Aumento no número de queimadas exige mudança de gestão e estratégia do Corpo de Bombeiros e ICMBio

Cerca de 92% das ocorrências no Ceará acontecem no segundo semestre do ano. No Cariri, a preocupação é redobrada. Um grande incêndio na Flona Araripe, no final do ano passado, destruiu o equivalente a dois mil campos de futebol

Legenda: Após incêndio ocorrido em 2019, estima-se que a recuperação da Flona do Araripe deve levar pelo menos 30 anos, já que depende de vários elementos, como clima e as especificidades de cada espécie.
Foto: Antonio Rodrigues

chegada do segundo semestre, que concentra os meses mais quentes do ano, liga o alerta para o aumento no número de queimadas no Ceará. É neste período, de chuvas escassas, que o Cariri sofre os maiores danos ambientais. 

No fim de dezembro do ano passado, um incêndio na Floresta Nacional (Flona) do Araripe, entre os municípios de Barbalha e Jardim, consumiu 2.326,4 hectares de vegetação, o equivalente a dois mil campos de futebol. Foram nove dias de combate às chamas com participação de mais de 100 voluntários. O trabalho só foi encerrado no dia 1º de janeiro, deixando impactos que serão sentidos por pelo menos três décadas. 

Preocupados em evitir ou reduzir danos desta magnitude, Corpo de Bombeiros da região do Cariri e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) se mobilizaram. Em maio, houve uma mudança de modelo de gestão no ICMBio, unificando quatro unidades de conservação: Flona Araripe, APA Araripe, Estação Ecológica de Aiuaba e a Flona Negreiros, em Pernambuco.

A mudança impactará diretamente no combate aos incêndios florestais. Chefe do Núcleo de Gestão Integrada ICMBIo no Araripe, Carlos Augusto Pinheiro, explica que a partir da junção destas unidades foi possível alocar três brigadas para a região, incluindo uma com 20 combatentes apenas na região da Flona. O processo seletivo se encerrou no mês passado.

“A pandemia trouxe uma nova característica, que foi buscar brigadistas com mais experiência, que conheçam a região, para gastar menos tempo na formação”, explica.

Legenda: Neste ano, o Ceará decretou, pela primeira vez em sua história, situação de emergência ambiental com o objetivo de mitigar os impactos dos incêndios florestais.
Foto: Antonio Rodrigues

A partir deste mês de agosto, serão iniciados os trabalhos de educação ambiental, que vai percorrer as comunidades. Além disso, em parceria com a Sociedade Anônima de Água e Esgoto do Crato (SAAEC), que possui uma brigada voluntária, as ações de conscientização serão estendidas. 

“Este ano é um ano muito preocupante, porque quando tem um bom regime de chuvas, a tendência é que o material botânico aumente. No período mais crítico, de outubro a dezembro, pode-se criar mais material de incêndio. Por isso, buscamos pessoas mais experientes”, observa Carlos.  

Com o objetivo de prevenir os incêndios florestais, o 5º Batalhão de Bombeiro Militar, em Juazeiro do Norte, composto por três companhias, também lançou a "Operação Floresta Branca”, que foi elaborado a partir de um planejamento, ainda no primeiro semestre, por conta do grande impacto causado pelos incidentes ano passado. “A gente sistematizou as ações educativas e se antecipou. Ano passado foi terrível!”, define o major Noberto Santos.

Focos de incêndios em julho (Inpe):

  • 2020: 63 (3 em agosto);
  • 2019: 18;
  • 2018: 29;
  • 2017: 15;
  • 2016: 106;
  • 2015: 23.
  • Máxima: 147 | Média: 40 | Mínima: 8

A média, no último trimestre de 2019, chegou a cinco ocorrências por dia, concentrando 92% de um total de mais 800 focos combatidos. 

Outra coisa que somará à Operação é a tecnologia. Por satélite, o Corpo de Bombeiros acompanha os pontos de calor na região. “Vamos nosso sistema que há essa queima e com a coordenada, questiona a Prefeitura sobre este foco”, explica Noberto. Esta detecção se tornará mais efetiva após a proibição de qualquer queima controlada a partir de decreto estadual. “Isso é muito importante. Vai diminuir bastante”, acredita.  

Legenda: A chegada do segundo semestre, que concentra os meses mais quentes do ano, mais uma vez liga o alerta ligado na região do Cariri.
Foto: Antonio Rodrigues

Atualmente, o Corpo de Bombeiros na região do Cariri é composto por 110 homens e mais de 10 viaturas, distribuídas nas três companhias. Com uma região extensa para dar conta, os grupos, muitas vezes, se dividem para o combate que pode durar mais de uma semana.

“Nunca é só uma guarnição de suas cidades. A de Crato pode dar apoio a de Juazeiro. Ano passado isso aconteceu em Assaré, mesmo sendo uma área do Crato, porque durou muito tempo, exemplifica.  

A preocupação com os incêndios fez o governo do Ceará decretar, pela primeira vez em sua história, situação de emergência ambiental com o objetivo de mitigar os impactos dos incêndios florestais. Geralmente, este decreto é utilizado em caso de enchentes ou situação de estiagem, o que ajuda na aquisição de recursos.

Recuperação 

Após o grande incêndio na Flona Araripe, em 2019, não houve uma introdução imediata, pois, primeiro, está sendo visto como a área se comporta.

O pequizeiro adulto, por exemplo, muito comum na região, leva cerca de três anos para se produzir. Outras espécies de plantas podem levar de cinco a dez anos. “Está em projeto regenerativo. Tivemos uma boa distribuição de chuvas (neste ano), que contribuiu. É uma área grande. Vai levar um tempo para que se restabeleça. Se mantiver sem que não haja nenhum incêndio, as árvores menores vão crescer mais”, explica Carlos.

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