A vida recomeça

Nos mesmos lugares onde há dor, a esperança corta o silêncio em choro agudo a plenos pulmões da nova existência. Quando o filho nasce, todas as dores vão embora. O nome próprio dá lugar ao de mãe e pai

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Redação producaodiario@svm.com.br
Legenda: Thays Lima de Souza, de 21 anos, deu à luz Enzo Levi, o primeiro neto de Verônica e Expedito. As dores das contrações até o parto normal, ela diz ter esquecido
Foto: FOTO: LUCAS DE MENEZES

A ala da maternidade é a única do hospital em que a paciente não pode estar doente. O primeiro choro da criança é, talvez, o único em que a mãe, certamente, sorrirá de alegria. Quando solta o clamor sonoro, faz com que a inspiração logo após encha os pulmões de oxigênio para que o movimento inverso do ar leve junto o líquido vindo da placenta que ainda congestiona as vias respiratórias. É a vida soprando.

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Numa maternidade ou nos mais diversos lugares, alguém está dando à luz todos os dias. É mais: 348 mulheres no Ceará, 2.281 no Nordeste e 7.961 em todo o País, a contar com a média de nascimentos diários em 2013. Parte dos nascimentos deu-se em casa, por opção ou simplesmente porque o bebê tem a própria conta de tempo e lugar. Outros acontecem no meio do caminho. É quando travessia e destino se cruzam ali mesmo, no meio da rua, antes da maternidade.

O avesso da ocorrência

Em abril deste ano, Ana Débora da Silva sentiu a "bolsa romper", o líquido amniótico, da placenta, escorrer entre as pernas. Era como uma ampulheta em contagem regressiva. Correu até a rodoviária municipal de Aracati, no Litoral Leste do Ceará. Queria pegar um táxi, não deu. O parto foi feito pelo cabo da Polícia Militar Edilson Barbosa, auxiliado pelo colega Helder Albuquerque, com um médico dando as orientações ao telefone. Era o avesso de uma ocorrência policial.

O também cabo Gonzaga Neto não se esquece do parto que realizou dentro da viatura em que trabalha no município de Camocim. Estavam a 500 metros da maternidade do Hospital Murilo Aguiar. Mais do que onde, neném quer nascer. E o policial, que sai todos os dias de casa 'para dar de cara' com a morte, topou com o revés. A Polícia brasileira coleciona partos em seus Termos Circunstanciais de Ocorrência.

Condição de amar

Os nove meses de viagem no útero têm seu paralelo do lado de fora. Aponta mudanças. A falta de dinheiro não impediu Dilce Silveira, em Jaguaretama, no Vale do Jaguaribe, de conseguir as roupas e mamadeiras. Não deixou de ficar com certa angústia no primeiro mês com medo de que faltasse o essencial à filha. Mas parentes e um punhado de amigos chegam com presentes. Contraria a tese de que para ter filho precisa "ter condição". Acredita que a tal 'condição' não é dinheiro. "É amor. Tem aquele ditado, 'Deus dá o pão...' Assim, quando tem uma boca a mais pra comer, ele ampara. Dá o frio conforme o cobertor", conserta.

Sandra Rufino e Odilon Veras, em Quixeramobim, casaram-se em 2004, "mas a gente tentou se ajeitar primeiro, ter um emprego firme, essas coisas. Deixar mais pra frente ter um filho", disse Odilon. O 'mais pra frente' deu-se em dezembro de 2013, com a notícia da gravidez de Sandra.

Aquele Natal já tinha outro sabor na família Rufino. À sua maneira, Odilon estava grávido. O casal entrou o ano de 2014 montando o quarto de Graziele, a primeira filha. De Francisca Severina, no mesmo município, Emanuel seria o terceiro, o segundo a proteger Letícia, a irmã do meio, segundo Vinícius, o mais velho.

Em Canindé de São Francisco, no Sertão Central, Claudiana Rodrigues coloca no braço uma fita do santo padroeiro. Aprendeu com a mãe que primeiro pede a bênção, depois proteção. Tinha acabado de retornar de São Paulo, para onde migrou três anos atrás. Voltava com o também imigrante Roberlan da Silva, que conheceu por lá, o filho Gustavo no colo e um bebê (só depois saberia que é Francisco Jeimison) na barriga.

Histórias cruzadas

Dilce, Sandra, Severina e Claudiana não se conhecem. Mas durante a gravidez adormecem à noite com a mão sobre o ventre, num balé de afeto espontâneo. Ana Vitória, Graziele, Emanuel e Jeimison, respectivamente, correspondem com movimentos do lado de dentro.

E foi assim até cruzarem suas vidas com o desfecho da história de seus bebês: tornarem-se "anjos", como elas definem e retratamos na série de reportagem "Parto dos Anjos", finalizada com esta terceira edição.

Em Fortaleza, encontramos Thays Lima, de 21 anos, apoiada sobre as pernas em cima da cama da maternidade. Segurando uma mão, está Verônica, sua mãe. Terá o primeiro neto antes do que imaginava. Esperava, primeiro, a filha se formar no curso de Educação Física na Universidade Federal do Ceará (UFC). No início, Verônica e o esposo Rubens ficaram assustados, queriam voltar no tempo. Mas bastou que os dias passassem um pouco mais, e o coração de todos amoleceu. De Verônica, Rubens, Thays e Marcos Paulo, o namorado há oito anos. Deixou de ser gravidez e tornou-se a preparação da chegada de Enzo Levi.

Quando aumentou a frequência de contrações, Verônica leva a filha, no dia 18 de novembro de 2014, até o Hospital da Mulher. Muita gente, gestantes em praticamente todos os leitos. Um médico examina e, constatando pouca dilatação, pede que volte para casa.

Tentando se cercar de cuidados, Verônica liga para uma amiga enfermeira do Hospital Distrital Gonzaga Mota, igualmente lotado. A dilatação no canal vaginal passa de quatro para seis centímetros. "É pouco", lembra outro médico. Já é noite quando Thays chega à terceira unidade, a Maternidade-Escola Assis Chateaubriand. Começa a ouvir que, se já está no período, uma cesárea abreviaria essas idas e vindas. "Quero ter normal", enfatiza.

A hora

"Força, filha". Era uma dor que não acabava mais, contrações fortes a cada minuto. "O importante é ela manter a calma", afirma Dona Mazé Oliveira da Silva. Começou parteira 51 anos atrás, atua como doula, dando assistência às gestantes no Centro do Parto Humanizado. Quando pensava que não teria mais força, Thays contrai seu corpo para baixo. Lá vem Levi. "Isso, isso", diz dona Mazé. Nasceu. Em segundos, a expressão é de sorriso, alívio. Cercada da equipe médica, da mãe e de dona Mazé, Thays tem Enzo Levi nos braços.

O que passou pela cabeça no momento em que ele surgiu na sua frente, pergunto. "A sensação de que toda a dor já passou. E a vida recomeça". 

Acesse o hotsite da série Parto dos Anjos

Melquíades Júnior
Repórter