Memória das eleições está viva no Interior
Escrito por
Redação
producaodiario@svm.com.br
Legenda:
Foto:
Campanhas eleitorais do passado ainda estão bem vivas na memória de eleitores do Interior, verdadeiros saudosistas
Iguatu. Uma das eleições mais movimentadas e animadas desse município foi a de 1954, quando o médico Mendonça Neto (UDN) enfrentou o advogado Meton Vieira (PSD). Naquela época, o pleito era realizado conjuntamente com a escolha de deputados federais, estaduais e governador. Nessa conjuntura, houve o embate entre o compositor Humberto Teixeira e Adahil Barreto Cavalcante, ambos disputando vaga na Câmara Federal.
As forças políticas locais dividiam-se no apoio aos seus candidatos. Aliado do ex-prefeito e médico, Manoel Carlos de Gouvêa, uma das maiores lideranças políticas do município, o compositor Humberto Teixeira realizou comícios na região Centro-Sul, ao lado do parceiro e músico, o “Rei do Baião” Luiz Gonzaga.
De volta à sua terra natal, Iguatu, Humberto Teixeira tentava conquistar eleitores. Os comícios ganharam novas características com muita música e animação, mas os discursos ainda continuavam longos. “Hoje, os candidatos falam pouco, mas, naquela época, ficavam horas e horas discursando”, lembra o pesquisador e aposentado, Wilson Lima Verde, 73 anos. “Não saía ninguém e as pessoas paravam e ficavam atentas aos pronunciamentos”.
Wilson Lima Verde votou, pela primeira vez, nas eleições de 1954. “Foi um pleito movimentado, com uso de músicas, bandeiras e panfletos”, recorda. A modernização começava a chegar ao Interior. Os materiais impressos eram feitos em gráficas de Fortaleza.
Lembrança
A presença do “Rei do Baião”, Luiz Gonzaga, e do doutor do baião, Humberto Teixeira, atraía o público. Eles trouxeram outros cantores do Rio de Janeiro e músicos acompanhavam os comícios. Uma das canções criadas para o pleito marcou a geração da época, e muitos não esquecem. Wilson Lima Verde recorda cada estrofe da música que virou sucesso: “É peia, peia, peia/Iguatu foi um estouro/Quando vi Dr. Gouvêa/Botar meu chapéu de couro/O doutor Humberto Teixeira/ doutor do meu baião/E o doutor Hugo Gouvêa/Tá com ele meu irmão/”. Nesse mesmo pleito, após a realização de um comício no distrito rural de Suassurana, onde se dizia existir onças, criou-se um jingle que tinha uma estrofe na qual os eleitores cantarolavam: ‘É onça, onça pra engolir Dr. Mendonça’.
Terminada a eleição, o resultado foi favorável ao médico Mendonça Neto. E não tardou para que o professor e jornalista Antônio Nogueira desse a resposta: ‘Mas a onça foi ligeira, já engoliu Meton Vieira’. Até hoje, essas músicas são cantadas por eleitores da época.
O ex-prefeito, Mendonça Neto, 99 anos, lembra das paródias e sorri ao cantar a estrofe que lhe é favorável. “Acabei ganhando do candidato de Dr. Gouvêa”, diz. “Naquele tempo, havia mais respeito entre os candidatos e os eleitores. Não era como as campanhas de hoje, em que há muita baixaria”.
A prima de Humberto Teixeira, a radialista Marlene Teixeira, lembra que o compositor vinha a Iguatu cheio de emoção e de alegria. “Foi uma campanha bonita, muito movimentada”, recorda. “Luiz Gonzaga e outros músicos da época animavam os comícios”.
O agrônomo Tenório Cavalcante Assunção observa que nas eleições anteriores à redemocratização ocorrida em 1985, havia uma disputa polarizada entre o PSD e a UDN, com candidatos praticamente se revezando no poder local. “As pessoas acreditavam nos políticos, trabalhavam por amor e os vereadores não eram remunerados”, observa.
A história mostra que havia muitos discursos inflamados. Durante a época, Iguatu não dispunha de emissoras de rádio. A turma do PSD usava o serviço de alto-falantes Santo Antônio dos Pobres (SAP) e a UDN dispunha da Voz do Progresso de Iguatu (VPI).
Em 1955, nas eleições presidenciais entre Juscelino Kubitschek e Juarez Távora ocorreu o último homicídio político em Iguatu, quando o fiscal do PSD, Antônio Holanda Lavor foi ferido à bala, por partidários da UDN, numa seção eleitoral no distrito de José de Alencar. Dias depois morreu.
O pesquisador Wilson Lima Verde lembra que o pleito de 1958, ano em que o Estado do Ceará enfrentou uma das maiores secas, foi marcado por denúncias da oposição de desvio de verbas públicas contra dirigentes do Dnocs e dos responsáveis pelo alistamento de agricultores vítimas da estiagem nas frentes de serviço.
Compra de voto
Para Wilson, as primeiras denúncias de compra de voto ocorreram nas eleições de 1963. “Os candidatos começaram a distribuir roupas, chinela japonesa que era novidade, e davam dinheiro em troca de voto”, conta. “Antes ninguém ouvia falar nisso”. O pesquisador observa que antes de 1946 não havia o voto feminino e a votação a “bico de pena” era definida pelos coronéis.
Nas eleições municipais de 1976, o então candidato do MDB, Marconi Matos, trouxe balões infláveis e elaborou cartazes com linhas modernas, com slogan e marcas unificadas. Inaugurava um jeito novo de fazer campanha, que hoje se denomina de marketing eleitoral. No pleito de 1988, quando foi eleito o médico Hildernando Bezerra, houve showmícios, uso de outdoors e de material de campanha padronizado.
Definiu-se um plano de governo, com propostas em várias áreas. Há 20 anos, portanto, ganhava força as campanhas tidas como modernas, com uso de material colorido, e intensificação de paródias. O tempo dos discursos era controlado e havia a presença de um grupo musical nos comícios que animava a platéia.
HONÓRIO BARBOSA
Repórter
DISPUTA
1954 foi um ano em que as eleições para escolha de deputados federais, estaduais e governador ocorreram conjuntamente com o pleito para prefeito. Em Iguatu, o evento foi bastante disputado
Iguatu. Uma das eleições mais movimentadas e animadas desse município foi a de 1954, quando o médico Mendonça Neto (UDN) enfrentou o advogado Meton Vieira (PSD). Naquela época, o pleito era realizado conjuntamente com a escolha de deputados federais, estaduais e governador. Nessa conjuntura, houve o embate entre o compositor Humberto Teixeira e Adahil Barreto Cavalcante, ambos disputando vaga na Câmara Federal.
As forças políticas locais dividiam-se no apoio aos seus candidatos. Aliado do ex-prefeito e médico, Manoel Carlos de Gouvêa, uma das maiores lideranças políticas do município, o compositor Humberto Teixeira realizou comícios na região Centro-Sul, ao lado do parceiro e músico, o “Rei do Baião” Luiz Gonzaga.
De volta à sua terra natal, Iguatu, Humberto Teixeira tentava conquistar eleitores. Os comícios ganharam novas características com muita música e animação, mas os discursos ainda continuavam longos. “Hoje, os candidatos falam pouco, mas, naquela época, ficavam horas e horas discursando”, lembra o pesquisador e aposentado, Wilson Lima Verde, 73 anos. “Não saía ninguém e as pessoas paravam e ficavam atentas aos pronunciamentos”.
Wilson Lima Verde votou, pela primeira vez, nas eleições de 1954. “Foi um pleito movimentado, com uso de músicas, bandeiras e panfletos”, recorda. A modernização começava a chegar ao Interior. Os materiais impressos eram feitos em gráficas de Fortaleza.
Lembrança
A presença do “Rei do Baião”, Luiz Gonzaga, e do doutor do baião, Humberto Teixeira, atraía o público. Eles trouxeram outros cantores do Rio de Janeiro e músicos acompanhavam os comícios. Uma das canções criadas para o pleito marcou a geração da época, e muitos não esquecem. Wilson Lima Verde recorda cada estrofe da música que virou sucesso: “É peia, peia, peia/Iguatu foi um estouro/Quando vi Dr. Gouvêa/Botar meu chapéu de couro/O doutor Humberto Teixeira/ doutor do meu baião/E o doutor Hugo Gouvêa/Tá com ele meu irmão/”. Nesse mesmo pleito, após a realização de um comício no distrito rural de Suassurana, onde se dizia existir onças, criou-se um jingle que tinha uma estrofe na qual os eleitores cantarolavam: ‘É onça, onça pra engolir Dr. Mendonça’.
Terminada a eleição, o resultado foi favorável ao médico Mendonça Neto. E não tardou para que o professor e jornalista Antônio Nogueira desse a resposta: ‘Mas a onça foi ligeira, já engoliu Meton Vieira’. Até hoje, essas músicas são cantadas por eleitores da época.
O ex-prefeito, Mendonça Neto, 99 anos, lembra das paródias e sorri ao cantar a estrofe que lhe é favorável. “Acabei ganhando do candidato de Dr. Gouvêa”, diz. “Naquele tempo, havia mais respeito entre os candidatos e os eleitores. Não era como as campanhas de hoje, em que há muita baixaria”.
A prima de Humberto Teixeira, a radialista Marlene Teixeira, lembra que o compositor vinha a Iguatu cheio de emoção e de alegria. “Foi uma campanha bonita, muito movimentada”, recorda. “Luiz Gonzaga e outros músicos da época animavam os comícios”.
O agrônomo Tenório Cavalcante Assunção observa que nas eleições anteriores à redemocratização ocorrida em 1985, havia uma disputa polarizada entre o PSD e a UDN, com candidatos praticamente se revezando no poder local. “As pessoas acreditavam nos políticos, trabalhavam por amor e os vereadores não eram remunerados”, observa.
A história mostra que havia muitos discursos inflamados. Durante a época, Iguatu não dispunha de emissoras de rádio. A turma do PSD usava o serviço de alto-falantes Santo Antônio dos Pobres (SAP) e a UDN dispunha da Voz do Progresso de Iguatu (VPI).
Em 1955, nas eleições presidenciais entre Juscelino Kubitschek e Juarez Távora ocorreu o último homicídio político em Iguatu, quando o fiscal do PSD, Antônio Holanda Lavor foi ferido à bala, por partidários da UDN, numa seção eleitoral no distrito de José de Alencar. Dias depois morreu.
O pesquisador Wilson Lima Verde lembra que o pleito de 1958, ano em que o Estado do Ceará enfrentou uma das maiores secas, foi marcado por denúncias da oposição de desvio de verbas públicas contra dirigentes do Dnocs e dos responsáveis pelo alistamento de agricultores vítimas da estiagem nas frentes de serviço.
Compra de voto
Para Wilson, as primeiras denúncias de compra de voto ocorreram nas eleições de 1963. “Os candidatos começaram a distribuir roupas, chinela japonesa que era novidade, e davam dinheiro em troca de voto”, conta. “Antes ninguém ouvia falar nisso”. O pesquisador observa que antes de 1946 não havia o voto feminino e a votação a “bico de pena” era definida pelos coronéis.
Nas eleições municipais de 1976, o então candidato do MDB, Marconi Matos, trouxe balões infláveis e elaborou cartazes com linhas modernas, com slogan e marcas unificadas. Inaugurava um jeito novo de fazer campanha, que hoje se denomina de marketing eleitoral. No pleito de 1988, quando foi eleito o médico Hildernando Bezerra, houve showmícios, uso de outdoors e de material de campanha padronizado.
Definiu-se um plano de governo, com propostas em várias áreas. Há 20 anos, portanto, ganhava força as campanhas tidas como modernas, com uso de material colorido, e intensificação de paródias. O tempo dos discursos era controlado e havia a presença de um grupo musical nos comícios que animava a platéia.
HONÓRIO BARBOSA
Repórter
DISPUTA
1954 foi um ano em que as eleições para escolha de deputados federais, estaduais e governador ocorreram conjuntamente com o pleito para prefeito. Em Iguatu, o evento foi bastante disputado