Longa-metragem reconta história da colonização do Ceará
Sertão dos monólitos se transforma em cenário histórico de filme longa-metragem em busca das origens cearenses
Quixadá. Dia desses a genuinidade cultural do Ceará, que outrora campeava em caravanas por onde os ventos soprassem, se encostou por aqui, nos aconchegos do sertão dos monólitos. Amanheceu e adormeceu ao canto do bem-te-vi. Era Rosemberg Cariry, cineasta com mania de transformar o comum em belo. Encontrou no chão rachado e no mato acinzentado pelo castigo da seca a essência para sua mais recente obra cinematográfica: Siri-Ará, produção de narrativa épica que se equilibra entre a ficção e o documentário em busca dos significados dramáticos da construção da nação cearense através das artes e saberes populares.
E as primeiras cenas surgiram com os raios de sol desabrochando entre imensos lajedos, anunciando o amanhecer, suave feito jeito de moça em busca do primeiro beijo. Macias também eram as mãos de Cioran, pintor e poliglota de seus 70 anos, personagem do enredo que havia se exilado na Europa durante a ditadura militar e, após abandonar a família, retornava à sua terra no início do século XXI. Acompanhado da velha índia Coracy, passava a vagar pelo sertão, pintando em couro de bode os retratos da conquista do Ceará pelo exército colonizador do explorador dom Pero Coelho de Sousa, primeiro representante da Coroa Portuguesa a receber o título de capitão-mor para iniciar as explorações na nova terra.
Acompanhando o roteiro cinematográfico, duas caravanas de artistas populares surgiam por aqueles caminhos. Peregrinavam da cidadela sagrada de Juazeiro do Norte para compromisso religioso com Nossa Senhora das Candeias.
Numa delas, a Banda de Pífanos do Mestre Jacaúna e seus índios Cariri a seguirem a menina-princesa Cajuí. Na outra, rei, rainha, as três filhas princesas, embaixadores e guerreiros brancos, com espadas reluzentes e capacetes enfeitados de fitas e espelhos, a formarem o Reisado de Baile.
Cruzaram ali mesmo, no meio do sertão quixadaense, entre mandacarus e xique-xiques, sob um sol de arder até o pensamento. E do encontro dos dois folguedos populares, interpretados pela Banda de Pífanos dos Irmãos Aniceto e do Reisado do Mestre Aldenir, grupos tradicionais do Cariri — convidados a contracenarem a trama — surgiam os conflitos e acontecimentos dramáticos que recontam a história de colonização do Ceará.
São eles que travam a luta final. As cenas revelam uma nação submersa, revolvida pelo vendaval da história, proscrita de dúvidas e ferida de morte pelos desmontes dos seus acervos memoriais.
Havia se passado um mês. As últimas cenas do Siri-Ará — palavra indígena da língua tupi que deu origem ao nome Ceará — eram gravadas nos arredores de Quixadá, no Sertão Central, distante 157km de Fortaleza. Mais de 180 atores, figurantes e técnicos de produção se despediam da “Terra dos Monólitos” levando na bagagem memórias históricas, culturais e dramáticas que se embaralharam entre a ficção e a realidade. Parte dessa história estreará em breve em algum festival a ser escolhido pelo produtor.
Alex Pimentel
Colaborador