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Sem deputados federais eleitos em 2022, como municípios do CE garantiram recursos sem apoio direto

Municípios onde os mais votados não se elegeram recorrem a alianças com deputados e ampliam papel dos prefeitos na busca por emendas.

Escrito por
Igor Cavalcante igor.cavalcante@svm.com.br
Vista aérea do acesso a Juazeiro do Norte, com prédios ao fundo. Foto feita ao anoitecer.
Legenda: Deputados federais mais votados em 2022 no município de Juazeiro do Norte não foram eleitos no Ceará.
Foto: Anderson Duarte / Acervo pessoal

A menos de seis meses das eleições, a divisão das influências políticas no Ceará passou por um redesenho com a janela partidária. Para além das composições das siglas, a distribuição territorial da influência dos deputados também impacta as gestões municipais. Com poucos recursos próprios para investimento e um orçamento cada vez mais concentrado em emendas parlamentares, ter interlocução em Brasília pode fazer diferença nas contas das prefeituras.

Considerando as eleições de 2022, dos 184 municípios cearenses, apenas quatro não tiveram um deputado eleito entre os três mais votados. Esse cenário cria um obstáculo adicional para os gestores, que precisam se desdobrar para buscar outros aliados eleitos. Por outro lado, deputados encontram nessas aproximações a possibilidade de explorar novas bases políticas.

Do Ceará até Brasília

Os dados indicam que, na ausência de representantes eleitos com base no voto local, o acesso a recursos federais passa a depender menos do resultado das urnas e mais da capacidade de articulação política dos prefeitos e de suas alianças com parlamentares.

Nesse contexto, o papel dos gestores municipais ganha centralidade. São eles os principais responsáveis por buscar interlocução com deputados federais e senadores, independentemente do desempenho eleitoral desses parlamentares na cidade.

A análise é do cientista político e diretor do Instituto de Pesquisa Opnus, Pedro Barbosa. Para ele, “em alguma medida”, a crescente influência dos parlamentares sobre os recursos públicos fragiliza a distribuição dos investimentos.

“Como a maioria dos municípios tem baixa capacidade própria de investimento, a centralidade das emendas parlamentares faz com que a articulação política em Brasília se torne decisiva. Quando os candidatos mais votados localmente não se elegem, o município pode perder esse canal direto de interlocução, o que pode gerar dificuldade”
Pedro Barbosa
Cientista político e diretor do Instituto de Pesquisa Opnus

O analista, no entanto, ressalta que isso não significa isolamento automático. “A dinâmica política permite caminhos alternativos, por meio de novas alianças com parlamentares eleitos ou acordos partidários, como o rodízio para que suplentes assumam temporariamente o mandato e/ou a destinação de emendas a partir de indicações desses candidatos que, mesmo não eleitos, contribuíram para a eleição da chapa”, explicou.

Barbosa destaca que, nesse cenário, a atuação do gestor local é determinante.

“Esse alinhamento pode ocorrer por diferentes vias: afinidade partidária, aproximação com deputados da mesma região, mediação de lideranças estaduais ou articulação com parlamentares interessados em entrar naquele município. É um movimento que atende aos dois lados. Para o prefeito, amplia as chances de captar recursos; para o deputado, representa a oportunidade de ocupar um espaço político, transformando um município ‘órfão’ em nova base eleitoral”, conclui.

Caucaia

Segundo maior colégio eleitoral do Ceará, Caucaia é um dos casos que mais chamam atenção. À época sob a gestão de Vitor Valim (PSB) — eleito pela oposição, mas posteriormente alinhado à base —, o município teve como candidato mais votado Vanderlan Alves (Solidariedade), com 28,3 mil votos. Ex-vereador da cidade, ele atualmente exerce mandato como suplente do União Brasil.

O segundo mais votado também ficou na suplência: o atual prefeito de Caucaia, Naumi Amorim (PSD), que somou 20,7 mil votos. Já o terceiro maior volume de votos no município foi de brancos e nulos, que chegaram a quase 18 mil.

Apesar disso, o deputado federal José Airton (PT), apenas o 28º mais votado na cidade, foi o principal responsável pelo envio de recursos ao município por meio de emendas individuais. Ao todo, o parlamentar destinou R$ 9,2 milhões entre 2024 e 2025. Para efeito de comparação, o segundo maior volume individual foi enviado pelo deputado federal Dr. Jaziel (PL), com R$ 3,7 milhões no mesmo período.

Para o levantamento, o Diário do Nordeste considerou dados eleitorais públicos da Justiça Eleitoral e informações sobre a destinação de emendas individuais disponíveis no Portal da Câmara dos Deputados.

Como regra, as emendas são indicadas em um ano e executadas no seguinte. Por isso, foram consideradas as emendas pagas em 2024 — no ano subsequente ao pleito — e em 2025, último período com dados já consolidados.

Juazeiro do Norte

Na outra ponta do Estado, o terceiro maior colégio eleitoral cearense, Juazeiro do Norte apresentou cenário semelhante. Os mais votados no município em 2022 foram Nelinho (Podemos), com 15,5 mil votos; o ex-prefeito Arnon Bezerra (PSB), com 14,3 mil; e Tarso Magno (PP), com 13,1 mil — nenhum deles eleito.

Já os principais remetentes de emendas individuais para a cidade foram os deputados Fernanda Pessoa, Dayany Bittencourt (União) e André Figueiredo (PDT), que enviaram, cada um, cerca de R$ 2 milhões no período analisado.

O prefeito Glêdson Bezerra (Podemos) reconhece que a ausência de deputados federais eleitos entre os mais votados da cidade impacta o planejamento municipal.

“Como Juazeiro do Norte possui uma Receita Corrente Líquida baixa, a dependência de aportes federais é alta. Sem uma representação direta e expressiva na Câmara, o envio de recursos perde a regularidade necessária para grandes projetos de longo prazo”, afirmou.

Segundo ele, a gestão tem buscado superar o cenário por meio de “parcerias estratégicas”.

“Com destaque para o deputado André Figueiredo, que se consolidou como o maior parceiro de Juazeiro do Norte em Brasília. Além de garantir fluxo constante de recursos para a saúde, ele tem sido o principal interlocutor na viabilização de projetos estruturantes”, disse.

O gestor também citou interlocução com o senador Eduardo Girão e com parlamentares como Yuri do Paredão, Danilo Forte e Célio Studart, além da deputada Fernanda Pessoa.

“Mas se torna uma negociação mais complexa com deputados que não tiveram votação expressiva na cidade. Passamos a contar com ‘recursos pingados’. Sem esse compromisso político direto, o município precisa articular constantemente para garantir que a saúde e a infraestrutura não parem”
Glêdson Bezerra (Podemos)
Prefeito de Juazeiro do Norte

Ipu e Paracuru

Municípios de menor porte, como Ipu e Paracuru, também ilustram esse cenário. Em ambos, o mais votado em 2022 foi Denis Bezerra (PSB), que não se elegeu. Outros nomes com votação expressiva, como Eliane Braz (PSD) e Julierme Sena (União), também ficaram de fora da Câmara.

Em Ipu, a prefeita Milena Damasceno (PT) relata que precisou intensificar a articulação política ao assumir o cargo.

Segundo ela, os principais recursos vieram dos deputados Domingos Neto (PSD) e Dayany Bittencourt (União), que não estavam entre os mais votados na cidade.

“Temos mantido uma parceria importante com Domingos Neto, que conseguiu equipamentos no ano passado, e também com Guimarães. A gente sempre faz apelo aos deputados por esse apoio, é uma forma deles estarem próximos dos municípios”
Milena Damasceno (PT)
Prefeita de Ipu

Já em Paracuru, sob gestão da prefeita Gabi do Aquino (Republicanos), o maior volume de recursos foi enviado por parlamentares como Luizianne Lins (PT), Yuri do Paredão (MDB), Dayany Bittencourt e AJ Albuquerque (PP), cada um com cerca de R$ 1 milhão.

As prefeituras de Caucaia e Paracuru foram procuradas, mas não comentaram sobre as articulações em Brasília.

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