Afinadores de sanfona fazem história no Ceará

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Redação producaodiario@svm.com.br
Na região do Vale do Jaguaribe, o trabalho de afinar sanfona ainda sobrevive, embora com poucos especialistas

Tabuleiro do Norte. Se já não é qualquer um que sabe tocar um acordeom, também é quase ninguém especializado na arte de afiná-lo, deixar com a sonoridade certa para quem quer “puxar o fole”. No Interior do Ceará, são poucos os afinadores de sanfona. Alguns remontam e até fabricam, com peças de sucata, um acordeom inteiro. O trabalho tem poucos seguidores, mas a demanda é grande, principalmente das bandas de forró, que após cada turnê correm atrás dos verdadeiros “luthiers” da sanfona.

Um deles foi agricultor, passou para sanfoneiro e, porque “não deu muito certo”, apurou o ouvido para afinar a sanfona e, quando é necessário, ressuscitá-la. Passa horas sentado no chão da sala ou na frente de casa, que já foi construída com dinheiro da afinação. Como não seria diferente, tem trecos de sanfona para todo lado.

Alguns instrumentos estão com simples ferrugem e com os teclados precisando afinar suas “cordas vocais”, outros nem fole ou teclados têm, mas os donos ainda fazem questão de chamar de acordeom, que só volta à vida depois de chegar às mãos de Zecildo de Oliveira, 35 anos, mecânico da sanfona em Tabuleiro do Norte, na região jaguaribana, que atende a sanfoneiros de vários Estados.

Zecildo começou a atividade “de repente”. Toca sanfona, mas não é lá essas coisas, precisou consertar o próprio instrumento, “e peguei o jeito da coisa”, diz. Em apenas seis anos de afinação, diz que já trabalhou com pelo menos 600 sanfonas. Bandas de forró e acordeonistas da região jaguaribana, Rio Grande do Norte e até do Maranhão socorrem a peça fundamental de um bom forró a qualquer hora do dia, pedindo-lhe o conserto “para ontem”. A casa do afinador já recebeu sanfoneiros como Redondo e “Chiquinho do Acordeom”, atualmente da banda Mastruz com Leite e um dos grandes apoiadores do afinador, ajudando na aquisição de peças e clientes.

“Muitos sanfoneiros tocam muito bem, mas não percebem a desafinação, só quando chegam aqui sabem que não tá normal”, comentou ele.

Afinação

Uma afinação simples leva cerca de dois dias e custa pelo menos R$ 200,00. “Mas se a sanfona vem toda ‘quengada’”, sem fole nem teclados, pode ir para R$ 700,00. Daí é usar a criatividade, nesse caso leva mais de mês para ficar pronta.

O fole é feito com uma espécie de papelão industrializado; os teclados são feitos de canos de PVC fundidos, e “fica igualzin”, atesta o mecânico, que recebeu a reportagem sem parar o trabalho de afinação das notas no cavalete da sanfona.

Para deixar na medida, movimentava a licha com um motor de máquina de costura doméstica. “Aqui é tudo na base do aproveitamento”.

Meio século

A juventude de Zecildo contrasta com a idade de outro afinador de sanfona, mas se funde no talento para ser todos ouvidos para o instrumento. Ano passado completou 50 anos que seu Raimundo Zacarias, de 76 anos, vive, ou como ele diz, “véve” de afinar sanfona. Não dá conta de quantas já deixou “sadia pra tocar”.

Ele não só afina, mas toca. E lamenta que no distrito de Lagoinha, localizado no município de Quixeré, não tem ninguém interessado em seguir a profissão. Nem na família, que já nasceu com um pé na música – todos os dez irmãos e irmãs tocavam instrumentos.

“A minha afinação eu não quero que aperreiem, só entrego com um mês, mas a bem dizer é um negócio bem feito que só vendo”, afirma Zacarias. “Eu cobro barato” – R$ 300,00 para afinar a sanfona. O preço aumenta quanto maior for a ferrugem. A demora é que só pode trabalhar à noite, “à mode a zoada do dia, o povo e os carros passando, que atrapalha o trabalho da gente, aí só quando tem sossego é que trabalho”. Comenta, citando que já afinou as sanfonas de João Bandeira e Paulo Ney. “Mas ele tá que adoece toda vida que pega uma encomenda. É a poeira da sanfona, aí fica respirando aquilo, quando dá fé tá com gripe”, afirma Maria Santa, esposa do afinador. Eles moram com filhos e netos.

Mestre

Raimundo Zacarias é intitulado mestre pelos admiradores da região jaguaribana. Tem vontade de conhecer Zecildo Oliveira, que tem a metade de sua idade e parece ser o único seguidor de sua arte de afinação, que já tem meio século de existência.

MELQUÍADES JÚNIOR
Colaborador


Mais informações:
Zecildo Oliveira
(88) 3424.2054
Raimundo Zacarias
(88) 3443.2069