Pioneirismo de carpinteiros navais impulsiona economia de Icapuí há mais de seis décadas

História de guardiões de um saber-fazer apreendido de pai para filho. No município cearense, tem família que chega até a terceira geração no ofício que consegue extrair da madeira o sustento

Legenda: Um grande barco, com 16 metros, custa em média R$ 800 mil
Foto: Kid Jr.

Quando o então carpinteiro naval, Evilásio Matias da Silva, começou a construir manualmente as primeiras jangadas há mais de meio século, ele não imaginava o impacto positivo que iria gerar à cidade de Icapuí, no litoral leste cearense. Hoje a economia do Município é alicerçada na pesca – muito embora o turismo comece a ganhar importante projeção atualmente – tendo as embarcações como principal força motriz. Mas nem sempre a atividade foi viável.  

Para ir ao mar, os pescadores tinham que adquirir embarcações construídas em cidades vizinhas. Boa parte delas vinha do Mucuripe, em Fortaleza. No entanto, importar esses aparatos navegantes não era tão acessível. Muitos se limitaram a pescas curtas e outros permaneceram na agricultura – principal fonte de renda à época. 

Aos que insistiam na atividade pesqueira almejando uma vida melhor fora da agricultura, a solução poderia ser construir as próprias jangadas, uma tarefa nada simplória para aqueles que viviam majoritariamente da lavoura e, portanto, não possuíam perícia para o ofício.  

Processo lento e desafiador  

O cenário começa a se modificar, ainda que embrionariamente, em meados de 1958. Foi naquele ano que Evilásio e seu irmão mais velho – hoje já falecido – José Martins, construíram e venderam a primeira jangada.

“Não ficou um trabalho primoroso, e nem poderia. A gente vinha da roça e eu só tinha 15 anos. Mas nos pusemos a fabricar e deu certo”, rememora Evilásio. O modelo de jangada, conta o agricultor que mais tarde se tornaria o primeiro carpinteiro naval de Icapuí, foi copiado do Mucuripe.

Legenda: Em meio a madeiras importadas, Seu Evilásio rememora os anos em que deu início a fabricação de barcos em Icapuí.
Foto: Kid Jr.

“Fomos até lá e eu vi a jangada. Fiquei olhando com atenção como eram as madeiras, o corte, os pregos e disse que iria construir. Não fui levado muito a sério, mas me dispus a fazer e não ia descansar até conseguir”, conta. 

Esse “descanso” por ele mencionado demorou a vir. Até que as embarcações de Seu Evilásio se tornassem conhecidas, ele recorda que passou “muito sofrimento”. 

Veja abaixo como é o processo de construção das embarcações: 

Da roça aos estaleiros 

A trajetória do carpinteiro começa a ser traçada quando uma grande estiagem atingiu o Ceará, na década de 1950. Sem produção suficiente para sustentar a família, o pai de Evilásio decide se mudar para o estado do Pará, levando consigo, esposa e sete filhos. “Lá era diferente. Logo no primeiro ano a gente viu que tudo que fosse plantado daria certo. Milho, arroz, feijão... tudo! Era fartura”, detalha Evilásio.  

Com o dinheiro arrecadado na primeira safra, o patriarca da família adquiri um terreno e expande a plantação. “Estava dando tudo muito certo, mas desde o início, meu pai dizia que voltaria para o Ceará, era uma promessa que mais cedo ou mais tarde ele iria cumprir”.

E assim o fez. Sete anos depois, a família retorna ao Ceará e, com as economias guardadas no período do lavoura paraense, compra uma área de plantio em Icapuí e tenta novamente a sorte em terras cearenses. 

Aliás, sorte e chuva, no Sertão nordestino, são duas palavras difíceis de serem dissociadas. Na vacância pluviométrica, o sertanejo apela à sorte para que a plantação não se perca. O problema é que as preces nem sempre são atendidas. “Eu sabia que não ia dar certo. Então resolvi buscar outras alternativas, mesmo sem ter nenhum estudo”. 

Carpinteiro autodidata  

A alternativa surgiu meio que por acaso. Em uma viagem à Fortaleza, na praia do Mucuripe, Evilásio viu as centenas de jangadas dispostas no mar e pensou em fabricá-las. Àquela altura, a pesca já tinha singular importância em Icapuí, o que sugeria ampla demanda pelas embarcações. “Restava saber como fabricar, com que dinheiro e com quais ferramentas, já que a gente não tinha nada”, brinca. 

O acaso se fez presente novamente. As madeiras utilizadas na primeira jangada – aquela mesma que foi vendida em meados de 1958 – foram doadas por um vizinho que julgou não mais precisá-las e os equipamentos, alguns foram improvisados, outros cedidos pelo avô paterno de Seu Evilásio. “O serrote, por exemplo, a gente mesmo construiu com arco de jereré. Depois passamos a utilizar um que meu avô nos deu”, ilustra. 

A mudança de patamar, ressalta Evilásio, veio com a construção de “uma jangada maior, deixando os paquetes (nome dados as pequenas jangadas) de lado”. A embarcação foi vendida por 500 mil réis. Com o dinheiro, os irmãos compraram materiais que contemplassem a construção de outras duas embarcações.

“E assim fomos nos aprimorando. As primeiras não saíram bonitas, mas eram seguras. Passamos a receber encomendas frequentemente”, orgulha-se o agora carpinteiro.  

Conquistas e ensinamentos  

Com os bons ventos que conduziam a nova atividade de José e Evilásio, os demais irmãos se encorajaram a aprender o ofício. Já com a expertise da dupla, os outros quatro irmãos – um deles seguiu outra profissão – aprenderam a fabricar embarcações de pequeno, médio e grande porte.  

A trajetória de sucesso mudou a vida da família. “A gente não passou mais dificuldade. Não depender do campo foi um alívio. Ninguém fica rico fabricando barco, mas passar dificuldade a gente não passou mais”, externa Seu Evilásio. 

Legenda: Filhos e netos de Seu Evilásio seguiram o ofício e hoje também fabricam barcos
Foto: Kid Jr

A disseminação do ofício foi além dos irmãos. Os filhos de Evilásio aprenderam o ofício e compõem hoje a segunda geração da família que se dedica a arte de fabricar as embarcações. Joacir da Silva, conhecido como Jó, é o filho mais velho de Evilásio. Hoje com 48 anos, há mais de três décadas ele se dedica a fabricação de barcos.

“Comecei a aprender com 15 anos. Meu pai sempre foi muito bom, é referência, então a gente aprendeu rápido”. 

Os quatro filhos de Seu Evilásio se especializaram em grandes embarcações. No estaleiro erguido nos fundos da casa do carpinteiro pioneiro em Icapuí, três barcos de 16 metros estão em produção. Cada filho se dedica a construção de um deles que, ao preço final chega a custar cerca de R$ 800 mil. 

Desvalorização  

As altas cifras, no entanto, não são convertidas integralmente aos fabricantes. Jó explica que o trabalho atualmente é pouco reconhecido. “O dono do barco nos procura e a gente passa o valor da mão de obra, que dependendo do tamanho do barco fica em torno de R$ 70 mil. O restante é o dono que assume, como as compras da madeira, tintas, ferro, motor, etc”.

Para Jó, o valor da mão de obra hoje tem uma defasagem de 30%. “É mal remunerado”, avalia o carpinteiro. O barco em que Joacir está trabalhando tem 16 metros e o processo de fabricação dura cerca de 11 meses.

“Quando a gente dilui esse valor em todos esses meses e depois retira o pagamento dos ajudantes, nosso salário mensal, digamos assim, é reduzido”, detalha Jó. Ainda assim, reconhece, o ofício é “mais vantajoso que a agricultura”. 

Essa visão fez com que os netos de Seu Evilásio também fossem inseridos na arte de fabricar barcos. Jeovane Costa é o mais novo do estaleiro. Filho de Jeová Costa da Silva, 46, o jovem se espelha no avô e diz querer manter viva a tradição familiar. 

"Estou aprendendo. Tem uns dois anos que vim para o estaleiro. É um trabalho pesado e de muita responsabilidade, principalmente pela história da nossa família”, diz. 

Jeovane é um dos três netos de Evilasio que estão no estaleiro. Eles formam a terceira geração de carpinteiros da família que aprendeu a extrair da madeira um futuro melhor.

“Estou aposentado há uns 7 anos. A idade chega para todo mundo, mas estou direto aqui dentro do estaleiro. Fico andando, vendo a fabricação e conversando com eles. Me orgulho de ter aberto essa possibilidade de um futuro melhor para nós e para nossa comunidade. Tomara que perdure”, anseia Seu Evilásio. Se depender dos netos, a tradição vai longe.

“Um dia quero poder ensinar para meus filhos”, conclui o neto Guilherme Carvalho, 23.  

Importância da atividade

O "futuro melhor", ao qual Seu Evilásio se reporta, não é uma exclusividade de sua família. O doutor em Ciências Marinhas Tropicais, Miguel Sávio de Carvalho Braga, destaca que os carpinteiros navais tiveram singular importância no desenvolvimento das localidades litorâneas. 

Sávio explica que a produção de barco "ajudou a impulsionar a pesca" e expandiu as possibilidades de obtenção de renda. "Essas pessoas, em sua maioria analfabetos, mas com impressionante conhecimento sobre diversas técnicas, começaram a ter uma boa renda, tanto da pesca, quanto na produção de barcos. É uma relação proporcional. Iam surgindo mais pescadores e consequentemente a fabricação de embarcações crescia. Isso gerou desenvolvimento. Os carpinteiros navais foram fundamentais nesse aspecto", considera. 

No entanto, o ofício hoje é pouco reconhecido, critica o doutor em Ciências Marinhas. "Sobretudo àqueles que se dedicam a fabricação de barcos pequenos. A renda é limitada. Por essa razão, muitos acabam desistindo". Como uma das soluções para amparar esses trabalhadores tradicionais e perpetuar o ofício, Sávio destaca que deveria haver incentivos governamentais.

Acredito que essa fabricação de pequenos barcos poderia ser subsidiada. Quanto as grandes embarcações a análise é diferente. São projetos mais caros e que rendem mais dinheiro, mas os pequenos artesãos, que ainda mantém o método de fabricação, deveriam ter alguma assistência financeira. Reduziria seus custos e, por conseguinte, aumentaria a renda. Certamente a profissão voltaria a ser mais atrativa.
Miguel Sávio
Doutor em Ciências Marinhas Tropicais

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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