Ferreiros de Lagedo mantêm tradição familiar de 100 anos

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Foto: Honório Barbosa

Na localidade de Lagedo, na zona rural do Município de Cedro, na região Centro-Sul do Ceará, às margens da rodovia estadual CE-153, encontra-se um núcleo familiar que mantém uma tradição que ultrapassa cem anos. São os ferreiros da família Víctor Correia Lima que trabalham a arte de forjar o ferro, produzindo ferramentas agrícolas.

Os ferreiros do Lagedo são conhecidos em vários Estados do Nordeste pela qualidade das peças que produzem. Nas ferramentas, a marca ´Victor´ passou a ser sinônimo de excelência. De acordo com o levantamento histórico feito pela secretária de Turismo do Município de Cedro, Perpétua Braga Costa de Oliveira, a implantação da primeira oficina ocorreu no final do século XIX.

Por volta de 1890, Victor Correia, que veio da região de Juazeiro do Norte, instalou sua primeira oficina com fole e bigorna (onde são moldadas as peças), numa coberta de taipa. De lá para cá, a arte dos ferreiros não cessou e foi se espalhando pelos descendentes. Filhos, netos, bisnetos deram continuidade ao ofício. Hoje se encontra na quarta geração. Na comunidade de Lagedo praticamente todos são descendentes da família que mantém a tradição com dezenas de unidades de produção.

Hoje em dia, cerca de 100 pessoas vivem das oficinas de ferreiros, produção e comercialização das peças. O curioso é que o nome do pioneiro, Víctor Correia, virou sobrenome e a partir dos filhos foi se perpetuando. Nasceu assim, a família Vitor, sem a letra ´c´, cuja palavra passou a ser pronunciada com tonicidade na última sílaba. Virou palavra oxítona.

Francisco Lima Vitor, 54 anos, aprendeu com o pai, Gustavo Vitor de Lima, o ofício de ferreiro. Ele é neto do patriarca da família. Todos os tios dele, Luís, Lourenço, José, Justino e Chagas seguiram a profissão, na localidade de Lagedo. O mesmo ocorreu com os irmãos, Antônio, Francisco, Francinete e José. Nos anos 60, Chico Vitor e José Vitor vieram para a cidade de Iguatu, em busca de novo mercado consumidor de suas ferramentas.

Na localidade de Lagedo, ficou a maioria. Primos e filhos seguiram o ofício de ferreiro. “Naquele tempo era mais fraco, as coisas eram mais difíceis. Agora tudo está melhor”, conta Francisco Lima Vitor. “Não havia energia elétrica e as peças de ferro eram soldadas em caldeirão com fogo e areia. Isso era uma dor de cabeça”. Ele lembra também que na época que havia cultivo de algodão, nas décadas de 1950 a 1970, as vendas eram boas.

Na localidade de Lajedo, o trabalho dos ferreiros começa ainda pela madrugada. Às 3 horas da manhã, o tilintar dos ferros, ecoa entre as casas, nas 20 oficinas que funcionam diariamente. Marretas, ferro aquecido e bigorna, fazem um som comum aos moradores. “Não incomoda. A gente está acostumada”, diz Francisca Valdenira, casada com Francisco Lima Vitor, que ajuda nos negócios, vendendo a produção por telefone.

A comercialização é feita para diversos municípios do Ceará e para outros Estados, como Rio Grande do Norte e Paraíba. Cada ferreiro tem a sua área de venda. Em média, cada um produz por dia, 12 peças. O trabalho é feito em dupla (ajudante e o mestre ferreiro). A maioria das ferramentas é vendida por R$ 10,00 (foice, machado, roçadeira, chibanca, cavador e picareta). A alavanca custa mais, R$ 20,00 e o enxadeco e rastelo sai por R$ 8,00, cada.

Os negócios vão bem e as famílias vivem bem instaladas em oficinas e casas de alvenaria, com energia, e dispõem de eletrodomésticos e eletroeletrônicos. Em média, um ajudante ganha por mês, R$ 400,00 e um ferreiro, R$ 2 mil. A produção e a venda variam por época. De janeiro a abril, por exemplo, é o tempo da roçadeira e do enxadeco. Parte das ferramentas ficam em estoque aguardando o momento certo de comercialização.

Honório Barbosa
Sucursal Iguatu