Arte denuncia vida no lixão
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Descartes Gadelha foi morar no lixão do Jangurussu para tentar captar "alma, a psiqué" daquela população
Fortaleza. "O que significa viver da sobra de uma grande metrópole?" A pergunta, feita no fim da década de 1970 e começo dos anos 1980, quando o pintor Descartes Gadelha trocou o conforto de sua casa e foi compartilhar o dia-a-dia dos catadores do antigo lixão do Jangurussu continua sem resposta até hoje. Desde as vanguardas artísticas dos anos 1950/60 que artistas criticam o consumismo. Vick Muniz usa o lixo como matéria-prima em algumas obras, e o artesão Zé Pinto fez escola com suas peças em sucata.
"A minha preocupação era mais com os aspectos humano e psicológico daquelas pessoas que sobreviviam do lixo", diz Descartes Gadelha, mesmo reconhecendo os cuidados com o meio ambiente. Entretanto, esta não foi a principal preocupação aos olhos do artista, que tentava penetrar, através de sua arte, na alma daquela gente que tirava do lixão a sua comida.
Não catavam plásticos, latas ou metais, como hoje. Mulheres, homens, idosos e crianças disputavam com urubus e cães restos de comida. "Eles comiam sobejos, restos". Eram restos do lixo classe "A" ou rico, vindo de bairros nobres e sobras das mesas dos hotéis cinco estrelas, como denunciava, na época, Descartes Gadelha, na exposição "Catadores do Jangurussu", mostra composta de 72 obras, sendo uma desenho, e o restante pinturas. Rostos com expressões sofridas e corpos raquíticos de adultos e crianças denunciavam o abandono da população.
Outra constatação do artista, que tentou fazer um retrato falado daquela realidade usando tinta, pincéis e lápis, é de que o lixo chegava todo misturado. "Era uma bomba atômica", fazendo referência à contaminação do local por gases e chorume, resultante da decomposição do resíduo e que atingia o lençol freático, sendo levado até o Rio Cocó.
Na época, o poder público prometeu construir uma vila olímpica que nunca saiu do papel. O lixão foi "maquiado com uma camada de areia vermelha", afirma o artista que queria retratar a "alma de algumas pessoas". Numa demonstração de que a arte pode ser usada também para denunciar condições sociais adversas, Descartes Gadelha produziu suas obras. No próximo mês, o Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará (Mauc) vai realizar uma retrospectiva das obras, produzidas há 30 anos.
A situação pouco mudou. "Fortaleza é um grande shopping e seu povo é um dos mais estetas. Só que é uma estética perversa que destrói praias e monumentos", diz, considerando ser difícil sensibilizar as pessoas, como tentou fazer, na época, com a população do Jangurussu. A realidade do lixão não fazia parte do bonito da Metrópole. Para mostrar que a obra de arte é atemporal, pouco ou quase nada mudou na vida da população do Jangurussu, exceto não retirarem mais restos de comida para sobreviver. O vai-e-vem de catadores pelas ruas do bairro continua.
Conforme Descartes Gadelha, não existia sequer uma associação para dar suporte àquelas pessoas, chamadas de "retirantes do lixo". Elas vinham do antigo lixão da Barra do Ceará e acompanharam o novo lixão da Cidade, o Jangurussu. "Era uma procissão de catadores que acompanhava esse lixo", compara. No local, aos poucos, era formada uma vila ou uma cidade de catadores que vivia à própria sorte. "Eles não contavam com do Estado".
Um mês no Jangurussu foi o tempo suficiente para o artista sentir os primeiros efeitos na saúde, ao contrair bronquite. "Aqui ninguém adoece. Ou se está vivo, ou morto", lembra da resposta de um dos antigos moradores do Jangurussu, afirmando que não existe praticamente mais ninguém daquela época. Os poucos remanescentes são netos ou filhos daquela população que era chamada de "catadores" e, hoje, são conhecidos como recicladores.
A maioria migrou para o Centro. São os catadores de papelão ou "fantasmas do lixo", como foram chamados pelo artista. "Parecem esculturas", compara Descartes Gadelha, que retratou esses homens em 2008.
A ideia de morar no Jangurussu era a forma de denunciar uma realidade que ficava escondida atrás de uma montanha de lixo. Eera naquele espaço que se travava, diariamente, uma verdadeira luta por uma lata de salsicha vencida, por exemplo. O que mais impressionou o artista foi perceber que as pessoas se alimentavam do lixão.
Como a arte pode ser utilizada tanto como estética quanto para denunciar, "não me preocupei em fazer obra de arte", conta. A arte foi apenas usada como um meio para o artista tentar compreender aquelas pessoas. "Elas vivenciavam uma verdadeira guerra, literalmente, o inferno de Dante".
A situação era "social e moralmente degradante", conta com a experiência de quem deixou sua casa e foi viver naquele ambiente. As disputas por comida eram verificadas também entre os animais, sobretudo os cães.
Passados mais de 30 anos, é possível perceber que o Jangurussu conserva entre as suas ruas estreitas e os seus personagens, uma identidade, uma estética com o lixo. Hoje, os resquícios do lixão ainda permanecem e nenhum equipamento foi criado no local para apagar as lembranças degradantes da montanha de lixo que alimentava os excluídos da Cidade.
Não se percebe que houve avanço com o fechamento do lixão, há 12 anos. As casas continuam precárias e o Jangurussu de hoje é apenas um pouco diferente daquele dos anos 1970/1980, quando houve o seu apogeu. "O lixo é a nossa mãe, nossa pátria, se vive dele", conta o relato de um morador, retirada de uma das conversas que o artista gravou durante a sua pesquisa.
"Fundaram uma civilização do lixo", analisa o artista. Os rastros dessa "civilização" continuam ainda hoje, como a presença do carrinho na frente das casas, a própria construção da usina de triagem da Prefeitura e o incinerador. Além do grande número de depósitos de lixo e a presença constante de catadores pelas ruas.
Hoje, com a desativação do lixão, os moradores não recebem mais o lixo para sobreviver, mas continua sendo a principal fonte de renda daquela população, que nunca foi vista com "um olhar humanitário".
Atividade permanece
Criado em 1978, há anos o lixão do Jangurussu foi desativado. No entanto, o que se observa ao chegar àquele bairro é que o lixo integra a identidade daquele povo, já que, durante 20 anos, muitos dos seus moradores tiveram que lutar pela sobrevivência, disputando comida com urubus, ratos e outros animais.
Embora o lixão tenha desaparecido, as marcas do lixo continuam em todas as partes, denunciando que a comunidade permanece vivendo do lixo, hoje, chamado de resíduo sólido. É comum a presença de carrinhos nas portas das casas, sucatas, depósitos, pequenas e até médias empresas que trabalham com reciclagem.
Carrinhos descarregando lixo a quase todo momento completam o cenário do Jangurussu, local onde o lixo continua sendo a principal matéria prima para garantir a sobrevivência da população.
"O Grande Jangurussu é a região que concentra o maior número de catadores e deposeiros", admite o engenheiro da Empresa Municipal de Impeza e Urbanização (Emlurb), Sérgio de Miranda Firmeza, considerando um ponto estratégico de resíduos sólidos na Cidade. Ele faz referência aos 20 anos de funcionamento do lixão, fator determinante para a criação de um vínculo entre os bairros Conjunto Palmeiras, Barroso e João Paulo II. O que os catadores do Jangurussu continuam esperando, até hoje, é pela implantação da coleta seletiva em Fortaleza, uma vez que associação não é suficiente para garantir dignidade e remuneração justa para todos os catadores do bairro.
A própria coordenadora da Associação dos Catadores do Jangurussu (Ascajan), Maria Iraci Teixeira, admite que não é possível comportar todos. Muitos consideram que não compensa participar da Associação porque sozinhos ganham mais. Este é o caso de Francisco José Sousa Santos, de 37 anos, quatro filhos, morador do Grande Jangurussu, há sete anos trabalha com reciclagem.
Acostumado a sair todos os dias pela manhã, puxando seu carrinho, e só retornar no finalzinho da tarde para a casa, Francisco Santos não reclama da dura rotina, o que incomoda mesmo, é voltar "batendo", sem nada. "Difícil é achar material porque a concorrência é grande", queixa-se, afirmando que o jeito é sair para longe. "Na periferia não tem muito o que se reciclar porque o lixo é pobre".
O chamado lixo "rico" se encontra nas áreas nobres da Cidade ou no Centro. Daí ser comum a presença de catadores nas ruas e avenidas dos bairros da Zona Leste, por exemplo. Eles preferem andar mais e ter retorno certo. Um carrinho cheio e, sobretudo, se o material tiver um bom preço é certeza de que no fim do mês pode superar o valor de um salário e meio. Aponta o fator financeiro como o principal motivo de preferir "trabalhar sozinho", ou seja, não procurar se juntar aos catadores da Ascajan.
"A associação é mais uma complicação e o ganho não compensa", justifica, preferindo vender para o atravessador, mesmo tendo consciência de que o ganho diminui. "Não tenho como vender diretamente para a fábrica", responde. Dentre os materiais recicláveis, os metais são os mais cobiçados devido à alta cotação no mercado informal da reciclagem.
Iracema Sales
Repórter
Fortaleza. "O que significa viver da sobra de uma grande metrópole?" A pergunta, feita no fim da década de 1970 e começo dos anos 1980, quando o pintor Descartes Gadelha trocou o conforto de sua casa e foi compartilhar o dia-a-dia dos catadores do antigo lixão do Jangurussu continua sem resposta até hoje. Desde as vanguardas artísticas dos anos 1950/60 que artistas criticam o consumismo. Vick Muniz usa o lixo como matéria-prima em algumas obras, e o artesão Zé Pinto fez escola com suas peças em sucata.
"A minha preocupação era mais com os aspectos humano e psicológico daquelas pessoas que sobreviviam do lixo", diz Descartes Gadelha, mesmo reconhecendo os cuidados com o meio ambiente. Entretanto, esta não foi a principal preocupação aos olhos do artista, que tentava penetrar, através de sua arte, na alma daquela gente que tirava do lixão a sua comida.
Não catavam plásticos, latas ou metais, como hoje. Mulheres, homens, idosos e crianças disputavam com urubus e cães restos de comida. "Eles comiam sobejos, restos". Eram restos do lixo classe "A" ou rico, vindo de bairros nobres e sobras das mesas dos hotéis cinco estrelas, como denunciava, na época, Descartes Gadelha, na exposição "Catadores do Jangurussu", mostra composta de 72 obras, sendo uma desenho, e o restante pinturas. Rostos com expressões sofridas e corpos raquíticos de adultos e crianças denunciavam o abandono da população.
Outra constatação do artista, que tentou fazer um retrato falado daquela realidade usando tinta, pincéis e lápis, é de que o lixo chegava todo misturado. "Era uma bomba atômica", fazendo referência à contaminação do local por gases e chorume, resultante da decomposição do resíduo e que atingia o lençol freático, sendo levado até o Rio Cocó.
Na época, o poder público prometeu construir uma vila olímpica que nunca saiu do papel. O lixão foi "maquiado com uma camada de areia vermelha", afirma o artista que queria retratar a "alma de algumas pessoas". Numa demonstração de que a arte pode ser usada também para denunciar condições sociais adversas, Descartes Gadelha produziu suas obras. No próximo mês, o Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará (Mauc) vai realizar uma retrospectiva das obras, produzidas há 30 anos.
A situação pouco mudou. "Fortaleza é um grande shopping e seu povo é um dos mais estetas. Só que é uma estética perversa que destrói praias e monumentos", diz, considerando ser difícil sensibilizar as pessoas, como tentou fazer, na época, com a população do Jangurussu. A realidade do lixão não fazia parte do bonito da Metrópole. Para mostrar que a obra de arte é atemporal, pouco ou quase nada mudou na vida da população do Jangurussu, exceto não retirarem mais restos de comida para sobreviver. O vai-e-vem de catadores pelas ruas do bairro continua.
Conforme Descartes Gadelha, não existia sequer uma associação para dar suporte àquelas pessoas, chamadas de "retirantes do lixo". Elas vinham do antigo lixão da Barra do Ceará e acompanharam o novo lixão da Cidade, o Jangurussu. "Era uma procissão de catadores que acompanhava esse lixo", compara. No local, aos poucos, era formada uma vila ou uma cidade de catadores que vivia à própria sorte. "Eles não contavam com do Estado".
Um mês no Jangurussu foi o tempo suficiente para o artista sentir os primeiros efeitos na saúde, ao contrair bronquite. "Aqui ninguém adoece. Ou se está vivo, ou morto", lembra da resposta de um dos antigos moradores do Jangurussu, afirmando que não existe praticamente mais ninguém daquela época. Os poucos remanescentes são netos ou filhos daquela população que era chamada de "catadores" e, hoje, são conhecidos como recicladores.
A maioria migrou para o Centro. São os catadores de papelão ou "fantasmas do lixo", como foram chamados pelo artista. "Parecem esculturas", compara Descartes Gadelha, que retratou esses homens em 2008.
A ideia de morar no Jangurussu era a forma de denunciar uma realidade que ficava escondida atrás de uma montanha de lixo. Eera naquele espaço que se travava, diariamente, uma verdadeira luta por uma lata de salsicha vencida, por exemplo. O que mais impressionou o artista foi perceber que as pessoas se alimentavam do lixão.
Como a arte pode ser utilizada tanto como estética quanto para denunciar, "não me preocupei em fazer obra de arte", conta. A arte foi apenas usada como um meio para o artista tentar compreender aquelas pessoas. "Elas vivenciavam uma verdadeira guerra, literalmente, o inferno de Dante".
A situação era "social e moralmente degradante", conta com a experiência de quem deixou sua casa e foi viver naquele ambiente. As disputas por comida eram verificadas também entre os animais, sobretudo os cães.
Passados mais de 30 anos, é possível perceber que o Jangurussu conserva entre as suas ruas estreitas e os seus personagens, uma identidade, uma estética com o lixo. Hoje, os resquícios do lixão ainda permanecem e nenhum equipamento foi criado no local para apagar as lembranças degradantes da montanha de lixo que alimentava os excluídos da Cidade.
Não se percebe que houve avanço com o fechamento do lixão, há 12 anos. As casas continuam precárias e o Jangurussu de hoje é apenas um pouco diferente daquele dos anos 1970/1980, quando houve o seu apogeu. "O lixo é a nossa mãe, nossa pátria, se vive dele", conta o relato de um morador, retirada de uma das conversas que o artista gravou durante a sua pesquisa.
"Fundaram uma civilização do lixo", analisa o artista. Os rastros dessa "civilização" continuam ainda hoje, como a presença do carrinho na frente das casas, a própria construção da usina de triagem da Prefeitura e o incinerador. Além do grande número de depósitos de lixo e a presença constante de catadores pelas ruas.
Hoje, com a desativação do lixão, os moradores não recebem mais o lixo para sobreviver, mas continua sendo a principal fonte de renda daquela população, que nunca foi vista com "um olhar humanitário".
Atividade permanece
Criado em 1978, há anos o lixão do Jangurussu foi desativado. No entanto, o que se observa ao chegar àquele bairro é que o lixo integra a identidade daquele povo, já que, durante 20 anos, muitos dos seus moradores tiveram que lutar pela sobrevivência, disputando comida com urubus, ratos e outros animais.
Embora o lixão tenha desaparecido, as marcas do lixo continuam em todas as partes, denunciando que a comunidade permanece vivendo do lixo, hoje, chamado de resíduo sólido. É comum a presença de carrinhos nas portas das casas, sucatas, depósitos, pequenas e até médias empresas que trabalham com reciclagem.
Carrinhos descarregando lixo a quase todo momento completam o cenário do Jangurussu, local onde o lixo continua sendo a principal matéria prima para garantir a sobrevivência da população.
"O Grande Jangurussu é a região que concentra o maior número de catadores e deposeiros", admite o engenheiro da Empresa Municipal de Impeza e Urbanização (Emlurb), Sérgio de Miranda Firmeza, considerando um ponto estratégico de resíduos sólidos na Cidade. Ele faz referência aos 20 anos de funcionamento do lixão, fator determinante para a criação de um vínculo entre os bairros Conjunto Palmeiras, Barroso e João Paulo II. O que os catadores do Jangurussu continuam esperando, até hoje, é pela implantação da coleta seletiva em Fortaleza, uma vez que associação não é suficiente para garantir dignidade e remuneração justa para todos os catadores do bairro.
A própria coordenadora da Associação dos Catadores do Jangurussu (Ascajan), Maria Iraci Teixeira, admite que não é possível comportar todos. Muitos consideram que não compensa participar da Associação porque sozinhos ganham mais. Este é o caso de Francisco José Sousa Santos, de 37 anos, quatro filhos, morador do Grande Jangurussu, há sete anos trabalha com reciclagem.
Acostumado a sair todos os dias pela manhã, puxando seu carrinho, e só retornar no finalzinho da tarde para a casa, Francisco Santos não reclama da dura rotina, o que incomoda mesmo, é voltar "batendo", sem nada. "Difícil é achar material porque a concorrência é grande", queixa-se, afirmando que o jeito é sair para longe. "Na periferia não tem muito o que se reciclar porque o lixo é pobre".
O chamado lixo "rico" se encontra nas áreas nobres da Cidade ou no Centro. Daí ser comum a presença de catadores nas ruas e avenidas dos bairros da Zona Leste, por exemplo. Eles preferem andar mais e ter retorno certo. Um carrinho cheio e, sobretudo, se o material tiver um bom preço é certeza de que no fim do mês pode superar o valor de um salário e meio. Aponta o fator financeiro como o principal motivo de preferir "trabalhar sozinho", ou seja, não procurar se juntar aos catadores da Ascajan.
"A associação é mais uma complicação e o ganho não compensa", justifica, preferindo vender para o atravessador, mesmo tendo consciência de que o ganho diminui. "Não tenho como vender diretamente para a fábrica", responde. Dentre os materiais recicláveis, os metais são os mais cobiçados devido à alta cotação no mercado informal da reciclagem.
Iracema Sales
Repórter