local".

Pânico

De acordo com a prefeita de Jati, Maria de Jesus Diniz, o rompimento da tubulação foi "um momento de muita aflição" para a cidade. "A gente sabe do tamanho da grandeza de ter uma barragem dessa, mas precisa dar tranquilidade e passar isso para o nosso povo. A gente quer dar segurança e trabalhar a parte psicológica, porque foi muito abalado", disse.

Falta de treinamento e medo do que poderia vir a acontecer fizeram com que mais pessoas acabassem saindo de suas residências, mesmo sem necessidade ou risco. "A gente vai sensibilizar estas pessoas que estão em áreas seguras a voltar pra casa. O problema se torna menor e podemos voltar os esforços para os que precisaram sair", acrescenta.

Para José Adauto, de 50 anos, que mora na localidade atingida, o rompimento da tubulação "foi um susto grande, um filme de terror". Ele estava em casa quando ouviu os vizinhos comentando sobre o problema. De repente, conforme o comerciante, "começou o corre-corre, o povo alarmando 'a barragem estorou, estorou, estorou'", lembra.

'Todo mundo correndo'

A correria também é relatada pelo cabeleireiro Valdir Alves. Segundo ele, uma senhora passou pelo centro comercial gritando e dizendo que a barragem havia estourado. "Aí deu aquela loucura, todo mundo correndo. Era uma aglomeração danada de pessoas. Já teve gente arrumando o que tinha de bolsas e saindo pra casa de parentes", narra.

Para Francisco Brandão, "houve um processo de pânico porque as pessoas não estavam devidamente preparadas". "A gente nunca evita o pânico 100%. O que ficou registrado é que a população depois que recebeu a informação da Defesa Civil do Município e do Estado, que teria que ser feita a evacuação, foi feita. As defesas civis atuaram, o consórcio atuou muito e a população, inclusive, já voltou pras suas casas durante o dia", informa.

O retorno integral das duas mil pessoas que deixaram seus imóveis só deve ocorrer com a normalização do problema, conforme apontou o Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR). A previsão é que até terça-feira (25) a tubulação seja reparada.

Cena repetida

No dia 16 de agosto de 2018, engenheiros que monitoram o Pisf detectaram um vazamento na barragem de Negreiros, em Salgueiro (PE). O risco de rompimento da estrutura, construída entre os anos de 2013 e 2015, assustou moradores da Vila Produtiva Rural (VPR). Assim como em Jati, 35 famílias tiveram que ser retiradas por segurança.

"Para a gente aqui foi uma surpresa, porque ninguém estava preparado", conta a agricultura e líder da comunidade, Maria Auxiliadora Vasconcelos. Apesar de reconhecer toda assistência dada pelo MDR, incluindo hospedagem e alimentação dos moradores, ela conta que nunca houve um treinamento antes daquele susto. "Só aconteceu depois", rememora.

Naquela ocasião, a VPR Negreiros recebeu equipes da Defesa Civil, Corpo de Bombeiros e engenheiros. Depois do episódio, foi montada uma sirene no prédio da vila que, a qualquer risco, pode ser acionada. Além disso, deixaram uma área sinalizada para que os moradores corram e fiquem em segurança. "Tudo isso só foi após o alerta. Aquilo que vi em Jati nos vídeos foi como aconteceu aqui. Deu tempo só tirar os documentos", desabafa a líder.

 

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