Crianças contam a história do Ceará em peça musical

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Redação producaodiario@svm.com.br
Espetáculo é encenado por alunos do projeto Aprendendo com Arte, da Fundação Raimundo Fagner, em Orós

Iguatu. No sertão cearense, crianças e adolescentes apresentam espetáculo de teatro e música, que emociona o público. Beleza, história, aspectos econômicos, culturais e religiosos da formação da nossa gente estão presentes na peça "Siará Grande", encenada por alunos do projeto Aprendendo com Arte, da Fundação Raimundo Fagner, das unidades de Orós e Fortaleza.

Mais de 100 jovens atores e músicos, que formam a orquestra e o coral, prendem a atenção do público para expressar um roteiro que fala da formação da identidade do povo cearense Fotos: Honório Barbosa

O espetáculo cênico musical encantou a plateia no Teatro Pedro Lima Verde, na cidade de Iguatu, na região Centro-Sul, em duas recentes apresentações. Mais de 100 jovens atores e músicos, que formam a orquestra e o coral, mostraram segurança, harmonia e prenderam a atenção do público para expressar um roteiro que fala da formação da identidade do povo cearense no final do século XVIII e início do século XIX.

O sertão cearense vivia o período de sua colonização, o ciclo do gado e do couro. A narrativa de "Siará Grande" ocorre nas Ribeira do Icó, uma das mais antigas cidades do Estado, banhada pelo Rio Salgado. Uma família de judeus portugueses, convertida ao cristianismo, veio para o Brasil, através de Pernambuco, e ganhou do governador da província uma data de sesmaria.

Em Icó, a família enfrenta o choque cultural, dos modos e costumes do sertão cearense, do encontro do caboclo com o índio, da cura de doenças por pajelança, presságios, maus espíritos, da economia rural e pressão de um bispo ávido por doações generosas para a igreja.

O texto, leve, e com pitadas de humor, é de autoria do arquiteto e teatrólogo, Brennand Bandeira. A direção do espetáculo é de Neidinha Castelo Branco. A direção musical é de David Castelo e a regência da orquestra de flauta, violino e percussão é de Ezequiel Moreira.

O figurino e adereços têm assinatura de Carri Costa, que utilizou como principal material de confecção das peças, a estopa.

Para ver e ouvir

A peça tem duração de 50 minutos e começa com um expressivo número de atores no palco, dançando, em forma que lembra um navio singrando os mares até a província de Pernambuco. A direção artística musical é de David Castelo, que fez uma pesquisa de canções barrocas para o espetáculo.

Ezequiel Moreira compôs ´Passagem para Icó´, especialmente para o espetáculo, que se encerra com o coro cênico interpretando a ópera ´La Púrpura de La Rosa (Loa), de Tomás de Torrejón y Velasco.

A peça é fruto de um longo trabalho realizado ao longo de 2011 e 2012. Nesse período, foram realizadas oficinas de música, teatro e história das artes, além de um processo de pesquisa, construção do roteiro, composição musical, coreografia, concepção do cenário e figurino.

"A Fundação Raimundo Fagner (FRF) por meio do Projeto Aprendendo com a Arte vem trabalhando com os alunos a história da arte e da música", explicou Ezequiel Moreira. "É um estudo cronológico que resultou na produção de outros dois espetáculos, sobre Romeu e Julieta, e os Jesuítas", complementou.

Rebeca Lemos, coordenadora administrativa da fundação, disse que o espetáculo cênico musical envolve mais de 100 pessoas entre atores e equipe técnica. "O custo de montagem da vem de patrocínios de empresas por meio da Lei de Incentivo à Cultura, editais e de verbas públicas", explicou Rebeca.

Depois de dois anos de pesquisa, montagem e ensaios, "Siará Grande", foi apresentado em novembro passado, no Theatro José de Alencar, em Fortaleza, e agora em Iguatu.

"Queremos chegar a outras cidades, Aquiraz, Sobral, Viçosa do Ceará e na região do Cariri´, observou Rebeca Lemos.

Toque diferenciado

A diretora cênica, Neidinha Castelo Branco, conseguiu dar ao espetáculo épico, um tom de leveza e alegria. "Contamos a história por meio do lúdico e fugimos de uma pesa pesada, com narrativa longa", disse.

"Na minha avaliação, o resultado está maravilhoso, belo e alegre". Crente de que a arte é provocadora e transformadora, Neidinha Castelo Branco, acredita ter contribuído para o crescimento intelectual dos jovens atores e formação de plateia.

O diretor musical David Castelo diz que "Siará Grande" mostra que o processo de colonização do Ceará foi bravio ante a resistência indígena à invasão europeia. "O cearense desfruta de um lindo tesouro cultural, somos poetas, moleques, comerciantes, sertanejos, resistentes", frisou em seu texto de apresentação ao espetáculo.

Para o diretor, os personagens, dom Miguel, o vaqueiro José, o padre Bartolomeu, Pedrinho e outros são representantes de todos nós no palco da vida e da nossa história que foi forjada em terras áridas entre conflitos e conquistas, alegria e sofrimento, medo e bravura, fé e religiosidade popular que colhemos como legado dos nossos colonizadores. "Os nossos valores trazemos do passado e vamos deixá-los como herança para os nossos filhos", reforçou.

ENQUETE

O que o projeto representa na sua vida?

"Depois de dois anos de muito esforço, ensaios, estamos colhendo os frutos do reconhecimento do público. O que eu mais gosto na fundação é a possibilidade que a gente tem de aprender música e teatro"

Luana Beatriz Machado
Aluna

"A fundação é um espaço muito bom de aprendizagem, de conhecer novas coisas, como a história da arte e da música, de formar novos amigos. Meu sonho é ser ator. Aqui, tenho a chance de dar os primeiros passos".

Edgar Custódio
Aluno


Fundação beneficia 400 pessoas no CE

Orós. As ações sociais, educativas, culturais e esportivas da Fundação Raimundo Fagner surgiram em 2000, a partir de uma parceria com o Projeto AABB - Comunidade, na cidade de Orós. Em 2003, chegou a Fortaleza. Hoje, as duas unidades atendem a 400 crianças e adolescentes que diariamente têm atividades diversas, mas o foco é a formação musical: canto coral, violão, flauta, reforço escolar, artes plásticas, esporte, informática e cidadania.

Crianças e jovens aprendem a cantar, atuar e, principalmente, são motivados a desenvolver suas habilidades musicais e ampliar autoestima durante as atividades promovidas pela Fundação Raimundo Fagner

Integrantes do projeto Aprendendo com a Arte sonham em ser músicos, atores e atrizes. Sentem-se orgulhosos em serem reconhecidos, aplaudidos em suas apresentações teatrais e musicais. "Quer representar, ser ator e cursar uma faculdade de arte cênica", diz com confiança, o estudante, Edgar Custódio Euclides. João Marcos Jacinto, há dois anos, na FRF, no curso de violão, revela: "já aprendi muitas músicas e tudo que sei devo a fundação. Os professores são maravilhosos".

Lucas Barbosa de Araújo, flautista, conta que a mãe tem orgulho dele. "Fico feliz por meu esforço, aprendizagem e reconhecimento das pessoas". Anny Caroline Moreira tem sentimento semelhante. "Depois que entrei na fundação melhorei muito, estudo mais e me relaciono melhor com os colegas", comenta.

"Nunca imaginei subir em um palco e representar", diz Andressa Custódio. "Estou orgulhosa". Luana Beatriz fala do esforço do grupo, de dois anos de ensaios. "Valeu a pena e espero que a cada apresentação a gente faça o melhor possível", assinala.

Márcia Luana Custódio revela que fica ansiosa antes das apresentações de teatro e música. "Dá um frio", fala. "Cantamos e tocamos com Fagner em um show em Orós, que foi muito bom e bonito", alegra-se. É verdade. Uma multidão estimada em 10 mil pessoas aplaudiu com intensidade a apresentação do coral da fundação.

Melhorias

A coordenadora de projetos da FRF, Sandra Queiroz, disse que os alunos têm melhor autoestima, aprendizagem no ensino regular e bom comportamento. "Temos acompanhamento de psicólogo, de assistentes sociais e dos educadores", frisa. "O nosso esforço é oferecer uma formação cidadã, não apenas a música ou a arte pela arte".

Há 13 anos, uma semente no meio do sertão começava a germinar. Nasciam os primeiros frutos da música, da arte, de uma nova proposta de educação continuada que daria vida nova aos jovens do município de Orós.

Na FRF, as crianças e os jovens aprendem a cantar, atuar e, principalmente, são motivados a desenvolver suas habilidades musicais. As atividades acontecem pela manhã e a tarde. Os alunos participam de um programa educacional diferenciado das escolas convencionais. É um local onde os jovens são integrados diretamente com a música e os seus respectivos dons são avaliados desde o primeiro dia em que ingressam na entidade.

A entidade não possui fins lucrativos e só atende a crianças que são admitidas por um teste de seleção. Dessa forma, todos os atendidos pela fundação assumem a responsabilidade e o compromisso de cumprir as regras e de respeitar os demais colegas.

De acordo com a coordenadora local, Janete Vieira, os alunos fazem testes para conhecer quais as habilidades que cada um terá de desenvolver no período de permanência na instituição. Assim, as crianças podem ingressar a partir dos 7 anos e sair somente aos 17 e estarão aptas para dar continuidade à carreira de músicos, caso desejem. Esse tempo, para os alunos, resume-se em uma nova vida.

Participação

A Fundação Raimundo Fagner especifica alguns critérios para que as crianças participem dos projetos. Além da prova de admissão, são analisadas as condições salariais da família do novo aluno. É preciso saber se os alunos pertencem às famílias de baixa renda e o rendimento deles na escola também é avaliado.

O resultado da preocupação com os alunos que ingressam na instituição é motivado pela qualidade do profissional que está apto a deixar a instituição. "Já saíram alunos daqui que hoje são professores de teatro, educadores, observa a diretora administrativa, Tereza Tavares. A instituição tem um papel muito importante para a comunidade, uma vez que a cidade de Orós ainda carece de trabalhos sociais na área da cultura.

HONÓRIO BARBOSA
REPÓRTER