Grupo de mulheres extrai o sustento do mar e contribui para preservação do ecossistema, em Icapuí

O projeto "Mulheres de Corpo de Algas" alia conhecimento e responsabilidade ambiental no cultivo sustentável das algas. A matéria-prima é transformada em alimentos e cosméticos.

Há incontáveis anos o homem aprendeu que o mar, além de unir continentes e nações, ofertaria também alimento e renda. Em Icapuí, no litoral leste cearense, a cidade cresceu e se desenvolveu sob esse prisma.

Retirar das águas salgadas peixes, camarões e lagostas tem sido há décadas a principal atividade do Município que conta com pouco mais de 20 mil habitantes. Bem mais recente, há 20 anos, porém, um grupo de mulheres descobriu que as possibilidades de extrair a sobrevivência do fundo do mar iam bem mais além desses peixes e crustáceos.  

Legenda: Grupo de mulheres agrega valor as algas fabricando comésticos e alimentos diversos
Foto: Divulgação

Em 2001, oito famílias chefiadas por mulheres fundaram uma associação cujo objetivo era agregar valor as algas marinhas de forma sustentável. Para entender o nascedouro desse grupo, no entanto, é preciso revisitar o passado.

Maurício Sabino, de 46 anos, é quem explica o início dessa trajetória. Ele nasceu e “se criou” – conforme gosta de falar – em Icapuí. Assim como a maioria dos nativos, tornou-se pescador logo cedo. “Desde jovem meu pai me ensinou a pescar. Aqui a profissão é essa, quase todo mundo tira o sustento do mar”, relata. Esse sustento, no entanto, pode ter origens distintas. 

Descoberta de um tesouro 

No fim dos anos 1990 uma nova fonte de renda desponta entre os icuapuienses: a venda de algas marinhas – vegetais que podem dar tanto na terra quanto na água.

Maurício relembra que a quantidade de algas espalhadas pela faixa de areia chamou a atenção da comunidade. Logo, “empresários de outras cidades mostraram interesse em comprar o produto. Para fazer o quê a gente não sabia, só queríamos vender”, rememora o então pescador. 

Legenda: As algas marinhas são organismos fotossintetizantes e foram um dos primeiros seres a habitar o planeta
Foto: Kid Júnior

A notícia da ampla demanda se espalhou e o mercado cresceu. Além de colher da areia as algas trazidas pela maré, começou a extração do banco natural. Em 2000, Maurício conta que eram comercializadas cerca de 15 toneladas por semana, ao preço de, “no máximo”, 40 centavos o quilo. 

O negócio começou a dar tão certo que muitos trocaram a pesca pela venda algas. Eu fui um desses. Não tinha o risco de passar dias e mais dias dentro do mar, não tinha o desgaste, a gente estava perto da família, enfim, a escolha foi trocar de profissão.
Maurício Sabino
Algicultor

O produto era exportado para estados vizinhos, como a Paraíba, e depois vendido por atravessadores para fora do País. A renda que ficava com os icapuienses, no entanto, era mínima. 

Degradação e recomeço 

O problema é que os tempos dourados não tiveram vida longa. A retirada do vegetal em demasia cobrou um alto preço. “Alguns anos depois já deu para notar a queda do banco natural. A alga começava a dar sinais de que poderia sumir aqui do nosso litoral”, relata a artesã Aldeneide Maria da Silva.

A quase escassez do recurso natural motivou a criação de um projeto sob a curadoria da Fundação Terra Mar e da qual as mulheres viriam a ser protagonistas. Nascia então, em 2001, o projeto Mulheres de Corpo e Algas, a qual Aldeneide faz parte. No nascedeouro do projeto, eram 22 mulheres e 5 homens.

O objetivo inicial era desenvolver uma extração sustentável das algas através do plantio em cordas. Esse cultivo assemelha-se ao da ostra. A plantação é feita no mar, a uma distância de até 3 km da areia. As algas são afixadas em canos flutuantes.

A cada 15 dias, é preciso fazer a manutenção do cultivo que consiste em puxar as cordas que estão no fundo do mar para, então, para fazer a limpeza das algas.

Legenda: A plantação é feita no mar, a uma distância de até 3 km da areia. A cada 15 dias, é preciso fazer a manutenção do cultivo
Foto: Kid Júnior

A sujeira acumulada impede que a luz do sol atue sobre elas e as algas param de crescer. Esse trabalho é feito pelos algicultores, termologia essa que Maurício desconhecia até a chegada do projeto sustentável. 

Hoje, no entanto, ele não apenas conhece o termo – atribuído à pessoa que planta algas marinhas – como domina bem as técnicas. Hoje ele acumula as funções de pescador e algicultor.

“A manutenção é importante também para checar se as cordas não se desprenderam ou se foram comidas por peixes. Por isso eu criei essa espécie de gaiola com canos para evitar que o pescado entre aqui e destrua o cultivo”, explica Maurício. Ele é um único homem remanescentedo projeto. As mulheres, além de também realizarem o plantio e cultivo das algas, atuam no beneficiamento do produto.

Maria Marli da Costa Soares integra o 'Mulheres de Corpo e Algas' desde a sua fundação. Das 22 que iniciaram, ela é uma das 6 que permanecem até hoje. A artesão, ou 'algueira', como popularmente também é chamada, relembra que o cultivo, antes desenfreado, hoje é regido pela lua.

É ela quem determina quando o algicultor pode entrar ao mar e fazer a retirada do recurso. Já o processo de colheita e replantio é feito a cada três meses. "Tem um tempo certo de ir ao mar. Isso a gente foi aprendendo ao longo dos anos", relata Marli. Mauricio ilustra esse processo de retirada da matéria-prima:

A maré tem que está bem baixa. Quando é lua cheia ou lua nova, a gente consegue avançar mar a dentro a pé, com a maré bem baixa. Lá pras tantas a gente pega uma pequena embarcação só para auxiliar a volta com as algas.
Maurício Sabino
Algicultor

Uma nova era 

Após um período de baixa, os "tempos dourados" de outrora surgiram novamente no horizonte. Dessa vez, não era a farta disponibilidade de algas que iluminava a atividade, mas o valor agregado que as integrantes do 'Mulheres de Corpo e Algas' aprenderam a imprimir a esses organismos do reino vegetal.

Legenda: O projeto 'Mulheres de Corpo e Algas' fabrica uma série de produtos a base de algas
Foto: Kid Júnior

O quilo in natura que antes chegava ao valor máximo de R$ 0,40 centavos agora produz até 50 produtos. São shampoos, sabonetes líquidos e em barra, geleias, sorvetes, pizza, iogurte e uma infinidade de outros itens fabricados a base de algas. "Foi uma transformação em nossas vidas", alegra-se Aldeneide. 

Para alcançar este patamar, as mulheres precisaram aprimorar seus conhecimentos sobre o produto. Antes, muitas desistiram do Projeto. "No início, há uns 20 anos, não tinha nenhuma renda. A gente não ganhava. Então muitas desacreditaram e saíram em busca de outros trabalhos. Restaram 6 mulheres e um homem", acrescenta Marli.

A mudança no beneficiamento iniciou há dez anos quando as integrantes do projeto passaram por um treinamento ministrado pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e aprenderam a fazer cosméticos e alimentos com o produto. 

Legenda: Processo de cozimento da alga para, posteriormente, ser produzido geleia
Foto: Kid Júnior

"No início foi difícil por dois motivos. A gente não tinha prática, então errávamos e perdíamos muitas algas. E, segundo, o gosto não era bom. Quem consumia os alimentos dizia que tinham gosto de mar", recorda Aldeneide bem humorada. Essa "fama" foi desconstruída com o tempo. "A gente evoluiu muito", reconhece a artesã.

A persistência das remanescente e evolução que elas conquistaram rendeu até reconhecimento nacional. O projeto foi premiado pela Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social (2009); já recebeu o Selo Mercado Mata Atlântica (2012) e foi selecionado pelo Ministério do Meio Ambiente (2012) como uma das 25 melhores práticas em agricultura familiar no Brasil.

Hoje nós, mulheres do Projeto, conseguimos viver com a renda extraída das vendas dos produtos. É muito gratificante ver nossa evolução e saber que também contribuímos com o ecossistema. Caso contrário, acredito que essas algas nem existiriam mais em Icapuí.
Aldeneide Maria
Artesã e membra do Projeto

Por mês o projeto 'Mulheres de Corpo e Algas' vende cerca de 150 produtos, rendendo "mais de um salário mínimo para cada integrante", diz Aldeneide. Os produtos são comercializados em, sua maioria, entre turistas que visitam Icapuí, e, no caso de alguns alimentos, vendidos a escolas do Município – desde 2009, uma Lei Federal determina que 30% das verbas da merenda escolar devem ser gastas com alimentos regionais.

Maria Marli vai além. "Não é só o dinheiro. Claro que ele é importante e ajuda nos sustento de casa. Mas a gente passou a se sentir importante, úteis. Antes do projeto só ficávamos em casa. Agora não, temos uma atividade e contribuímos com o meio ambiente", diz.

Processo

Para produzir os alimentos ou cosméticos as mulheres precisam seguir uma série de passos. Depois que as algas são retiradas do mar, precisam ser lavadas e secas. Este processo geralmente é feito mais de uma vez "para tirar o gosto e cheiro do mar", pontua a artesão. Na secagem, devido ao peso da matéria-prima, elas contam com o apoio de alguns homens da comunidade.

Legenda: Processo de secagem das algas
Foto: Kid Júnior

No caso da produção de panquecas, pizzas, gelatinas ou outros alimentos, as artesãs extraem o ágar, a matéria-prima que é usada no preparo das receitas. Todas estas etapas são realizadas exclusivamente pelas mulheres na casa de beneficiamento do Projeto 'Mulheres de Corpo e Alga'.

O local foi erguido pelas mãos das próprias integrantes com ajuda de nativos, como foi o caso de Maurício Sabino, que também participou da construção do espaço.

Com o desenvolvimento do projeto, o local passou por uma reforma para obedecer às determinação das Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Os setores de prodição dos cosméticos e alimentos estão separados. Ao fim, eles passam por supervisão e análise de nutricionistas e farmacêuticas.

Legenda: Início do processo de beneficiamento das algas. A primeira etapa, após colher a matéria-prima, é lavar e secar
Foto: Divulgação

Para fazer os alimentos a alga é fervida. Já para os comésticos, elas ficam de molho por 12 horas em água fria. São processos diferentes.
Maria Marli da Costa Soares
Artesã

Benefícios 

As algas são ricas em fibra, ômega 3, potássio, têm propriedades anti-inflamatória e antioxidante, dentre outras propriedades benéficas ao ser humano. O nutricionista e pesquisador da Universidade de Fortaleza (Unifor), Antonio Augusto Ferreira Carioca, explica que a alga vermelha Glacilaria birdae - espécie utilizada pelas mulheres do Projeto - tem sido "bastante cultivada e utilizada como alimento no nordeste do Brasil". 

O especialista detalha que, em produtos alimentícios, elas "são utilizadas como agente espessante (substância que confere maior firmeza e melhor aceitabilidade sensorial)" e, em estudos com animais, "essa alga reduziu ganho de peso e glicose dos ratos e aumentou a capacidade antioxidante". 

O nutricionista Sandoval Albuquerque, acrescenta que as fibras presentes nas algas ajudam a aumentar a saciedade e a reduzir o apetite, contribuindo no processo de perda de peso. Elas têm ainda têm propriedades termogênicas, que ajudam a estimular o metabolismo e, consequentemente, eleva a quantidade de calorias gastas por dia.

"Elas [as algas] são classificadas como superalimentos, termo que na nutrição empregamos a alimentos naturais com enorme concentração de nutrientes como vitaminas, fibras, minerais, antioxidantes e ácidos graxos fundamentais para a manutenção da saúde e da qualidade de vida das pessoas", destaca Albuquerque. 

Augusto Carioca explica ainda que, em sua composição, as algas são ricas em carotenoides (β-caroteno). Esta substância ajuda a prevenir doenças cardíacas e a melhorar a saúde do coração. 

Outros benefícios:

  • Por serem ricas em fibras, as algas ajudam a diminuir os níveis de colesterol ruim;
  • São ricas em potássio, o que pode reduzir a pressão arterial;
  • Podem ser úteis no tratamento das úlceras do estômago por terem propriedades antioxidantes;
  • Por serem anti-inflamatórias, ajudam a reparar lesões no estômago, renovar o tecido e a proteger as células;
  • São ricas em flavonoides, compostos que aceleram o metabolismo;
  • O ômega 3 ajuda a prevenir danos causados pelo sol e o envelhecimento precoce da pele
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